"A chuva não molhar"

MENTIRA? ALUCINAÇÃO? — Sob o atual pontificado de João Paulo II, no processo de beatificação do apóstolo do Brasil, beato Anchieta, os advogados tiveram de superar as quase violentas investidas de três "advogados do Diabo", como se chamavam antigamente os que hoje conhecemos como promotores da justiça (ou da fé, concretamente nas causas canônicas). Porque não era fácil aceitar, num mundo infeccionado de racionalismo e modernismo, um dos milagres apresentados:

Durante a vida do pe. Anchieta (1534-1597), um barqueiro garantia a quantos quisessem ouvir. A barca em que viajava o pe. Anchieta afundou. O padre ficou retido no fundo pela barca virada. E o barqueiro até uma hora depois viu o pe. Anchieta tranqüilamente lendo seu breviário lá, embaixo da água. Quando o retiraram, nem o padre nem o livro haviam se molhado!41.

*** Os promotores de justiça pintaram o caso como extravagante. O barqueiro mentia ou sofrera uma alucinação. Em matéria de milagre teria sido mais simples evitar o naufrágio…

— Os advogados frisaram que não se trata de estabelecer e comparar todas as possibilidades. Nem de determinar qual teria sido a mais simples. Trata-se de reconhecer se foi um fato ou não.

— Há casos análogos. Muitos.

— É até característico que o milagre realize precisamente o mais simples. Por exemplo, não evita a condenação nem apaga a fornalha, "simplesmente" protege os santos dos efeitos do fogo. Paralelamente, não evita o naufrágio nem levita do fundo do rio o náufrago, "simplesmente" o protege da água…

"CASOS ANÁLOGOS" — O profeta Isaías prometeu em nome de Deus: "Iahweh criará (…) uma choupana (…) para ser um refúgio e esconderijo da tempestade e da chuva (…) Quanto às nuvens, ordenar-lhes-ei que não derramem a sua chuva sobre ela" (Is 4,6; 5,6b).

Não é puro simbolismo. Seleciono alguns fatos em diversas datas.

* Século V. Santa Genoveva (422-512), grande taumaturga durante a segunda metade de sua longa vida, a padroeira de Paris. Pretas nuvens e abundante chuva ameaçavam inundar o campo onde os ceifeiros estavam trabalhando, e toda a colheita se perderia. Santa Genoveva deu a ordem. As nuvens se abriram em círculo. Durante longo tempo um imenso aguaceiro caiu todo ao redor, mas nem uma gota caiu no campo onde a ceifa continuou em meio a lágrimas e cantos de agradecimento e louvor a Deus42.

* Século VI. S. Aubin (470-550) fora enviado pelo abade de Cincillac para tentar convencer os habitantes de Angers sobre importante acordo. Durante a numerosa assembléia, subitamente desaba furiosa tormenta. Todos ficaram ensopados, mas nem sequer uma gota "se atreveu a tocar no santo", assim convencendo a todos que deviam obedecer o pedido que tão santo mensageiro transmitia43.

* Século VII. S. Eumaco de Perigord, bispo de Viviers. Já era difícil que os ouvintes agüentassem a pé firme ao ar livre naquele gelado dia de inverno na França. E piorou: quando o santo estava no mais crucial da sua pregação, desabou uma grande tormenta de neve. Mas precisamente daí surgiu o mais poderoso argumento: por ordem do santo, nem um floco de neve caiu sobre nenhum dos ouvintes nem no jardim onde estavam44.

* Também no século VII. S. Maidoc, que depois seria abade de Fiddownn, na Irlanda, no ano 632 era ainda muito jovem. Sentado no campo, estava lendo um livro dos mais prezados da biblioteca do convento. Seu mestre S. David chamou o discípulo. Afoito em obedecer, o jovem S. Maidoc esqueceu o livro. Pouco depois caía uma forte chuva. Quando mais tarde, angustiado e rezando sem saber claramente para quê, S. Maidoc vai em procura do prezado livro, qual não seria sua alegria e terno agradecimento à delicadeza divina por encontrar em meio ao lodaçal o livro completamente seco!45.

* Entre os recolhidos nos fichários do CLAP, posso encontrar, num só século, três casos muito parecidos ao de S. Maidoc. Pulemos, pois, ao século XII:

1) S. Bernardo (1091-1153) de Claraval (ou Clairvaux, França). O fato é endossado nada menos que por Bento XIV46.

