achei brilhante por ser obvio:
*o maior pecado: ter iniciado o processo de destruição do Rio de Janeiro.
*

CARLOS ALBERTO SARDENBERG Brasília, um equívoco
caro<http://arquivoetc.blogspot.com/2010/04/carlos-alberto-sardenberg-brasilia-um.html>

   O Globo - 22/04/2010
Esclarecimento: morei duas vezes em Brasília, gostei, meus filhos
apreciaram, formamos amizades para sempre. Nada pessoal, portanto, mas
Brasília é um equívoco. Nenhuma das razões que justificaram sua construção
era sustentável.

Segurança, por exemplo. Na região central do país, a capital estaria mais
protegida de ataques militares estrangeiros. Hoje, obviamente, com os
mísseis e aviões, não faz o menor sentido. Na época, isso era previsível.
Mesmo que não fosse, o principal "inimigo potencial" do Brasil, na concepção
militar, era a Argentina — e nesse caso a localização de Brasília não fazia
muita diferença.

Além disso, tirante a imaginação dos militares brasileiros e argentinos,
convenhamos que a possibilidade de guerra era remota.

A capital levaria desenvolvimento para a região central do país. Falso.

Como uma cidade pequena e sem indústrias, como era previsto, poderia
impulsionar o crescimento de uma área tão ampla e tão desabitada? A rica
situação atual do CentroOeste deve-se à expansão da fronteira agrícola e às
novas tecnologias do agronegócio, que tornaram produtivas principalmente as
terras do cerrado. Isso teria acontecido sem Brasília, consequência normal
do esgotamento da agricultura no Sul e no Sudeste.

Dizia-se ainda que a concentração da administração pública em um único
local, mais ou menos isolado e protegido das pressões populares, daria mais
tranquilidade e eficiência ao governo. Falso de novo.

A única eficácia que resultou disso foi uma cultura de defesa e promoção dos
funcionários públicos, incluindo a prática da isonomia, pela qual benefícios
e vantagens vão sendo transmitidos em cadeia pelas diversas repartições.

Um novo governo consegue nomear a sua turma para os cargos de confiança. Mas
é quase impossível demitir o pessoal da administração anterior. Em jogo de
auxílio mútuo, as pessoas vão sendo acomodadas pelos inúmeros cargos à
disposição — e esse é um efeito direto da concentração dos órgãos e
proximidade entre os colegas. Ficar — essa é a arte de cada troca de governo
em Brasília.

A situação já estava assim delineada quando a Constituição de 88 completou o
equívoco. Concedeu autonomia política ao Distrito Federal e uma generosa e
paternal dependência econômica. A União ficou responsável pelas despesas de
segurança, educação e saúde, sendo que as transferências para o DF são
automáticas.

A receita tributária federal cresceu muito da Constituição para cá, de modo
que o governo de Brasília recebe um dinheirão de graça. Por que os
funcionários do DF ganham bem e seus policiais são os mais bem pagos do
país? Ora, porque seus governantes simplesmente podem topar os aumentos e
mandar a conta para a União. Fazem a distribuição dos benefícios com o
dinheiro dos contribuintes do país inteiro e arrecadam votos.

Em 1957, o então presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo
de Athayde, antecipou o problema básico de uma capital isolada: "Sem
vigilância ou apenas vigiados de longe, governantes e legisladores irão
pensar de preferência em si mesmos, nos seus bons negócios, em tirar
rapidamente o máximo de vantagens do seu exílio no deserto." A ida para o
deserto já trazia vantagens.

Funcionários só aceitavam a transferência para a nova capital com vantagens
salariais e de carreira.

Resultado: hoje, a cidade, sem outra força econômica além dos contracheques
distribuídos pelo governo, tem a maior renda per capita do país. Sem que
isso tenha qualquer relação com a eficiência do governo.

Dizem que só a construção da capital já representou um forte impulso ao
crescimento econômico. É verdade que a construção civil puxa a expansão.

Mas o efeito seria o mesmo se o dinheiro público fosse aplicado em ferrovias
e portos, por exemplo.

Além disso, a pressa de JK levou a desperdícios e preços elevados.

Tudo considerado, Brasília foi um programa de governo, destinado a eleger JK
cinco anos depois da inauguração, e que deixou um imenso ônus para o país.
Foi tão insensato quanto seria hoje levar a capital para o Norte, para
proteger e desenvolver a Amazônia.

Sem contar o maior pecado: ter iniciado o processo de destruição do Rio de
Janeiro.
 

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