*** “MENTALIDADE MODERNA”? — Não foi assim antes, nem é assim hoje. O racionalismo era praticamente inexistente antes do século XVIII. Na realidade trata-se de grupos organizados e muitas vezes doentiamente resistentes a Deus, ou contra os valores espirituais, ou contra o Catolicismo etc., que acintosamente espalharam pelo mundo o racionalismo. E triunfaram em grandes camadas e durante mais de dois séculos.

Uma prova, dentre muitas; e muito conhecida porque divulgada por um astuto escritor popular cujos “romances” estão divulgados massivamente em todas as línguas. Escreve Erich von Däniken: “Há alguns poucos anos realizou-se na Alemanha Ocidental — incluída Berlim (então dividida) — uma pesquisa de opinião, comprovando-se que 53% das pessoas interrogadas acreditavam em milagres e aparições (sem dúvida que este segundo aspecto diminuiu a porcentagem, pela ingenuidade e até ridícula mentalidade de muitas das chamadas aparições), 36% não acreditavam nessas coisas (na realidade duas coisas bem diferentes) e 11% estavam indecisos. Existem outros países, mormente nas áreas onde predominam os católicos (aqueles católicos que têm a sorte de estar longe dos modernistas, dessa maioria aplastante dos teólogos), em que a porcentagem dos que acreditam ao menos em alguns milagres é consideravelmente mais elevada”21.

Com uma segunda prova, irretorquível, já acenei antes. A facilidade com que explodem os “carismas”, a enorme proliferação de seitas, as ridículas e abundantes superstições precisamente em muitíssimos dos que se proclamam ateus, tudo isso é uma prova insofismável de que S. inatas no coração do homem a esperança e a fé na intervenção sobrenatural. Essa é, pois, a mentalidade moderna e antiga. Essa é a mentalidade universal.

Poderíamos também frisar que no fundo do apelo às superstições e seitas de toda espécie germina uma tendência boa: os que ficaram sem fundamento na fé e os que a perderam por culpa do racionalismo e modernismo ambientais “afogam-se” e procuram desnorteados onde firmar-se e onde encontrar o rumo e sentido da vida. Jesus, “ao ver a multidão, teve compaixão dela porque estava (…) como ovelhas sem pastor” (Mt 9,37par).

*** “APESAR DO MILAGRE”? — Até a saciedade está provado que os racionalistas “chutam” slogans peremptórios sem mais “fundamentos” que meras deturpações pseudocientíficas, e que os modernistas quase só os repetem, no máximo acrescentando meras tergiversações falsamente exegéticas ou falsamente teológicas.

Quem provou que hoje a fé já não se fundamenta e não aprofunda suas raízes nos milagres? Quem provou que hoje muitos cristãos acreditam firmemente sem milagres, ou apesar dos milagres?!

É evidente que a imensa maioria dos que crêem pessoalmente nunca viram um milagre (verdadeiro; todos conhecem milagrarias e explorações nas seitas etc.). Mas convido os psicólogos a procurar nas profundezas dos cristãos convictos os motivos da fé. Prescindamos de alguns fanáticos doentes, como em todas as religiões e mesmo no ateísmo. Comprovarão que próxima ou remotamente, em milagres modernos ou ao menos nos de Cristo e dos apóstolos, reflexa ou meio inconscientemente é pelos milagres que os cristãos convictos têm essa firme certeza de estar no caminho que leva ao Pai.

Ou então essa “firmeza” não é real, na primeira dificuldade trocam de religião ou a abandonam.

É só pesquisar, teólogos modernistas, antes de tagarelar.

*** “O SINAL É SUBJETIVO”? — Os racionalistas lançaram dificuldades contra o milagre como “critério da fé objetivo, certíssimo, único, necessário e acomodado a todas as inteligências” (voltarei a isto). Muitos racionalistas (manifesta torcida intenção) pretenderam substituir o motivo objetivo da fé por critérios subjetivos e inclusive individuais. E os modernistas repetem tudo, insistem em que “o sinal” (como eles o entendem!) depende do “contexto vital”, do “contexto moral” dos “seus beneficiários” etc.

— É verdade que a crítica histórica e a parapsicologia hão arrancado algumas páginas, e mesmo muitas páginas, das coletâneas populares de “milagres”. O tema do milagre, precisamente pela necessidade inata que o homem tem da assinatura de Deus para poder racionalmente aceitar a Revelação e ser firme na fé, presta-se a ilusões, enganos e inclusive a grosseiros truques mal-intencionados.

