a) Da biostase � tanatose

Ponto limite da biocemese, a biostase � o termo da vida afrouxada com
paragem completa de todas as fun��es da vida. Trata-se de um estado aparente
de morte funcional mas de um estado real de vida est�tica, por vezes
qualificada de vida suspensa (Larcher 1985). Por ser revers�vel - o sujeito
� suscept�vel de reanima��o espont�nea ou provocada - a biostase
distingue-se da tanatose (morte funcional, vida aparente). Consideremos a
din�mica deste transe: talvez possamos encontrar nela novos elementos
capazes de potenciar fecundas hip�teses te�ricas tendentes a explicar esse
intrigante mas fascinante fen�meno que s�o as NDE (near-death-experiences).
Outro exemplo: as telepatias tanatol�gicas com efeitos psicoquin�sicos
excelentemente relatadas por Gurney, Myers e Podmore (1886) compreende-se
melhor quando analisadas a partir da hip�tese heur�stica proporcionada pelo
transe profundo entre biostase e tanatose.

b) Da psicostase � beatitude

A psicostase, tamb�m denominada descanso ou descanso superior na m�stica
ocidental, � um estado de contempla��o da luz divina, e que se destingue da
morte est�tica - beatitude -, dada a sua reversibilidade. (Larcher, 1985).
Este transe superior � particularmente comum nas asceses m�ticas, onde se
assiste � ren�ncia do exerc�cio e da satisfa��o de certas fun��es. Ren�ncia
qualificada de mortifica��o (G�rres, 1854) das fun��es inferiores (sexuais,
digestivas, hepato-renais); das fun��es superiores (respirat�rias,
circulat�ria e nervosas); e das fun��es gerais (metab�licas, energ�ticas e
termodin�micas). Do esfor�o asc�tico parece brotar a energia "necess�ria �
eclos�o dos grande fen�menos paranormais da vida m�stica" (Larcher, 1979)
descritos por Herbert Thurston (1961).

3. Tanatomorfose e sentido dos fen�menos Psi

Da an�lise destes transes decorre a seguinte constata��o: ambos se situam no
limiar da reversibilidade, coincidindo com que o que qualifiquei de ponto ou
momento "tan�tico". Por outras palavras: tudo se passa como se os transes
pr�ximos da morte(quer ela seja funcional ou est�tica) permitissem a
emerg�ncia e a manifesta��o dos fen�menos paranormais mais "raros, mais
excepcionais e mais improv�veis, mas tamb�m os mais amplos, os mais intensos
e os mais significativos" (Larcher, 1992). Neste contexto, fen�menos como a
clarivid�ncia, a telepatia, a psicoquin�sia bem como os seus consequentes
efeitos som�ticos ganham outro sentido, mais intencional, ao antecipar a
condi��o do homem liberto dos constrangimentos do tempo, do espa�o e do
movimento. � como se "� sua margem normal de autonomia se acrescentasse uma
franja paranormal pr�pria a aumentar a sua autocin�sia visando o cumprimento
efectivo das tend�ncias mais profundas e mais secretas da humanidade"
(Larcher, 1992)
Assim interpretados � poss�vel conferir aos fen�menos psi um sentido
simultaneamente integrador e recapitulativo. N�o poucas vezes tais fen�menos
s�o qualificados de aberrantes: patol�gico desvio da norma. Acredito numa
ordem na qual se inscrevem essa manifesta��es e cuja perspectiva (Sentido)
consiste em cumprir a tend�ncia do homem para uma autonomia cada vez mais
evidente e perfeita. E se olharmos atentamente para o processo da
tanatomorfose (movimento que vai da morte funcional � destrui��o org�nica)
verificamos que este "tende a recapitular a filogenia ao regredir do homem
ao animal de sangue frio, ao vegetal e ao mineral antes da destrui��o
completa. Esta contracorrente fil�g�nica segue-se naturalmente �
contracorrente ontog�nica" (Larcher, 1992) impl�cita nas mortifica��es
funcionais parciais de que fal�mos.
Aqui se fecha o c�rculo sem que, contudo, seja poss�vel colmatar a fenda por
onde irrompe a quest�o fundamental: a passagem da morte para a imortalidade.
E � neste ponto de intersec��o que gostaria de finalizar: onde acaba a
ci�ncia para ceder o lugar ao acto de f�...

Conclus�o

O presente trabalho � o primeiro resultado de um projecto mais vasto e
ambicioso que se encontra em curso: a tentativa de sistematizar as rela��es
entre a Parapsicologia e a Tanatologia. Por tanatologia entenda-se o
conjunto de todos os saberes filos�ficos, teol�gicos e sobretudo cient�ficos
que se referem � morte (L.V. Thomas, 1994). Neste sentido, e para ser mais
preciso, a tanatologia  tem por objecto o morrer, a morte e o
depois-da-morte. Estou consciente do imenso labor que semelhante projecto
requer para  ser levado a bom porto, sobretudo quando navegamos em �guas
onde, como sabemos, a observa��o como a experimenta��o s�o dificilmente
repet�veis. Estou absolutamente convicto, e tentei mostr�-lo noutro artigo
(J. C. Pereira, 1996), da import�ncia que pode ter uma ci�ncia da morte na
explica��o de certos (sen�o todos) fen�menos parapsicol�gicos. Mas, em
termos exclusivamente cient�ficos, o que vale uma convic��o? Porventura
quase nada. Este nada, por�m, � quase tudo: � do espanto do homem perante a
realidade, como refere Plat�o, que decorre a especula��o filos�fica, que por
sua vez d� lugar �s primeiras hip�teses cientificas que procuramos depois
confirmar pela experimenta��o. A frieza do laborat�rio tende muitas vezes a
ocultar esta verdade t�o simples e singela, mas igualmente t�o decisiva: no
in�cio est� o logos, isto �, o homem-no-mundo, o ser em busca do Ser e da
Palavra que o diga...
Este era, na verdade, o objectivo impl�cito que visava com este texto:
sensibilizar a comunidade parapsicol�gica para a pertin�ncia da dimens�o
filos�fica inerente � problem�tica do paranormal.

Refer�ncias bibliogr�ficas

G�RRES (1854). La Mystique. Paris: Poussielgue-Rusand.
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pelo autor).
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