O santo abade estava ditando um importante documento. Repentinamente desabou uma violenta chuva. O amanuense pretendeu fugir para logo recopiar o já escrito, antes que fosse impossível decifrá-lo estragado pela água. Mas o santo o reteve: "É documento de Deus. Continua escrevendo. Não temas". E com grande surpresa o amanuense observou que a tinta estava intacta, as folhas secas…, e que pôde continuar escrevendo na chuva sem que nem eles nem os papéis se molhassem!47.

2) S. Ubaldo (1084-1160), bispo de Gubbio (Itália), esqueceu o livro das regras monacais sob uma árvore, onde estivera dormindo com seu acompanhante. Já caminhando havia algum tempo, sobreveio uma grande chuva. Depois da prolongada chuva voltaram, preocupado o companheiro, seguro de que o livro das regras estaria completamente estragado, e seria praticamente impossível conseguir outro exemplar; S. Ubaldo, tranqüilo, confiando e rezando a Deus. Com efeito, nem uma gota de água caíra sobre o livro, apesar de o enorme aguaceiro ter encharcado plenamente tudo, absolutamente tudo ao redor do livro48.

3) Santa Margarida (1046-1093), rainha da Escócia, lia freqüentemente e tinha um carinho e estima todo especiais por um determinado exemplar dos Evangelhos. Mandara ilustrá-lo com gravuras dos quatro evangelistas, banhar a ouro cada letra inicial, colocá-lo pastas de couro decorado e dourado… Numa palavra "presenteava" o livro e transferia para ele todo o amor que sentia pelo seu Rei Eterno, cuja vida descrevia o livro.

Um dia, quando Santa Margarida passeava acariciando uma página, o livro caiu das suas mãos. No rio!

Ninguém conseguiu no momento recuperar o livro da rainha. Mas pelo carinho e estima que sentiam pela exemplar e caridosa rainha muitos espontaneamente vasculharam com toda minúcia o rio até a desembocadura. E encontraram o livro. Dias depois!

Quando a notícia chegou ao palácio, todos, menos a rainha!, tinham certeza de que o livro estaria destroçado. Mas a rainha sabia e todos comprovaram que o livro estava absolutamente perfeito: não descoloriram as páginas, não foram danificadas em nada as iluminações, as pastas de couro não foram prejudicadas, nada que se pudesse perceber… Terminaram por comprovar que na realidade o livro "simplesmente" não fora atingido pela água! Nem pela água das mãos molhadas do "pescador"!

Por tratar-se de um milagre… "inútil" ao parecer dos intelectuais, a rainha sabia e esperava que precisamente por isso era uma mostra muito maior da delicadeza e amor do Rei a Quem ela dera todo seu coração e toda sua vida. Assim o entenderam também os súditos da rainha49.

— Pelo visto, entre eles, lá e então não havia nem racionalistas nem modernistas.

* E ainda no século XII. Na diocese de Moulins (França). Santa Torete foi pastora de ovelhas, ficando a vida toda na solidão. Com referência a um fato aparentemente corriqueiro para a santa, mas que impressionou profundamente as testemunhas que foram visitá-la naquele dia, sendo surpreendidos por uma violenta tormenta de verão, comenta poeticamente o biógrafo: "Não teme, santa pastora! Apesar da chuva cair torrencialmente ao teu redor e de inundar tudo perto de ti, não escurecerá sobre ti. Ao redor de ti e do teu rebanho o tempo será agradável e aconchegante. Como nova madeixa do toS. de Gedeão, tu ficarás seca enquanto tudo ao redor está molhado. Não temas, tu, graciosa menina; porque que tempestade pode injuriar-te a ti cuja confiança em Deus é assim de grande?"50.

* Século XIII. S. Domingos (1170-1221) de Guzmán (Espanha). Certa vez sua valise caiu no rio. Profundo. Dias depois, voltou ao lugar com outros frades, que pretendiam salvar alguma coisa e que não conseguiam explicar-se a serenidade de S. Domingos, porque sabiam que entre as coisas perdidas havia livros e documentos de grande importância. Por fim conseguiram "pescar" a valise. Ela e todo o seu conteúdo estavam completamente secos!

