As barbaridades sobre Gaza
A brutal ofensiva de Israel contra os ataques do grupo extremista islâmico
palestino Hamas na faixa de Gaza excita comentaristas
de várias especialidades a expor seus pensamentos sobre o complexo conflito
árabe-israelense. É um festival de crimes contra a
história, a razão e, muitas vezes, contra os cerca de 14 milhões de judeus no
mundo.
As barbaridades mais ofensivas, e por isso disparadas com mais gana, são as
indignas comparações com o nazismo e com o os guetos
onde os nazistas e seus muitos colaboradores europeus confinavam os judeus da
Europa antes de exterminá-los.
Conheço bem essa história. Os irmãos e os pais de meus avós poloneses foram
aniquilados no gueto de Cracóvia, no sul da Polônia.
Ao contrário do Hamas, eles nunca lançaram nem sequer pensaram em lançar
foguetes contra cidades polonesas ou alemãs, nunca
quiseram exterminar poloneses ou alemães, nunca endoutrinaram suas crianças no
ódio antipolonês ou antialemão.
Mas mesmo assim abundam pelo mundo, e na mídia brasileira, autoproclamados
'humanistas' que veem na ação do Exército israelense
traços das ações nazistas, um artifício imoral que minimiza a barbárie nazista
e maximiza a ação israelense.
Abundam ainda aqueles que, como os nazistas, se dedicam à desumanização dos
judeus israelenses, que querem transformá-los em lobos
atrás do sangue das crianças palestinas, em pessoas sem alma que querem
destruir Gaza pelo prazer de matar palestinos.
Um chegou a escrever com impunidade que a metade dos israelenses que não apoia
a ação de seu Exército em Gaza (na verdade o apoio
à ação na pesquisa citada é maior do que 50%) "é a parte da humanidade no
Estado de Israel". O 'humanista' colocou na coluna dos
não-humanos mais da metade dos israelenses, então vamos chamá-lo só de
meio-nazista, já que para a ideologia hitlerista nenhum
judeu era humano.
O mesmo híbrido ("humanista" e meio-nazista) escreve ainda que o Estado de
Israel foi "instituído por não-judeus" e é fruto do
"humanitarismo que proporcionou a criação" do Estado judeu.
O Estado de Israel é na verdade resultado da barbárie nazista, o oposto do tal
'humanitarismo'. O nazismo e seus voluntariosos
colaboradores europeus expuseram a necessidade básica de se criar um Estado
judeu como forma de evitar novas tentativas de
extermínio. E o Estado judeu não foi uma mera concessão da atrasada consciência
culpada do mundo, que nada fez para impedir os
campos de extermínio nazistas apesar das evidências claras do que acontecia na
Europa. Ele nasceu dos esforços das lideranças
judaicas muito anteriores à Segunda Guerra (porque a ligação dos judeus com
Israel é milenar e o antissemitismo genocida é um mal
pré-nazista), que promoviam a imigração clandestina à Palestina britânica
apesar de ela ser proibida por Londres, inclusive
durante o extermínio nazista.
Há ainda teses novas, como a de que os israelenses suportam a ofensiva porque
vivem sob a censura de seus meios de comunicação,
que os impede de tomar conhecimento do que se passa em Gaza, quando as TVs e os
jornais do país estão cheios de relatos e imagens
das lamentáveis mortes de civis palestinos durante o bombardeio e a invasão de
Gaza e milhares de israelenses saem às ruas para
protestar contra ela.
E o que os supostos 'humanistas' que desumanizam os israelenses têm a dizer
sobre o islamofascimo niilista e antissemita em marcha
acelerada pelos países do Oriente Médio? O que disseram quando o Hamas lançava
dezenas de foguetes diariamente contra a população
civil de Israel, buscando e provocando a reação israelense? O que disseram
quando o presidente do Irã, já convidado a visitar o
Brasil pela ativa Chancelaria brasileira, ameaçou 'varrer Israel do mapa' e
busca ativamente, com pouca resistência global, uma
bomba atômica para poder realizar seu desejo manifesto?
Nada.
Devem achar que a maioria dos israelenses, não sendo humana, não merece seu
"humanismo".
A desumanização de Israel em curso em alguns setores do planeta é um dos
maiores equívocos contemporâneos, fruto do
antissemitismo, da ingenuidade e da ignorância.
Até as pedras dos cemitérios da Palestina e de Israel sabem que a única saída
para o trágico conflito árabe-israelense é a criação
de um Estado palestino viável que viva em paz e segurança ao lado do Estado de
Israel. Sucessivas eleições em Israel elegeram
maiorias que buscavam justamente esse objetivo de dois Estados. Inclusive o
governo atual, cuja principal bandeira era a retirada
das tropas e colônias israelenses dos territórios palestinos.
A primeira ação nesse sentido foi a retirada total de Gaza, que se transformou
em campo de lançamento de foguetes contra a
população civil do sul de Israel, como a linha dura israelense, na oposição,
previu que aconteceria. A disposição de Israel para
novas retiradas está mortalmente abalada. Vai depender muito do resultado da
ofensiva atual.
Quando as armas se calarem, e esperemos que se calem o quanto antes, os
terroristas do Hamas, e seus patronos na Síria e no Irã
que guiam suas ações, clamarão vitória (assim como seu irmão mais velho, o
Hizbollah, clamou vitória sobre os cadáveres de mil
libaneses e o escombro de suas casas!).
É uma ideologia niilista, um culto da morte, onde morrer é vencer.
Assim, terroristas do Hamas disparam foguetes contra Israel cercados de
mulheres e crianças, do meio de cidades super povoadas,
torcendo para que um míssil israelense aniquile essas mulheres e crianças,
cujos cadáveres, expostos quase como prêmios, são uma
de suas maiores "vitórias" pois convencem alguns "humanistas" de plantão que os
israelenses não são humanos.
E serão os "humanistas" de plantão os primeiros a decretar a derrota de Israel
e a vitória do islamofascismo, como aquela infame
manifestação esquerdista em Londres com os cartazes "somos todos Hizbollah".
Espera-se que os humanistas sem aspas pensem diferente e coloquem a derrota dos
objetivos do Hamas como a única saída possível
dessa guerra. E ela não precisa vir das bombas de Israel, mas de negociações
internacionais para um novo arranjo em Gaza que
anule a capacidade do Hamas de levar o povo que diz defender a novas tragédias
lamentáveis.
P.S: Embora seja óbvio, mas para não ser declarado um não-humano impunemente
nas páginas dos jornais, vai aqui um esclarecimento:
eu, como a esmagadora maioria dos israelenses, sou pela paz e contra a morte de
civis inocentes em qualquer parte do mundo.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor
do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em
Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela,
entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore"
(1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: [email protected]
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