Concordo com tudo o que diz o
Jabor. Li pela manhã no jornal de papel.
O celibato é algo anormal e
os padres deveriam poder casar.
Vivem cercados de tentações.
O isolamento só piora seu estado mental
sobre o assunto. O isolamento os leva a pensar,
lembrar daquela linda mulher que es
teve na missa, com decote exagerado...
Aquele mulherão vai para o
confessionário e conta o que fez, em deta-
lhes, de sua traição ao marido e depois pede para
ser perdoada. O padre sabe que ela
vai reincidir no pecado. Fica bailando em sua
mente o que ela lhe contou, e ele, como
qualquer mortal, capitula. Primeiro, é levado ao
"vício solitário". Depois, começa a o-
lhar para as dezenas de meninos, pele sedosa,
cabelos loiros encaracolados, lábios de
uma cor indescritível, que imaginam ser doce como o mel.
Nada justifica seu
comportamento. Mas pelo artigo do Jabor, dá para en
tender pelo que passam e o que os leva a esse crime contra a infância.
A tentação, a quase certeza
da impunidade, a submissão das crianças,
que veem os padres como santos, inimputáveis mas,
sobretudo, a cobertura dada pe
los superiores, provavelmente culpados do mesmo
crime, são as razões que levam
alguns padres a cometer abusos.
Realmente, deve ser um inferno para os padres.
At 19:32 21/4/2010, you wrote:
ARNALDO JABOR
Só os anjos não têm sexo
[]
Os olhos do papa me inquietam. São olhos frios,
perscrutadores, inquisitivos. O corpo se mexe,
sob o manto rubro e dourado, os gestos são
eclesiásticos, mas os olhos são fixos,
defensivos, preocupados em esconder os desvios
de um dogma superado e "inevitável".
Nesta onda de denúncias contra os padres
pedófilos, seus olhos ficaram mais duros. Não
digo que ele seja conivente com a pedofilia, mas
são olhos desconfiados, olhos onde há medo das mutações do mundo.
Claro que o celibato não é a única causa da
pedofilia na Igreja. Mas a própria escolha da
vida religiosa já é uma negação alucinada da
sexualidade - se a força máxima da vida é
esmagada, a Igreja vira uma máquina de
perversões. Claro. Pedofilia e homossexualismo
pairam no ar de qualquer internato religioso.
Alguns religiosos dizem que a pedofilia não é
resultado direto do celibato, pois o padre
insatisfeito poderia procurar um adulto, como
fazem tantos no interior do país, onde, diz a
lenda, as mulheres amantes de batinas viram "mulas sem cabeça".
O problema é que em colégios e conventos há a
facilidade de pupilos dóceis, a obediência
reverencial, o medo infantil... Além disso,
procurar um adulto seria assumir uma sexualidade
plena, da qual o noviço foge desde o início.
Talvez vivam a fantasia de que molestar uma
criança seja um pecado venial, incompleto,
infantil, uma decorrência perdoável da proibição
da Igreja. O pedófilo também é infantilizado.
No velho colégio de padres onde estudei, a
entrada dos alunos já era um desfile de velada pedofilia.
O padre reitor - Ahh, tempos antigos de
batinas negras... - postava-se imóvel na porta
da entrada, numa pose paternal e severa, com as
mãos oferecidas para abençoar os alunos.
Passavam por ele duas filas de meninos, beijando suas mãos.
Havia algo de veadagem naquilo, aquela negra
batina imóvel como um manequim, as mãos
beijadas por mais de 500 meninos de calças
curtas. Ainda me lembro do vago cheiro de sabonete e cuspe na mão do padre.
Eu via as mães dos alunos, lindas, com seus
penteados e decotes imitando a Jane Russel ou
Ava Gardner, fazendo charme para os padres
enlouquecidos pela castidade obrigatória.
E eu me perguntava: "Meu Deus..., por que
padre não pode casar?". Lembro-me do tremor dos
jovens sacerdotes, excitados pelas madames
pintadíssimas, trancando-se em negras
clausuras, esvaindo-se no "vício solitário".