Numerosas testemunhas garantem que também outras várias vezes caminhou, nas suas viagens, no meio da chuva, sem que ele e sua valise sofressem um só pingo51.

* Santo Antonio (1185-1231) estava pregando em Bruges — Bélgica. Era um dia de verão. Campo aberto. Repentinamente arma-se a tempestade. Para sublinhar sua pregação o santo pede à multidão que não se disperse, promete em nome de Deus que não se molharão. Imediatamente parecia que as nuvens caíam compactas. Mas o santo continuou pregando, e "nem uma gota de água alcançou a multidão, nenhum dos que escutavam as palavras do pregador molhou-se no aguaceiro"52.

* Mais outro fato com Santo Antonio de Pádua, um dos maiores taumaturgos de todos os tempos. Chega imprevistamente com uns companheiros ao convento de Brives — França. Não havia provisões na despensa. O santo pede a uma senhora amiga que lhes dê alguns vegetais.

Justo quando a senhora manda sua empregada a recolher vegetais com certa abundância na horta, descarrega uma forte tormenta. A horta estava a considerável distância da casa. A jovem, porém, obedeceu. "Grande foi o espanto da dona (e da jovem), quando comprovou que nem uma gota a alcançara, apesar de que não cessou de chover nem um minuto, e a empregada havia estado exposta à chuva durante mais de meia hora"53.

* Século XV. Fatos posteriormente expressamente endossados como históricos e como milagrosos por Bento XIV54:

1) Na vigília da festa dos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, no ano de 1438, Santa Francisca Romana (1384-1440) junto com outras freiras entrou no recinto junto à igreja de S. Paulo. Puseram-se a meditar e orar. Pouco depois Santa Francisca caía em êxtase, de joelhos, precisamente dentro da alverca de água. Ali ficou completamente banhada pela água, da cintura para baixo. Quando muito tempo depois "acordou" e saiu da água, as freiras pasmadas verificaram que estava completamente seca, a água não atingira nem um fio da roupa.

2) No mesmo ano, no mesmo recinto, estavam recitando as freiras o Ofício (no Breviário canônico) de Nossa Senhora, quando sobreveio uma forte chuva. As outras irmãs fugiram para o átrio da igreja, e de lá viram como Santa Francisca Romana, concentrada na oração, parecia nem ter percebido: continuou caminhando e rezando até terminar a oração. Então veio ao encontro das irmãs: não fora atingida nem por uma gota da chuva55.

* Século XVI. Santo André Avelino (1521-1608) numa noite tempestuosa precisa ir do convento de S. Paulo, em Roma, à casa do regente Camilo de Curtis para atender a Catarina Carafa, gravemente doente. Acompanhado de dois companheiros Santo André enfrenta a tempestade. Rajadas de vento e chuva apagam imediatamente as candeias. Um resplendor procedente "de perto do corpo de Santo André" ilumina toda a estrada diante deles. Todos na casa do regente ficam admirados de que a chuva não lhes haja molhado nem um cabelo. Exatamente o mesmo no caminho de volta ao convento, como todos puderam verificar e depois testemunharam. O Santo simplesmente explicou: "Iahweh protege os simples" — Sl 116,6 — 56.

* Também no século XVI. Os magníficos historiadores, os Bolandistas, garantem. S. Filipe De Néri (1515-1595), dirigindo grande multidão, precisa continuar a peregrinação após um pequeno descanso em campo aberto. Ameaça enorme tempestade. O santo dá a ordem de partida. Muitos o seguem. Outros muitos, porém, se dispersam em várias direções em procura de abrigo na cidadezinha e casarios próximos. Mas não houve mais tempo. A tormenta desaba violentíssima tanto sobre os que ficaram com o santo como sobre os que dele se separaram. Embora ainda à relativamente curta distância, os que procuravam abrigo foram duramente "castigados" pela tempestade e perderam muitos dos seus pertences. Todos, porém, puderam verificar que, embora houvessem ficado sob o mesmo "teto" de nuvens terrivelmente carregadas, nem uma gota caíra sobre os que seguiram o santo nem sobre seus pertences57.

* Século XVIII. S. João-José Da Cruz (1654-1734) não podia suspender nem interromper a viagem. Durante toda a longa caminhada, a chuva caía incessantemente. Mas S. João-José e seu atônito companheiro absolutamente não se molharam58.

[continua]

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