Por *Beatriz Coelho Silva*
em O Estado de S. Paulo <http://www.estado.com.br>
10 abril 2006

A difusão de livros na internet vai provocar uma revolução semelhante à
invenção da imprensa, mas é preciso estar atento para evitar que se torne
monopólio de países ou empresas e que sufoque a diversidade cultural que se
anuncia neste século 21. Essa é, em resumo, a idéia defendida pelo diretor
da Biblioteca Nacional da França <http://www.bnf.fr>, Jean-Nõel Jeanneney,
que esteve no Rio na semana passada para participar do Colóquio de
Bibliotecas Digitais, na Maison de France. Ele veio também lançar o
livro "*Quando
o Google Desafia a Europa: Em Defesa de uma Reação*" (Contra Capa Editora,
R$ 22), uma resposta à promessa do site de buscas de digitalizar e colocar
na rede mundial 7 milhões de títulos até 2010.

"O livro foi conseqüência de um artigo que escrevi no Le Monde no início de
2005, logo após o anúncio do Google <http://www.google.com.br>. É claro que
é bom ter acesso à informação, mas é preciso que seu controle não fique só
com uma empresa, que seu financiamento não se dê só pela publicidade e que
essa grande quantidade de informação seja ordenada", afirma Jeanneney, que é
historiador, foi diretor da Rádio France <http://www.radiofrance.fr> e
assumiu a Biblioteca Nacional de lá há quatro anos. "Não se pode deixar a
cultura e a difusão da língua só nas mãos do mercado. Quem é a favor dessa
liberdade absoluta acha que tudo se resolverá se não houver controle, mas
posso afirmar, como historiador, que não é isso que acontece."

Jeanneney lembrou que a invenção da imprensa, no século 15, ao mesmo tempo
que democratizou o conhecimento, até então guardado nos mosteiros e nas
poucas universidades existentes, eliminou culturas e línguas que não tinham
acesso fácil a esse meio. "É preciso evitar que isso ocorra novamente. Além
disso, o Estado sempre interveio nos meios de comunicação, criando barreiras
aos produtos estrangeiros ou cotas", lembrou ele. "Na internet é impossível
intervir dessa forma, mas pode-se agir afirmativamente, criando ou
estimulando a criação de bibliotecas virtuais e a publicação de mais e mais
títulos nessa nova mídia."

Segundo Jeanneney, o anúncio do Google chamou atenção dos governos europeus
para o controle da difusão cultural pela internet. "Há um consenso entre
governos de que é preciso ordenar a publicação de livros na internet,
uniformizar a forma de digitalização e de acesso do público e também a
preservação do direito do autor, detalhe que o Google tinha esquecido." Para
o diretor da Biblioteca Nacional da França, a participação da Alemanha no
colóquio evidencia essa preocupação. "Acordamos para a questão em 2005,
tomamos iniciativas em 2006 e teremos velocidade de cruzeiro em 2007."

Por velocidade de cruzeiro ele entende a digitalização de livros e seu
controle pelo Estado, mas sempre ouvindo a iniciativa privada, especialmente
as grandes empresas que podem patrocinar o processo e acelerá-lo. "É preciso
encontrar um equilíbrio, pois Estado e mercado devem ser parceiros nesse
processo. Há consenso na Europa de que não se pode deixar a preservação das
culturas nacionais e regionais nas mãos da iniciativa privada, mas esta pode
ser sócia nessa empreitada."Vi entre vocês uma procupação com a preservação
da cultura, sua difusão e o cuidado com a diversificação. O Brasil tem
também muita força intelectual e econômica, apesar das desigualdades
sociais. Mas a difusão de livros na internet pode contribuir para diminuir
essa desigualdade, pois é sabido que a cultura é uma das ferramentas para
chegar a esse resultado."

Como historiador e professor universitário, Jeanneney sempre viveu entre
livros, escrevendo-os - é autor de uma história dos meios de comunicação
adotada nas universidades européias, de um dicionário sobre rádio e
televisão franceses, ensaios sobre Victor Hugo e Clemenceau e outros
gêneros. Para ele, o livro físico é uma fonte de prazer única, não só pelo
conteúdo, mas também pelo tato e até o cheiro. "Livros novos têm um odor
particular, que faz parte do prazer da leitura", lembrou ele. "Hoje em dia
leio tanto na tela do computador quanto o livro físico. Quando quero uma
informação técnica, rápida, vou para a tela, mas se é por prazer, nada se
compara ao livro de papel."



Fonte: http://www.estado.com.br/editorias/2006/04/10/cad87347.xml



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Jonathan Pereira
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