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Universidade brasileira é submissa à tecnologia estrangeira 8 de Abril de
2016, 14:23 , por Jornal Correio do Brasil -
*Burocratizada e inerte, a universidade pública brasileira entrega a Google
e Microsoft serviços pedagógicos e comunicacionais estratégicos. Na era da
Economia do Conhecimento, país pode conformar-se à submissão * Por *Rafael
Evangelista* – de São Paulo

Cansadas dos ataques e dos constantes cortes de verba, as universidades
públicas parecem não querer mais existir. Mantêm o mínimo, mas vão fazendo
cortes lentos que implicam, na prática e no médio prazo, na cessão para
parceiros privados de várias coisas que as definem, que historicamente
fazem parte da sua missão. Com isso, vão abdicando de sua autonomia
intelectual e de implementação de tecnologias orientadas de acordo com seus
princípios públicos.
[image: Sistemas norte-americanos captam informações sensíveis de projetos
brasileiros]
<http://www.correiodobrasil.com.br/wp-content/uploads/2016/04/universidade-tecno.jpg>

Sistemas norte-americanos captam informações sensíveis de projetos
brasileiros

O exemplo mais recente e flagrante vem da área de tecnologia da informação.
Google e Microsoft vêm estabelecendo parcerias com diversas universidades
públicas brasileiras para oferecer “tecnologias educacionais”. Na prática,
as instituições vão abrindo mão de seu parque computacional, ao mesmo tempo
que promovem os produtos dos parceiros. Os alunos, funcionários e docentes
recebem, com frequência, e-mails vindos dos centros de computação das
universidades convidando para a adesão aos serviços. Com o convite feito de
maneira institucional é fácil prever o resultado: adoção de tecnologias
externas em detrimento de algo produzido e gerenciado autonomamente.

Em sua grande maioria, são aplicações que a universidade já oferece, como
serviço de e-mail e ferramentas tecnológicas de acompanhamento didático. A
Unicamp, uma das que estabeleceu acordos, oferece serviço de e-mail e
ferramentas como o Moodle, um software livre produzido colaborativamente; e
o Teleduc, ferramenta também livre mas concebida pelo Núcleo de Informática
Aplicada à Educação. Agora as inciativas livres competem com a GAFE, Google
Apps for Education, serviço da empresa do Vale do Silício já altamente
criticado por organizações internacionais como a Electronic Frontier
Foundation (EFF), que mantém a campanha “Espionando Estudantes: aparelhos
educacionais e a privacidade dos estudantes”.

O discurso oficial da universidade é o da liberdade de escolha. Cada
indivíduo seria livre para escolher qual tecnologia usar, pesando
individualmente as eventuais facilidades contra os riscos e prejuízos. Dá
até pra chamar de “falácia Microsoft”, de tanto que a empresa usou esse
tipo de argumento quando combatia as políticas de incentivo ao software
livre. Só que no mundo real as coisas não funcionam exatamente assim, os
indivíduos não seres independentes e absolutos num vácuo de poder. O
dinheiro pesa, assim como a publicidade e a interligação entre os produtos.
De um lado, temos universidades pressionadas sempre a cortar custos. De
outro, empresas bilionárias interessadas nos dados de navegação e nos
conteúdos produzidos pelos estudantes, capazes de explorar economicamente
essas informações (no mercado publicitário ou onde a imaginação delas
permitir). Tudo é oferecido gratuitamente mas, se é verdade o dito
neoliberal de que “não há almoço grátis”, só podemos imaginar que as
empresas sabem muito bem como extrair valor dessa massa informacional.

O desfecho não é difícil de imaginar. As instituições públicas tendem a
abandonar a prestação desses serviços de infraestrutura educacional,
fazendo cortes e reduzindo custos, mas ao mesmo tempo abdicando de sua
missão de produzir e aplicar tecnologias em seu corpo estudantil. Dá pra se
imaginar também que aqueles que não se juntarem à maioria, os “chatos” que
insistem em discutir e problematizar as decisões tecnológicas, vão ter que
conviver com um serviço cada vez mais sucateado e abandonado. A estratégia
aí se parece com a de outro gigante da tecnologia, a Monsanto, que foi
produzindo um fato consumado em favor dos transgênicos, de modo a forçar a
aceitação das variedades da sua soja via contaminação.

