(Compilação de Roger Pineau - Seleções do Reader
Digest: A história secreta da Guerra - 1962).
<http://culturaaeronautica.blogspot.com/2010/03/eu-comandei-o-ataque-pearl-harbor.html>"Eu
comandei o ataque a Pearl Harbor"
Capitão-de-mar e guerra Mitsuo Fuchida, da antiga Marinha Imperial Japonesa
"Desejamos que o senhor comande a nossa força
aérea, na hipótese atacarmos Pearl Harbor".
Fiquei quase sem fôlego. Era em fins de setembro
de 1941 e, se a situação internacional
continuasse a agravar-se, o plano de ataque teria
de ser executado em dezembro. Não havia tempo a
perder no treinamento para essa importantíssima missão.
Em meados de novembro, após o mais rigoroso
treinamento, foram levados os aviões para bordo
dos respectivos porta-aviões que, a seguir,
aproaram para as ilhas Curilas, viajando isolados
e seguindo rotas diferentes para não despertar
atenção. Depois, às seis horas da manhã, uma
manhã escura e nublada, em 26 de novembro, nossa
força-tarefa de 28 navios, incluindo seis navios aeródromos, deixou as Curilas.
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O Vice-Almirante Nagumo comandava a Força de
Ataque a Pearl Harbor. As instruções por ele
recebidas diziam: "No caso de as negociações com
os Estados Unidos chegarem a conlusão
satisfatória, a força-tarefa regressará
imediatamente à pátria". Desconhecendo o fato,
entretanto, as tripulações, lançando o que talvez
fosse o seu último olhar ao Japão, gritavam:
"Banzai!" Podia-se perceber seu ardente
entusiasmo e espírito combativo. Malgrado isso,
eu não podia deixar de alimentar dúvidas quanto à
confiança com que o Japão se lançava à guerra.
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Nossa rota deveria passar entre as ilhas Aleutas
e a Ilha de Midway, de maneira a ficar fora do
alcance das patrulhas aéreas americanas que, em
alguns casos, segundo se supunha, abrangiam uma
extensão de mil quilômetros. Enviamos à frente
três submarinos para informar da presença de
quaisquer navios mercantes, a fim de podermos
alterar a rota e evitá-los. Mantínhamos um alerta
permanente contra submarinos americanos.
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Nossos rádios permaneciam em absoluto silêncio,
mas ouvíamos as transmissões de Tóquio e
Honolulu, procurando algumas palavras sobre o
início da guerra. Em Tóquio, uma conferência de
coordenação do governo e do Alto Comando estêve
em sessão, diariamente, de 27 a 30 de novmebro,
para discutir a proposta feita pelos Estados
Unidos no dia 26. Chegou-se à conclusão de que a
proposta era um ultimato destinado a subjugar o
Japão e a tornar a guerra inevitável, mas que se
deveria prosseguir nos esforços pela paz até o último momento.
A decisão em favor da guerra foi tomada na
Conferência Imperial realizada a 1º de dezembro.
No dia seguinte, o Estado Maior Geral deu a
ordem: "O dia do ataque será 8 de desembro" (7 de
dezembro no Havaí e nos Estados Unidos). A sorte
estava lançada, rumamos diretamente para Pearl Harbor.
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Por que foi escolhido aquele domingo para o
ataque? Porque estávamos informados de que a
Esquadra Americana regressava a Pearl Harbor nos
fins de semana, após um período de instrução no
mar. E também porque o ataque deveria ser
coordenado com nossas operações na Malaca, onde
estavam previstos ataques e desembarques aéreos para a madrugada daquele dia.
De Tóquio, foram-nos retransmitidos relatórios do
Serviço de Informações sobre as atividades da
Esquadra Norte Americana: "7 de dezembro (6 de
dezembro, hora do Havaí): Não há balões nem redes
antitorpedo em torno dos encouraçados fundeados
em Pearl Harbor. Todos os encouraçados estão na
baía. Não há indicações, na atividade do rádio
inimigo, de que estejam sendo feitos voos de
patrulha oceânica na região do Havaí. O Lexington
deixou o porto ontem. Supõe-se que o Enterprise também esteja operando."
Nessa ocasião é que recebemos a mensagem do
Almirante Yamamoto: "O apogeu ou declínio do
Império depende desta batalha; todos devem dar o
máximo de seu esforço no cumprimento do dever."
Estávamos a 230 milhas ao norte de Oahu, onde
está situada Pearl Harbor, pouco antes do
alvorecer de 7 de dezembro (hora do Havaí),
quando os navios-aeródromos manobraram na direção
do vento nordeste. A bandeira de combate
tremulava no topo de cada mastro. O mar estava
muito agitado, o que nos fez hesitar quanto à
decolagem no escuro. Achei que era viável. Os
conveses de voo vibraram com o ronco dos aviões acabando de aquecer.