E esses mesmos padres nos diziam: "Cada vez que
vocês se masturbam, morrem milhões de pessoas
que iam nascer. É um genocídio! Igual ao que o Hitler fez!".
E nós, além do pecado, sofríamos a vergonha de
ser pequenos "hitlers" de banheiro. Eu pensava:
"Por que tanta onda sobre nossos pobres
pintinhos, por que essa energia que sinto em minha carne é criminosa?".
A masturbação era um crime inafiançável. Iríamos
queimar no fogo por toda a eternidade. Lembro-me
da descrição da eternidade no inferno: "Imaginem
que o planeta seja um grande diamante duríssimo.
De cem em cem anos, um passarinho vem voando e
dá uma bicadinha na Terra. Só no dia em que toda
a Terra for esfarinhada pelas bicadinhas,
terminará a eternidade". E eu sofria, me
esvaindo nos banheiros, pensando naquele
passarinho que bicava o mundo, enquanto eu
acariciava o outro "passarinho" se preparando para uma vida de traumas e medos.
No filme que acabo de fazer, há essas cenas,
interpretadas por dois grandes atores - os
"padres" Ary Fontoura e Jorge Loredo (o "Zé Bonitinho").
No colégio, tudo era sexo dissimulado. Essa
palavra terrível estava em toda parte, como uma
ameaça vermelha. O diabo nos espreitava detrás
da estátua de santa Tereza em êxtase, nas coxas
dos anjinhos nus, nos seios fervorosos das beatas acendendo velas.
A angústia da proibição sexual era visível:
rostos mortificados, berros severos e excessivos
nas aulas, castigos sádicos, perseguições a uns e carinhos protetores a outros.
Eu mesmo fui assediado por um padre que era
notório "cantador" de menininhos; ele fazia
mágicas para ser popular e, um dia, tentou me
beijar num canto da clausura. Criado na
malandragem das ruas, fugi em pânico. E falei
disso em confissão com outro padre, que mudou de
assunto, como se fosse uma impressão minha, como
se a pedofilia fosse uma prática improvável,
exatamente como os cardeais norte-americanos
fizeram. Há, sim, uma tolerância velada com
esses desvios criados pelo antigo dogma.
A mim ensinaram que o prazer era um crime. A
partir daí, tudo ficava manchado de culpa; a
alegria era falta de seriedade, a liberdade era
um erro, as meninas eram seres inatingíveis com seus peitinhos e bundinhas.
Até hoje, vivo dividido entre as santas e as
"impuras"; quantas dores senti na vida por
esses ditames que transformavam as mulheres em
perigos, em "Liliths" demoníacas, tão
ameaçadoras quanto o intenso desejo que
tínhamos por elas. A mulher, como Eva ou
Pandora, era a origem de todos os males. Delas
saíam a vida e a morte, delas saíam o prazer
pecaminoso, o mal do mundo. Essa doença mística
gera desde a "burka" até o "strip-tease", numa antítese simétrica.
O problema da Igreja com o sexo leva-a a uma
compreensão quebrada da vida, leva-a a denegar a
Aids, a condenar o aborto, o controle social da
natalidade e a outros erros maiores, advindos de
um vazio originário, desde o Concilio de Latrão
em 1123. Sem o sexo, os religiosos seriam quase "anjos", mais próximos de Deus.
Uma das grandes desvantagens da Igreja Católica
diante de outras religiões é o celibato. Daí, em
cascata, surgem problemas que justificam a queda
do prestígio da Igreja na era do espetáculo e da derrubada de certezas.
Hoje piorou. O mundo virou uma incessante
paisagem de bundas e seios nus, da
hipersexualização que nos espreita no trânsito, nas ruas, na TV.
Já imaginaram esses padres vendo as gostosas
sexy do momento, trancados em escuras celas, sob
o voto de castidade? Noite escura, sino batendo
e a BBB nua na capa da revista? Essa é a minha ideia de inferno.
V ilaça
http://clarival.com