História brasileira em risco

Documentos que contam a história da sociedade civil brasileira durante quatro 
séculos, que se encontram sob custódia da Igreja Católica, estão em situação de 
calamidade. Eis o diagnóstico feito pelo bibliotecário Cristian José Oliveira 
Santos, 29 anos, em sua dissertação de mestrado defendida na UnB 

O bibliotecário Cristian José Oliveira Santos, 29 anos, terminou o ano de 2006 
com uma surpresa agradável. Sua dissertação de mestrado foi o único trabalho 
brasileiro contemplado na primeira edição do concurso Latino Americano de 
Investigación em Bibliotecología, Documentación, Archivistica y Museología 
Fernando Baéz, na Argentina, que visa a premiar os melhores trabalhos na área 
de Ciência da Informação e Documentação.

"Pelo fato de eu ter apresentado meus ensaios em português, achei que minhas 
chances fossem menores. Foi uma surpresa fantástica quando vi meu nome entre os 
agraciados", afirma Cristian.

Defendida em julho de 2005, sob a orientação da professora do Departamento de 
Ciência da Informação e Documentação (CID) da Universidade de Brasília (UnB), 
Georgete Medleg, a dissertação de Cristian ganhou destaque por investigar a 
conservação de documentos brasileiros produzidos e guardados pela Igreja 
Católica na época do regime de padroado (1551-1854). O diagnóstico a que ele 
chegou é preocupante: de maneira geral, os papéis que contam quatro séculos de 
história da sociedade civil e religiosa brasileira estão em situação de 
calamidade. 

"Meu interesse pelo assunto surgiu em 2002, quando li um artigo do padre Jamil 
Nassi Abibib, que palestrou sobre os problemas dos arquivos eclesiásticos da 
Igreja Católica em uma mesa-redonda no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. 
Entrei em contato com ele e descobri que ninguém havia feito uma pesquisa nesse 
sentido", relembra Cristian. A intenção do trabalho desenvolvido, explica, é 
sensibilizar as autoridades e auxiliá-las na preservação desse patrimônio 
cultural. "Se perdermos esses registros, perderemos parte da nossa história 
para sempre", diz o pesquisador.

Metodologia - Durante o período do padroado, entre 1551 e 1854, foram criados 
11 arquivos das primeiras prelazias e dioceses brasileiras. São atas de óbito, 
certidões de batismo e casamento, atas das irmandades, documentos de 
propriedade de terra, entre outros. Todos importantes para qualquer pesquisa 
sobre o século XVII, por exemplo.

"Se alguém quiser saber do que as pessoas morriam naquela época, precisará 
necessariamente ter acesso a esses arquivos", afirma Cristian. Com isso, sua 
pesquisa foi voltada para essa época, quando ainda não existiam cartórios e 
todos os documentos civis eram produzidos em série e ficavam guardados nas 
dioceses.

Até hoje esses arquivos estão sob custódia da Igreja Católica, nas cidades de 
Goiás (GO), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ), Olinda (PE), São Luís (MA), 
Belém (PA), São Paulo (SP), Mariana (MG), Cuiabá (MT), Porto Alegre (RS), 
Diamantina (MG). Desse universo, oito responderam à pesquisa de Cristian (menos 
Rio de janeiro, Belém e Olinda), que partiu de questionários. Ele ainda fez um 
diagnóstico in loco em Goiás, onde também realizou entrevistas.

Dentre os quesitos levantados durante a investigação, Cristian Santos conta que 
procurou abordar aspectos importantes, como as características dos documentos, 
se são encadernados, se foram descartados e substituídos; a estrutura física do 
prédio que comporta os arquivos - se foi construído especificamente para essa 
finalidade, se apresenta medidas contra incêndio, ambiente ideal em termos de 
umidade e temperatura.

Ele avaliou ainda quem são as pessoas que cuidam dos documentos, se são 
arquivistas ou têm alguma formação dirigida à conservação adequada dos mesmos. 

Resultados - Dos vários problemas encontrados, a pesquisa revelou que 100% dos 
arquivos não estão conservados na temperatura e umidade ideais e apenas dois 
estão protegidos contra incêndio (Salvador e São Paulo). Nenhum deles 
apresentam condições adequadas para realização de pesquisas por estudiosos, ou 
seja, não são organizados por catálogos; nenhum dos prédios foi construído 
especificamente para receber os documentos e, com exceção da cidade de Mariana 
(MG), os demais não contam com quadro fixo de profissionais da área de 
Arquivologia.

"Os problemas são muitos, a situação é calamitosa", revela o bibliotecário. Ele 
critica a Igreja Católica brasileira ao afirmar que ela não se mostra 
preocupada com a conservação desse patrimônio.

Para solucionar os problemas apontados, o pesquisador faz algumas recomendações 
e afirma que não são as únicas medidas que devem ser tomadas pelo Estado em 
parceria com a Igreja Católica, mas que são as emergenciais.

Entre elas, Cristian sugere a criação de um órgão central permanente que seja 
responsável por definir uma política adequada para esses arquivos, prestando um 
serviço de assessoria. "Isso uniformizaria a coleta, a conservação, o 
tratamento e o uso desses fundos documentais", explica. 

Além disso, sugere a criação de um regulamento interno que defina como esses 
arquivos serão guardados, onde eles ficarão, quem cuidará deles, e assim por 
diante. Por fim, o que ele acredita ser o mais importante: estabelecer 
critérios mínimos para processar as informações arquivísticas, ou seja, criar 
um padrão de identificação bibliográfica a eles, palavras chaves, assuntos 
abordados e tipologia, por exemplo.

"Isso permitirá o intercâmbio dessas informações entre entidades, instituições 
de ensino e outros", conclui. 
(Flávia Lindgren, da UnB Agência)
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