LIÊDO MARANHÃO, O KAMA SUTRA DO POVO
Urariano Mota
Há 15 dias consegui uma entrevista com Liêdo Maranhão, um dos maiores
pesquisadores de cultura popular do Brasil. O texto ainda está inédito em papel
físico, de jornal ou revista. Mas para os leitores do Direto da Redação adianto
alguns trechos, um agradável aperitivo desse amante do povo nordestino, que a
indústria cultural não perverteu.
Há quem interprete as pesquisas de Liêdo Maranhão, sobre o povo das ruas, como
uma obsessão no limite do pornográfico. No entanto, Liêdo é um homem muito
puro. O sexo para ele é manifestação de alegria da infância brasileira. Em
lugar de proibido em conversas de boa educação, ele deveria ser divulgado para
menores de todas as idades, de todas as escolas do Brasil. O registro que ele
faz da fala do povo, a fala crua, sem literatice, mas que guarda história, o
flagrante que ele dá no povo quando fala de sexo, que dá nomes rejeitados pela
formação hipócrita como chulos, com uma verdade que nos faz rir, lembra o
popular como uma criança crescida.
Segue uma brevíssimo trecho da entrevista:
- Quem é Liêdo Maranhão?
Sou Liêdo Maranhão de Souza, nascido em 3 de julho de 1925, no Recife, bairro
de São José. Sou dentista e esquizofrênico cíclico, como um amigo psiquiatra já
me disse. Sou poliglota: falo espanhol, francês, e falo gago também. E por
falar em poliglota, lá em Beberibe tinha um funcionário chamado João Vieira, no
Posto de Saúde. Ele tomava uma cana arretada. Um dia ele estava bêbado, e não
pôde entrar, porque o diretor do posto não deixava. Aí eu cheguei pra ele e
perguntei, que é que há, João? E ele respondeu: Esse homem aí não quer
deixar eu entrar não. Mas ele pra mim não passa de um poliglota! O senhor sabe
o que é poliglota, doutor? Poliglota é o sujeito que é metido a coisa, não tem
nada e vive a troco de peido. Isso pra mim é uma definição digna da Academia
de Letras.
- Há muito, você pesquisa o Mercado de São José, no Recife.
- Pesquisei os camelôs, os come-vidro, engole-cobra, os cantadores, mas
sobretudo os camelôs de remédio, que são muito inteligentes. Inventam até nomes
para as drogas que vendem. Tem uma que é a Resina da Gerimataia. Outro:
Banha do peixe-elétrico. Eu vou te contar uma de um camelô, pra você ver que
beleza. Tinha um que vendia catuaba, que era pra tesão, aquela coisa
afrodisíaca. Ali é um ambiente de mulher, de prostituta... então ele com a
garrafa na mão, uma garrafada, aquele pessoal todo ao redor, a gente chamava
ele de Fazendeiro, porque usava um chapelão, era muito gordo. Pois Fazendeiro
pegava a garrafa e dizia: Isso aqui é pra esses tipos de homem que chega em
casa de noite, se deita com a mulher, e fica fundo com fundo, feito casa de
vila.
- Que pessoas do Mercado de São José mais marcaram você?
- É difícil dizer qual o mais marcante. Um tem um lado mais bonito, outro mais
criativo, outro mais engraçado... Por exemplo, esse camelô, Fazendeiro. Lembro
que tinha uma escultura minha, de ferro, que a Prefeitura do Recife comprou,
era uma homenagem ao Papa, à passagem do Papa no Recife. E Fazendeiro
trabalhava defronte à escultura. Na época, saiu no jornal que a Prefeitura
tinha comprado a escultura por vinte mil reais. E ele vendia umas pomadinhas, a
1 real cada. Um dia, quando ele tinha terminado as vendas dele, ficou olhando a
escultura. E me disse: Mas doutor, o senhor botou no cu daquele Papa
direitinho..... Ele pensava que o Papa tinha comprado, e comparava com a venda
de 1 real das pomadas.
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Três falas de populares registradas por Liêdo Maranhão, em livros de circulação
restrita:
1) De Conceição, servente : Eu só enjeito pisa. Aí eu disse a ela:
Eu entendi pica. E ela: Pica eu não enjeito não, doutor .
2) De Zé, da Lanchonete Chá Mate Brasília: Silva é um menino de ouro! Se
derreter, dá o anel.
3) Do pastor José Luiz, na Praça Joaquim Nabuco, pregando o evangelho:
Paulo disse: Bom seria que o homem não tocasse em mulher. E agora estão
dizendo que Paulo era bicha!...
(Publicado no Direto da Redação em 26.11.2008)
http://www.diretodaredacao.com/
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Para ida sem vinda basta o tempo.
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