Mario de Andrade, Macunaíma e a professora municipal
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MACUNAÍMA
O herói sem nenhum caráter
(rapsódia)
Mário de Andrade, 1ª edição 1928, Livraria José Olympio Editora, Rio de
Janeiro.
I
Macunaíma
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era
preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o
silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a
índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de
Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de
seis anos não falando. Sio incitavam a falar exclamava:
— Ai! que preguiça!. . .
e não dizia mais nada.” Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de
paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos
que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento
dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em
dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando
a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do
banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa
dos guaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo si alguma
cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas
graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém
respeitava os velhos, e freqüentava com aplicação a murua a poracê o
torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo.
Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo
de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava
quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando
palavras-feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar.
Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as
peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando
que “espinho que pinica, de pequeno já traz ponta”, e numa pagelança Rei
Nagô fez um discurso e avisou que o herói era inteligente.
Nem bem teve seis anos deram água num chocalho pra ele e Macunaíma
principiou falando como todos. E pediu pra mãe que largasse da mandioca
ralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A mãe não quis
porque não podia largar da mandioca não. Macunaíma choramingou dia
inteiro. De noite continuou chorando. No outro dia esperou com o olho
esquerdo dormindo que a mãe principiasse o trabalho. Então pediu pra ela
que largasse de tecer o paneiro de guarumá-membeca e levasse ele no mato
passear. A mãe não quis porque não podia largar o paneiro não. E pediu
pra nora, companheira de Jiguê que levasse o menino. A companheira de
Jiguê era bem moça e chamava Sofará. Foi se aproximando ressabiada porém
desta vez Macunaíma ficou muito quieto sem botar a mão na graça de
ninguém. A moça carregou o piá nas costas e foi até o pé de aninga na
beira do rio. A água parará pra inventar um ponteio de gozo nas folhas
do javari. O longe estava bonito com muitos biguás e biguatingas avoando
na estrada do furo. A moça botou Macunaíma na praia porém ele principiou
choramingando, que tinha muita formiga!… e pediu pra Sofará que o
levasse até o derrame do morro lá dentro do mato, a moça fez. Mas assim
que deitou o curumim nas tiriricas, tajás e trapoerabas da
serrapilheira, ele botou corpo num átimo e ficou um príncipe lindo.
Andaram por lá muito.
Quando voltaram pra maloca a moça parecia muito fatigada de tanto
carregar piá nas costas. Era que o herói tinha brincado muito com ela.
Nem bem ela deitou Macunaíma na rede, Jiguê já chegava de pescar de puçá
e a companheira não trabalhara nada. Jiguê enquizlou e depois de catar
os carrapatos deu nela muito. Sofará agüentou a sova sem falar um isto.
[...]
VII
Macumba
[...]
(página 88)
No outro dia o tempo estava inteiramente frio e o herói resolveu se
vingar de Venceslau Pietro Pietra dando uma sova nele pra esquentar.
Porém por causa de não ter força tinha mas era muito medo do gigante.
Pois então resolveu tomar um trem e ir no Rio de Janeiro se socorrer de
Exu diabo em cuja honra se realizava uma macumba no outro dia.
Era junho e o tempo estava inteiramente frio. A macumba se rezava lá no
Mangue no zungú da tia Ciata, feiticeira como não tinha outra,
mãe-de-santo famanada e cantadeira ao violão. Às vinte horas Macunaíma
chegou na biboca levando debaixo do braço o garrafão de pinga
obrigatório. Já tinha muita gente lá, gente direita, gente pobre,
advogados garçons pedreiros meias-colheres deputados gatunos, todas
essas gentes e a função ia principiando. Macunaíma tirou os sapatos e as
meias como os outros e enfiou no pescoço a milonga feita de cera de
vespa tatucaba e raiz seca de assacu. Entrou na sala cheia e afastando a
mosquitada foi de quatro saudar a candomblèzeira imóvel sentada na
tripeça, não falando um isto. Tia Ciata era uma negra velha com um
século no sofrimento, javevó e galguincha com a cabeleira branca
esparramada feito luz em torno da cabeça pequetita. Ninguém mais não
enxergava olhos nela, era só ossos duma compridez já sonolenta
pendependendo, pro chão de terra.
Vai, um rapaz filho de Oxum, falavam, filho de Nossa Senhora da
Conceição cuja macumba era em dezembro, distribuiu uma vela acesa pra
cada um dos marinheiros marcineiros jornalistas ricaços gamelas fêmeas
empregados-públicos, muitos empregados-públicos! todas essas gentes e
apagou o bico de gás alumiando a saleta.
Então a macumba principiou de deveras se fazendo um çairê pra saudar os
santos. E era assim: Na ponta vinha o ogã tocador de atabaque, um negrão
filho de Ogum, bexiguento e fadistas de profissão, se chamando Olelê Rui
Barbosa. Tabaque mexiamexia acertado num ritmo que manejou toda a
procissão. E as velas jogaram nas paredes de papel com florzinhas,
sombras tremendo vagarentas feito assombração. Atrás do ogã vinha tia
Ciata quase sem mexer, só beiços puxando a reza monótona. E então
seguiam advogados taifeiros curandeiros poetas o herói gatunos portugas
senadores, todas essas gentes dançando e cantando a resposta da reza.
[...]
(página 95)
Depois que todos beijaram adoraram e se benzeram muito, foi a hora dos
pedidos e promessas. Um carniceiro pediu pra todos comprarem a carne
doente dele e Exu consentiu. Um fazendeiro pediu pra não ter mais saúva
nem maleita no sítio dele e Exu se riu falando que isso não consentia
não. Um namorista pediu pra pequena dele conseguir o lugar de professora
municipal pra casarem e Exu consentiu. Um médico fez um discurso pedindo
pra escrever com muita elegância a fala portuguesa e Exu não consentiu.
Assim.
[...]
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Paulo Francisco Slomp
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