FATOS SUPRANORMAIS — Acabamos de aludir a S. Paulo. Interrompo a refutação das teorias racionalistas-modernistas detendo-me agora em atender a essa aluS.: dentre os numerosos milagres que Deus realizou por “intermédio” de S. Paulo e no próprio S. Paulo (de todo tipo: de conhecimento, de revitalização, de tempestade acalmada, de cura…, e que iremos vendo nesta mesma coleção e em outros livros), escolho só um milagre pertencente à classificação que agora corresponde. Diríamos que corresponde por “associação de idéias” a muitos dos milagres de invulnerabilidade descritos até agora.

“Quem habita na proteção do Altíssimo, pernoita à sombra de Shaddai (Deus do Céu ou Onipotente), dizendo a Iahweh: ‘Meu abrigo, minha fortaleza, meu Deus em quem confio’ (…); tu que dizes: ‘Iahweh é o meu abrigo’, e fazes do Altíssimo o teu refúgio (…), poderás caminhar sobre a áspide e a víbora (…)” (Sl 91,1-2.9.13).

Eis que Eu vos dei o poder de pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo, e nada poderá vos causar dano” (Lc 10,19).

“Estes S. os sinais que acompanharão aos que tiverem crido: (…) pegarão em serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão (…)” (Mc 16,18).

Mas comecemos pelo Antigo Testamento, de modo a estabelecer, como sempre, o “efeito bumerangue”: os casos antigos e modernos vão se confirmando mutuamente.

A SERPENTE DE BRONZE — “No caminho o povo perdeu a paciência. Falou contra Deus e contra Moisés: ‘Por que nos fizeste subir do Egito para morrermos neste deserto?’ (…) Então Deus enviou (= permitiu, na Sua Providência ordinária) contra o povo serpentes abrasadoras, cuja mordedura fez perecer muita gente em Israel. Veio o povo dizer a Moisés: ‘Pecamos ao falarmos contra Iahweh e contra ti (um dos numerosos motivos pelos quais Deus permite o sofrimento é para colaborarmos com Cristo — a Quem o texto aludirá logo mais — na redenção dos pecados). Intercede junto de Iahweh para que afaste de nós estas serpentes’. Moisés intercedeu pelo povo e Iahweh respondeu-lhe: ‘Faze uma serpente abrasadora e coloca-a em uma haste. Todo aquele que for mordido e a contemplar viverá. Moisés, portanto, fez uma serpente de bronze e a colocou em uma haste; se alguém era mordido por uma serpente, contemplava a serpente de bronze e vivia” (Nm 21,4-9).

— Trata-se de muitos milagres de invulnerabilidade ou cura imediata do veneno mortal daquelas serpentes.

— O conjunto é, além disso, um milagre de profecia, simbolicamente anunciando a paixão de Cristo para a redenção de todas as pessoas que com boa vontade olhem para Quem pende do madeiro. Explicou o próprio Jesus Cristo a Nicodemus: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que crer tenha nele a vida eterna” (Jo 3,14s). “Olharão para Aquele que traspassaram”, completa S. João (Jo 20,37), e S. Pedro: “Sobre o madeiro levou os nossos pecados” (1Pd 2,24).

S. PAULO E A SERPENTE — Depois que os prisioneiros S. Paulo e S. Lucas, junto com o centurião e soldados romanos, se salvaram da violenta tempestade, desembarcaram na ilha de Malta. “Os nativos — conta S. Lucas — nos trataram com extraordnárias atenções. Acolheram-nos perto de uma grande fogueira que haviam acendido por causa da chuva que caía e do frio. Como Paulo apanhasse uma braçada de gravetos e a lançasse ao fogo, uma víbora que saiu por causa do calor prendeu-se à sua mão. Quando os nativos viram o animal suspenso em sua mão, disseram entre sí: ‘Certamente este homem é assassino; acaba de escapar ao mar, e a Justiça não lhe permite viver’. Mas ele sacudiu o animal no fogo, e não sofreu mal algum. Esperavam vê-lo inchar, ou cair de repente morto. Depois de esperarem muito tempo, ao verem que nada de anormal lhe acontecia, mudaram de parecer e puseram-se a dizer que era um deus” (At 28,1-6).

AO LONGO DA HISTÓRIA — É claro que não só no Antigo Testamento como com a serpente de bronze de Moisés, nem só no Novo Testamento como S. Paulo com a víbora na ilha de Malta. O “efeito bumerangue” em toda classe de milagres abarca toda a história, sucessivamente, judaica, cristã e concretamente católica.

* Século II. Talvez o leitor lembre-se do martírio de S. Victor, que mencionamos no capítulo 2. Entre outros tormentos dos quais saiu completamente ileso, também saiu plenamente ileso de mortais venenos que lhe obrigaram a beber, de uma ducha com óleo fervente, de cal e vinagre que lhe enfiaram brutalmente pela garganta.

* Outro exemplo, no final do século III. S. Jorge de Capadócia, comandante da guarda do imperador Diocleciano, o santo militar cristão cuja história foi completamente fantasiada pela umbanda brasileira.

