Por *Sérgio Ripardo*
em Folha Online <http://www.folha.com.br>
11 abril 2006

Os blogueiros riram por último. No início, eram esnobados pela mídia
tradicional, vistos como uma brincadeira inconseqüente, de alcance restrito,
sem viabilidade econômica nem prestígio. Estavam condenados ao esquecimento.
Jamais fincariam pé na arena pública, ameaçando o espaço das castas, com
interferências no discurso veiculado ao grande público. A reviravolta
aconteceu. Os blogs invadiram o "show business" e se adaptam às velhas
regras do jogo.

Maior emissora de TV do país, a Globo <http://www.redeglobo.com.br> se
rendeu ao poder dos blogs --pelo menos, o "Caldeirão do
Huck<http://caldeiraodohuck.globo.com>",
programa para jovens nas tardes de sábado, horário que, no passado, era
ocupado por um ícone como Chacrinha ("quem não se comunica se trumbica";
morreu em 1988; se vivo, já teria seu blog). No próximo sábado, durante dez
minutos, o blogueiro Antonio Tabet, criador do "Kibe
Loco<http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u59533.shtml>",
terá um quadro de humor no programa de Luciano Huck, popularizando sua
máquina de zoar tudo.

É evidente que, em uma TV comercial como a Globo, os blogueiros vão ter
menos liberdade e enfrentar mais pressões para produzir e veicular seus
conteúdos --o que descaracteriza o sentido e as expectativas que marcam as
características originais e revolucionárias de um blog. É melhor encarar
esse movimento como um esforço da mídia tradicional de absorver o fenômeno
dos blogueiros, capitalizando esse novo formato. A lógica é: se o Kibe Loco
tem uma audiência cativa na web, por que não arriscar e fisgar esses
internautas para a TV aberta?

A MTV <http://mtv.terra.com.br>, emissora que hipnotiza a geração "teen" e
um termômetro comportamental das tribos urbanas, também aderiu à estética
blogueira na temporada 2006. Criou o "VidaLog <http://mtv.terra.com.br>",
onde jovens participam do programa falando sobre seus gostos musicais como
um blog.

Não é só na TV que os blogueiros estão virando celebridades. Nas estantes
das livrarias, há o fenômeno Bruna
Surfistinha<http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u58581.shtml>,
cujo "O Doce Veneno do Escorpião" ficou no topo dos livros mais vendidos no
país por quase seis meses. Antes, a história da ex-prostituta que relatava
suas experiências sexuais em um blog era citada apenas em notinhas em
revistas masculinas. Após o lançamento do livro pela editora
Panda<http://www.editoraoriginal.com.br>,
ganhou capas de revistas, presença obrigatória em telebarracos e agora se
prepara para lançar o segundo livro e estrear um filme.

Transformar um blog em uma máquina de fazer dinheiro (ou pelo menos pagar as
contas do mês) é o desejo íntimo de quem se aventura nesse meio. Pode ser
que um blogueiro queira, no final das contas, ser "cooptado pelo sistema"
(um verbo típico dos anos 70, hoje uma licença poética), e o blog seja
apenas um trampolim fácil e barato para o "pulo do gato", rumo ao
"mainstream" (mídia reconhecida e tradicional). Ou talvez, o mundo seja
perfeito, e o blog seja um filho que se embala para sempre.

Hoje, o marketing passa pelo blog. Atrizes como Luana
Piovani<http://www2.uol.com.br/luanapiovani/>e Samara
Felippo <http://www.samarafelippo.blogger.com.br>, a dançarina Sheilla
Mello<http://sheilamello.blog.uol.com.br>usam esses espaços no contato
com fãs e com a mídia de celebridades. Neste
mês, foi a vez do cantor Felipe Dylon
<http://www.lipedylon.blogger.com.br>lançar seu blog. Daqui a pouco,
quem sabe, até o presidente, o governador e
o prefeito de seu cidade decidam lançar seus próprios blogs, atualizados por
seus assessores --além de Suzane Richthofen (no caso, com mensagens postadas
por seu 
advogado<http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u120234.shtml>
).

No futuro, a massificação de novos formatos de transmitir conteúdos, como o
poadcast e o videocast, deve implodir o atual esqueleto dos blogs. Por que o
internauta vai se contentar com blocos de texto e imagens estáticas se é
cada vez mais comum divulgar vídeos e arquivos de voz pela web (vide
YouTube<http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u19855.shtml>)?
Mas o alcance dessas novas ferramentas (vídeo e áudio na web) esbarra na
desigualdade social. Nem todo mundo tem banda larga, e as medidas de inclusão
digital 
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2005/inclusaodigital/>(barateamento
dos micros e expansão da internet nas escolas públicas e
comunidades pobres, por exemplo) ainda são tímidas.

A atual geração de "celebridades blogueiras" pode desaparecer na esquina,
substituída por outro modismo da internet. Ninguém pergunta mais sobre o seu
ICQ <http://www.icq.com.br>, o seu mIRC <http://www.virtualife.com.br/mirc>,
o GeoCities <http://geocities.yahoo.com.br> e o
Cadê<http://br.cade.yahoo.com/dir>viraram um serviço do
Yahoo <http://www.yahoo.com.br>, e ninguém lembra mais do Baby Cha Cha
(animação de um bebê virtual dançando, criada em 1996 e popular no final dos
anos 90). Os blogueiros correm esse risco na arqueologia da internet, mas
por enquanto eles estão dando as cartas.


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u59550.shtml


--
Jonathan Pereira
oserbibliotecario.blogspot.com
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