E, é claro, é preciso falar de privacidade e vigilância nas universidades.
Instituições federais como a UFPE e a UTFPR já usam a GAFE (a sigla tem um
efeito cômico ótimo em português, registre-se) e outras, como a Unifesp, já
estudam sua adoção
<http://www.correiodobrasil.com.br/pesquisa-quer-identificar-empresas-aptas-a-atuar-na-area-da-internet-das-coisas/>.
Porém, na esteira das revelações de Edward Snowden, há um decreto federal
(8.135, de 2013) que diz, em seu artigo primeiro que “as comunicações de
dados da administração pública federal direta, autárquica e fundacional
deverão ser realizadas por redes de telecomunicações e serviços de
tecnologia da informação fornecidos por órgãos ou entidades da
administração pública federal, incluindo empresas públicas e sociedades de
economia mista da União e suas subsidiárias”. Ao que tudo indica, os
acordos não se conformam ao decreto, cuja preocupação efetiva era a
inviolabilidade das comunicações.
*Universidade em risco*

As críticas da EFF, feitas no contexto dos EUA, vão nesse sentido. Ela já
apresentou queixa à Comissão Federal de Comércio (Federal Trade Commission)
acusando o Google de violar acordos que estabelecem a proibição da venda de
informações de alunos e a necessidade de políticas transparentes sobre a
coleta e uso de dados. Após as queixas, a Google desativou a coleta de
dados dos estudantes para fins publicitários nos serviços do GAFE. Porém,
em outras plataformas interconectadas pela mesma senha usada no GAFE valem
as mesmas regras de todos os outros serviços como Drive, Blogger, YouTube e
Gmail: os usuários são monitorados e vigiados eletronicamente o tempo
todos, para fins de extração informações a serem usadas com objetivos
publicitários, além de serem submetidos a anúncios escolhidos a partir
desses dados de navegação.

O uso do e-mail é, em particular, especialmente perigoso. No caso da
universidade, trata-se de uma massa especial de usuários, reunindo
pesquisadores ativos na produção de conhecimento e tecnologias sensíveis.
Essas informações não ficam em solo brasileiro, nem respondem às leis
brasileiras. Estão na Califórnia, regidas pelas leis daquele estado
norte-americano. Ao mesmo tempo que se omitem e não estimulam o uso de
dados criptografados por parte de seus usuários, as universidades
transferem as bases de dados para países que notoriamente abusam da
vigilância, também com fins econômicos.

E há a questão da exploração econômica da base de dados da universidade em
si mesma, como recurso a ser minerado para a extração de informações que
vão orientar o desenvolvimento de produtos, campanhas de marketing,
identificar tendências de comportamento etc. A comunidade acadêmica peca em
não reconhecer o altíssimo valor econômico desses dados e, ingenuamente,
parece pensar estar fazendo uma boa troca. No curto prazo, facilita a vida
do administrador espremido com o encolhimento das verbas. No médio e longo
prazo, ameaça os empregos do corpo técnico da universidade e a autonomia
tecnológica. Terceirizada em sua estrutura — segurança, limpeza,
alimentação e em certo sentido até na docência, com professores
colaboradores e pós-graduandos –, esquálida, torna-se incapaz de cumprir
sua função social, que vai muito além da formação de mão de obra para o
mercado.

Desde o inicio dos anos 2000, nas conflituosas disputas da Organização
Mundial do Comércio, os países ricos vêm tentando estabelecer regras que
lhes permitam vender serviços, como pacotes educacionais, aos países
pobres. Pelo visto, encontraram novas formas de lucrar com os mesmos
pacotes, na era da extração de valor em cima de bases de dados e
informações.

*Rafael Evangelista* *é doutor em antropologia social e professor do
Mestrado em Divulgação Científica e Cultural do IEL-Unicamp*.
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