Quando o imperador viu a valentia e invulnerabilidade com que S. Jorge superava todos os tormentos, pensando que fosse uma magia mais poderosa, mandou chamar Atanásio, o mais famoso mago do império.

Atanásio, que pelo visto não confiava nos seus próprios malefícios, recorreu, sob o disfarce de que eram poções mágicas, aos mais poderosos venenos que conseguiu preparar após muita consulta, colaboração e tempo “exigidos pelos rituais de alta magia”.

Levado de novo perante o imperador Diocleciano, S. Jorge calma e tranqüilamente bebeu com absoluta invulnerabilidade todos os venenos que impressionadíssimo o mago Atanásio lhe foi oferecendo.

A história foi escrita por Pasicrates, íntimo amigo de S. Jorge e testemunha ocular dos fatos3.

* Outro exemplo. No ano 450. S. Audaldo foi pregar o Evangelho ao exército de Átila, rei dos hunos. Guilherme, irmão do rei, submeteu o santo aos mais atrozes tormentos, não o deixando senão quando todos e o próprio Guilherme, que estava presente, pensavam que o corpo do mártir estava completamente esquartejado e esmagado como se fosse uma lâmina de poucos centímetros de espessura.

Quando foram enterrar o que ficara de S. Audaldo, verificaram que estava vivo e em perfeito estado.

Então outra autoridade dos hunos, Valamir, ridicularizando Guilherme, se encarregou de martirizar S. Adualdo. Valamir preparou uma exibição pública. E avisou: se a magia dos cristãos conseguisse fazer que Adualdo saísse ileso da máquina de aplastar e dilacerar, então teria de enfrentar não uma gota, senão um copo inteiro do concentradíssimo e absolutamente mortal veneno dos godos.

S. Audaldo de novo, ao sair da máquina dos tormentos, imediatamente se refez completamente. Exasperado Valamir, e furioso ainda mais pelos gritos da multidão, mandou S. Audaldo beber até o fundo o copo do veneno dos godos. S. Adualdo fez o sinal-da-cruz e lentamente foi sorvendo todo o conteúdo do copo: nenhum grito ou gesto de dor, nenhuma contração, nenhum espasmo, antes pelo contrário saboreando o veneno “como se fosse um confortável licor”.

Ao santo então foi concedida plena liberdade para pregar o Evangelho entre os godos4.

* Pulemos ao século XVII. Do beato Antônio Baldinucci S.J. (1665-1717) o bispo Pedro Tiago Pichius, de Cittá Ducale, testemunhou para o processo que em várias ocasiões viu-o agarrar com as mãos víboras, mesmo nós de víboras, para limpar o campo onde se haveriam de reunir as pessoas para as suas pregações de missionário popular ou para suas celebrações da Santa Missa.

O pe. Pedro Cavalloni, de Ortona, também para o processo, garantiu: durante a pregação numa misS. popular, fez-se o pânico quando surgiu uma víbora bem grossa e comprida serpenteando entre o grupo das mulheres. A testemunha afirma que com seus próprios olhos viu o pe. Baldinucci descer tranqüilamente do púlpito armado na praça, e com o pé descalço enfrentar a serpente, que ficou pendente do dedo grande do pé do jesuíta. Santo Antônio sacudiu-a, afugentou--a e a serpente desapareceu sem que  fosse novamente vista. A misS. continuou assim tranqüilamente, mais piedosa porque todos testemunharam o milagre.

Sobre casos como esse com Santo Antônio Baldinucci abundam os testemunhos5.

* Da mesma época era o irmão leigo Jerônimo Terzo (+ 1758), carmelita descalço. O pedreiro Inácio Mure trabalhava no Convento della Scala quando uma víbora, saindo das pedras, se aproximava ameaçadora. Apavorado, o pedreiro ficou imóvel, gritando pelo irmão com fama de santo. O irmão Jerônimo acudiu pressuroso e — jura o operário no processo — ao tempo que dizia “Em nome de Deus, fica sossegada”, pegou a cobra com a mão e depois esmagou-lhe a cabeça com uma pedra enquanto dizia: “Senhor, afugenta e mata assim o pecado de minha alma e os do meu próximo”6.

  pouco É APROVEITÁVEL — Como vimos — e ainda iremos vendo — trata-se de fatos. Contra tantíssimos fatos nada valem as negações apriorísticas.

Na análise dos fatos, muito pouca coisa de verdade encerra todo o conjunto da teoria racionalista-modernista, mas é importante esse pouco de verdade com a qual os racionalistas disfarçaram sua má intenção: certamente o milagre não é nem corriqueiro, nem meramente para resolver problemas humanos mais ou menos egoístas.

Até que ponto sejam numerosos os milagres e a Divina Providência, em que determinadas circunstâncias e com que pessoas etc. é que haverá que deduzir do estudo dos fatos. Estudamo-lo em toda esta coleção.

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    Fernando De Matos:
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