Subject: A REPUBLICA SINDICALISTA
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  De *Sérgio Praça* e *Marcos Coronato*:

A República Sindicalista se instituiu na era Lula graças, em larga medida, a
um instrumento excepcional de poder concentrado nas mãos do presidente da
República e de ministros: a possibilidade de eles nomearem, sem muitas
limitações, um enorme contingente de pessoas para a máquina pública.
Existe hoje só na administração direta do Executivo federal uma monumental
cota de 20.578 cargos de confiança política. São as famosas funções de
Direção e Assessoramento Superior (DAS), como são conhecidas no jargão da
burocracia brasiliense. Quase 7 mil desses cargos podem ser ocupados por
pessoas que não prestaram concurso para entrar no serviço público.

Essa conta – subestimada, porque não inclui os cargos de confiança nas
empresas estatais, cujo número ninguém consegue precisar – é muito além do
desejável para a administração pública, como mostra a comparação com os
países mais desenvolvidos.
Nos Estados Unidos, que têm uma população de funcionários públicos quase
três vezes maior que a do Brasil (2,7 milhões de funcionários lá, contra 1,1
milhão aqui), o presidente pode nomear livremente apenas 979 funcionários na
administração pública. *Na França, esse número gira em torno de 500.*
Com essa prodigalidade de cargos, as funções DAS, criadas originalmente em
1967 na reforma administrativa do regime militar para concentrar os melhores
quadros da administração pública, tornaram-se um dos principais canais de
entrada dos sindicalistas na elite dirigente da máquina pública federal.
Qual é o problema da proliferação de cargos de confiança? Segundo regras
universalmente aceitas, o bom desempenho da administração pública depende de
uma burocracia profissional, estável e recrutada segundo critérios
impessoais e meritórios.

A multiplicação de cargos políticos, nomeados por conveniências estritamente
partidárias ou de ocasião, permite a captura e o aparelhamento, com mais
facilidade, do setor público e dos órgãos do Estado por grupos organizados
que promovem seus interesses próprios, e não os da sociedade.

Para ter uma ideia do grau de loteamento dos cargos políticos, ÉPOCA fez um
levantamento inédito, em que cruzou os nomes dos ocupantes de cargos com a
lista de filiados a partidos políticos no Brasil, para descobrir quantos
funcionários DAS têm vínculos com partidos da base de apoio do governo Lula
no Congresso.
O levantamento procurou descobrir os filiados pertencentes aos partidos da
coalizão do governo Lula em janeiro de 2007 – PT, PL, PP, PMDB, PCdoB, PSB e
PTB – nos cargos DAS, em todos os níveis, de 1 a 6. Conforme a escala,
salário e atribuições aumentam progressivamente.

O funcionário DAS-1 ganha R$ 2.115, enquanto o DAS-6 recebe R$ 11.179.
“Dentro de uma empresa, o DAS-1 seria o contador, o DAS-4 seria o gerente, o
DAS-5 o diretor de finanças e o DAS-6 o diretor presidente”, afirma Fernando
Coelho, doutor em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e
professor da Universidade de São Paulo. Para evitar erros, os homônimos
encontrados foram retirados da análise do cruzamento.
Eis os principais resultados do levantamento:

* 37,8% dos cargos DAS-6, ocupados por secretários executivos, dirigentes de
fundações e autarquias, chefes de gabinete de ministros e diretores de
departamento, são filiados a partidos políticos. Um quarto desses cargos
(24,8%) é ocupado por petistas. O PMDB, o segundo maior partido da coalizão,
tem 4,8% de filiados entre os cargos DAS-6, cinco vezes menos que o PT.

* 12,56% dos cargos DAS-1 a 6 são ocupados por filiados a partidos (segundo
o IBGE, a taxa de filiação partidária na população é de 2,6%). Entre os
ocupantes de cargos de confiança com filiação partidária, a maioria também é
petista. São filiados ao PT 1.060 servidores em cargos de confiança, ou 41%
do total de cargos DAS com filiação partidária. Há 451 ocupantes de cargos
DAS ligados ao PMDB, ou 17,44% do total com filiação.

* A taxa de filiação partidária em cargos DAS aumenta nos ministérios e nos
órgãos que lidam com temas que atraem militantes, como a reforma agrária e a
questão indígena ou a ambiental. Entre os campeões do aparelhamento estão a
Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra). A Funai tem 156 filiados (27% ao PT) em 644
cargos DAS; o Ibama tem 52 filiados (63% ao PT) em 276 cargos; o Incra tem
169 filiados (61% ao PT) em 670 cargos.

* O aparelhamento é vertical em alguns ministérios: o partido do ministro
influencia o índice de filiação de ocupantes de cargos DAS. No Ministério do
Esporte, controlado pelo PCdoB nos dois mandatos de Lula, 55% dos
funcionários DAS com filiação partidária são comunistas de carteirinha. No
Ministério do Desenvolvimento Agrário, feudo da corrente petista Democracia
Socialista (DS), há 176 petistas em cargos DAS. O maior índice de filiados
ao PR em cargos DAS é encontrado no Ministério dos Transportes, que foi
dirigido pelo presidente do partido, Alfredo Nascimento. Lá, 20 dos 75
ocupantes de cargos DAS com filiação partidária são ligados ao PR, contra 17
do PT. Em nenhum outro lugar da Esplanada dos Ministérios o pequeno PR bate
o PT.

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