Mas os verdadeiros milagres, evidentes com só olhar para eles sem preconceitos, saem tanto mais brilhantes quanto mais sejam submetidos à pesquisa científica. É precisamente por isso que os racionalistas tentaram que não fossem estudados!

Em confronto com as dificuldades, inventadas, deturpadas e no mínimo exageradas que os racionalistas levantaram contra o critério objetivo, há que ressaltar as reais dificuldades enormes dos critérios subjetivos que os modernistas exaltam.

Todos conhecem — e não é admissível que nem os próprios racionalistas e modernistas desconheçam — as dúvidas, os erros e os enganos a que está exposta e em que cai a experiência religiosa abandonada a si mesma. Precisamente por estar ligada demais às condições morais, intelectuais e inclusive fisiológicas de cada pessoa. Todas as religiões fazem apelo à experiência subjetiva. Também as mais burlas seitas, as mais falsificadas, as mais apócrifas, inventadas por meros interesses pecuniários ou por quaisquer outras finalidades escusas, apelam aos critérios subjetivos e neles apóiam seu pretenso direito sobre as pessoas que exploram. Se os critérios subjetivos individuais registram no seu ativo alguma que outra sublime elevação, em contrapartida registram ordinariamente no seu passivo inumeráveis aberrações, superstições irracionais e absurdas falsidades.

Como os modernistas puderam aceitar a contradição de que critério subjetivo é objetivo? Como pretenderam substituir o critério objetivo pelo subjetivo? Como o subjetivo pode ser critério da verdade? É “irreflexão teológica” demais!

Porque não fosse a “irreflexão” típica dos teólogos modernistas haveríamos de repetir também contra eles o que já na época lançava contra os racionalistas um destacado filósofo e teólogo jesuíta: Os racionalistas falham plenamente no papel de filósofos. O que lançam contra o milagre certamente S. deturpações mal-intencionadas. Se o afirmassem sinceramente, “estaríamos obrigados a duvidar da sua inteligência22. Aos modernistas, com suas argúcias claudicantes e tergiversações contraditórias, só cabem duas atitudes: ou ficar mudos feitos um novelo sem saber por onde tirar, ou se falam renunciar a toda lógica. A maior parte optou grotescamente pela segunda atitude.

*** “OS MILAGRES NÃO ME INTERESSAM” — Conheço um hábil charlatão argentino que se disfarça de parapsicólogo… Bom, não é raro escutar essa frase, inclusive de quem menos se esperaria.

— Costumo responder brincando que é um fenômeno parapsicológico que renuncio a explicar como alguém dentro da parapsicologia, da ciência que estuda os mistérios, pode não se interessar pelo estudo dos… (digamos antes do estudo:) pretensos milagres. Até que extremos de incongruência imbecil pode levar a lavagem cerebral causada pelo ambiente racionalista e modernista!

Os racionalistas adotam uma posição, além de apriorística, altamente prejudicial, porque se negam a estudar precisamente os fatos de máxima importância.

Se fossem capazes, deveriam refletir sobre o ponto, lógico e evidente, que precisamente para eles propôs Karl Adam, teólogo alemão: “O historiador não tem o direito de pretender excluir, apriori e por princípio, a possibilidade de uma intervenção de Deus no mundo. A única atitude razoável para o homem, do momento em que apareça a simples possibilidade do divino, mesmo que remota, é a procura humilde e respeitosa. Porque o problema de Deus (…) não é para nós da mesma ordem que a organização das formigas ou a vida dos insetos”23. Comparada com o milagre, a organização das formigas é tão interessante quanto um arroto no meio de um tornado.

Ora, se as formigas e os insetos e tantos outros temas de pouquíssima importância relativa S. tão estudados por tantos e tão grandes cientistas, é realmente imperdoável que muitos desses mesmos cientistas, racionalistas, se neguem a estudar o importantíssimo e transcendental tema do milagre. Isso mais que puro apriorismo anticientífico é já doença psiquiátrica… Ou então cristalizaram-se na mesquinhez, “pobres de espírito” (Charles Richet).

VÁRIAS MODALIDADES — Contra as negações racionalistas-modernistas, carregadas de ignorância, apresentemos ainda mais fatos. Completando o tema da invulnerabilidade. Além da invulnerabilidade às picadas das serpentes peçonhentas, aos venenos, aos mais dilacerantes e pungentes tormentos, ao fogo…, há outros vários tipos de milagres de invulnerabilidade.

Entre eles, e análogo ao do fogo, constitui um grupo destacável por seu número o tipo de invulnerabilidade ao piche ou óleo fervente.

 [Continua]

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