Brasil pode ganhar poder com "nova ordem mundial", dizem especialistas 
[da BBC Brasil] 

A crise econômica mundial está provocando mudanças profundas na geopolítica e, 
nesse novo cenário, o Brasil pode assumir um papel
de maior destaque, afirmaram especialistas reunidos nesta sexta-feira em São 
Paulo. 

Segundo o historiador Paul Kennedy, da Universidade de Yale, nos Estados 
Unidos, o "momento unipolar" (expressão cunhada pelo
analista Charles Krauthammer) surgido após a Guerra Fria, em que os Estados 
Unidos assumiram uma posição de grande poder, dá
mostras de estar chegando ao fim.  Diretor de Estudos de Segurança 
Internacional de Yale, Kennedy atraiu atenção mundial no final
da década de 80, ao lançar o livro Ascensão e Queda das Grandes Potências, em 
que discutia o declínio dos Estados Unidos. 

De acordo com o professor, se no aspecto militar os Estados Unidos continuam 
sendo uma grande potência, na área econômica e de
finanças o cenário é diferente. "Mesmo antes da crise dos mercados de subprime 
já era possível perceber uma mudança de poder, com
a crescente influência de outras partes do mundo, como a Ásia", disse Kennedy, 
um dos palestrantes da conferência "Mudanças na
balança de poder global: perspectivas econômicas e geopolíticas", promovida 
pelo Centro de Estudos Americanos da FAAP e pelo
Instituto Fernando Henrique Cardoso. 

Segundo Kennedy, a atual crise deve marcar o início de um mundo multipolar, no 
qual os países são interdependentes e estão
interconectados. "A crise mostrou que o Fed já não pode agir sozinho", disse. 
"Os países devem trabalhar juntos".  Com essa nova
realidade, disse Kennedy, ganha cada vez mais importância o chamado "soft 
power" --termo criado pelo professor de Harvard Joseph
Nye para definir o poder de uma nação de influenciar e persuadir, sem uso de 
força militar, mas pela diplomacia. 

Entre os países que poderiam exercer esse tipo de influência, os especialistas 
citam o Brasil. De acordo com o ex-ministro da
Fazenda Pedro Malan, que também participou da conferência, apesar de o Brasil 
não ter poder militar, tem relevância na área de
cooperação econômica e pode exercer o "soft power". 


China 

Nessa nova geografia política e econômica que se desenha, a China tem papel de 
destaque.  Para o especialista em teoria financeira
Zhiwu Chen, professor de Finanças em Yale, a China poderá emergir mais forte da 
crise, em posição de liderança.  Chen disse,
porém, que o governo chinês não está preparado para assumir essa liderança no 
cenário internacional. Não acredito que a ascensão
da China represente uma ameaça para os Estados Unidos", afirmou. "Os dois estão 
interligados. 

Segundo Chen, com reservas de quase US$ 2 trilhões, a China pode ajudar os 
países mais atingidos pela crise e também parceiros
comerciais importantes, como o Brasil. 

Chen disse que a crise deverá ter um forte impacto na economia da China no 
curto prazo, afetando especialmente o setor de
exportações. "No entanto, (a crise) poderá ser também uma grande oportunidade 
para a China", disse Chen. "Deverá forçar o governo
a promover mais reformas fundamentais". O especialista afirmou ainda que, 
apesar das mudanças provocadas pela crise, "não se deve
subestimar a habilidade da economia e da sociedade americana de corrigir 
erros".  "Eles conseguiram sair da Grande Depressão ainda
mais fortes", disse. 


Mudanças 

O consenso entre os especialistas que participaram da conferência é de que as 
relações entre os países não serão as mesmas depois
da crise. 

De acordo com embaixador Sergio Amaral, diretor do Centro de Estudos Americanos 
da FAAP, meio ambiente, terrorismo e energia serão
algumas das preocupações conjuntas do mundo multipolar. Para Amaral, há 
indícios de "fadiga" do processo de globalização. Além
disso, na sua opinião, o mundo depois da crise tende a ser marcado pela "volta 
da regulação estatal, o fechamento das economias e
muros contra a imigração". 

O diretor de publicações do Centro para o Estudo da Globalização da 
Universidade de Yale, Nayan Chanda, disse que o mundo atual
está baseado em quatro pilares: sistema capitalista, equilíbrio nuclear, 
manutenção da governança por meio da ONU e o sistema de
comércio global. "Os quatro estão abalados", afirmou. De acordo com Chanda, o 
equilíbrio do poder nuclear foi quebrado com o
surgimento de novos países nesse cenário, como Israel, Índia, Paquistão, Coréia 
do Norte e, possivelmente no futuro, Irã.  O
comércio global também dá sinais de enfraquecimento, principalmente após o 
fracasso das negociações da Rodada Doha, afirmou
Chanda. Ele citou ainda o aumento do protecionismo e do sentimento contrário 
aos imigrantes como aspectos do novo cenário mundial.


Nessa nova realidade, Chanda destacou a rapidez com que os países reagiram à 
crise, a diáspora que faz com que a população mundial
tenha se espalhado e pode ser uma barreira contra o nacionalismo, e o papel de 
destaque das comunicações no sentido de integrar o
mundo.












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