Uma lâmpada verde foi agitada em círculos.
"Decolar!". O rugido do motor do primeiro caça
foi crescendo até que ele se elevou no ar, são e
salvo. Havia grande aclamação toda vez que um avião decolava.
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Dentro de 15 minutos, 183 caças, bombardeiros e
torpdeiros tinham decolado dos seus
navios-aeródromos e estavam entrando em formação
no céu ainda escuro, guiados apenas pelas luzes
de sinalização dos aviões-guias. Após circularmos
por cima da esquadra, tomamos a rota do sul, para Pearl Harbor. Eram 6:15.
Sob meu comando imediato havia 49 aviões de
bombardeio horizontal. À minha direita e um pouco
abaixo estavam 40 aviões torpedeiros; à minha
esquerda, cerca de 200 metros acima, 51
bombardeiros de mergulho; protegendo a formação, havia 43 caças.
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às 7:00 calculei que deveríamos chegar a Oahu em
menos de uma hora. Mas, voando por cima de
espessas nuvens, não víamos a superfície do mar
e, portanto, não podíamos controlar nossa deriva.
Liguei o radiogoniômetro para a estação de
Honolulu e não tardei a ouvir música. Girando a
antena, encontrei a direção exata de onde vinha a
transmissão, e corrigi a nossa rota. Tivéramos uma deriva de cinco graus.
Ouvi então um boletim meteorológico de Honolulu:
"Nublado em parte, principalmente sobre as
montanhas. Boa visibilidade. Vento norte, 10 nós."
Que sorte a nossa! Não se poderia ter imaginado
situação mais favorável. Devia haver brechas nas nuvens sobre a ilha.
Cerca de 7:30 as nuvens se abriram de repente e
apareceu uma longa linha branca de litoral.
Estávamos sobre a extremidade norte de Oahu. Era
hora de desdobrarmos a nossa formação.
Chegou um relatório de um dos dois aviões de
reconhecimento que tinha ido à frente, dando a
localização de dez encouraçados, um cruzador
pesado e dez cruzadores leve. O céu ia ficando
mais limpo à proporção que avançávamos para o
alvo, e comecei a estudar nossos objetivos com o
auxílio do binóculo. Os navios estavam lá. "Dê
ordem de ataque a todos os aviões", ordenei ao meu radioperador. Eram 7:49.
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As primeiras bombas caíram no aeródromo de
Hickam, onde havia fileiras de bombardeiros
pesados. Os pontos atingidos a seguir foram a
Ilha Ford e o aeródromo de Wheeler. Em pouco
tempo, imensos rolos de fumaça subiam dessas bases.
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Meu grupo de bombardeio horizontal manteve-se a
leste de Oahu, para lá da extremidade sul da
ilha. No ar só havia aviões japoneses. Os navios,
na baía, pareciam ainda adormecidos. A estação de
rádio de Honolulu continuava normalmente a sua
transmissão. Conseguíramos a surpresa!
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Sabendo que o Estado Maior devia estar ansioso,
ordenei que fosse enviada à esquadra a seguinte
mensagem: "Conseguimos realizar ataque de
surpresa. Peço retransmitir esta informação para Tóquio".
Começaram a aparecer esguichos de água ao longo
dos encouraçados. Eram os nossos aviões
torpedeiros em ação. Era tempo de desencadearmos
nossos bombardeios horizontais. Ordenei ao meu
piloto que inclinasse o avião abruptamente. Era o
sinal de ataque para o nosso grupo. Os meus dez
esquadrões formaram em coluna por um, com
intervalos de 200 metros, uma bela formação.
Enquanto meu grupo fazia a corrida para o
bombardeio, a artilharia antiaérea americana,
tanto de bordo dos navios como das baterias de
terra, entrou subitamente em ação. Aqui e ali
viam-se explosões de cor cinza escura, até que o
céu se encheu de abalos de tiros quase certeiros
que faziam o nosso avião estremecer. Fiquei
surpreendido com a rapidez do contra-ataque, que
veio menos de cinco minutos depois de lançada a
primeira bomba. A reação japonesa não teria sido
tão pronta - o caráter japonês é apropriado à
ofensiva, mas não se ajusta facilmente à defensiva.
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Meu esquadrão dirigia-se para o Nevada, que
estava fundeado na extremidade norte do Cais dos
Encouraçados, na parte leste da Ilha Ford. Estava
quase no momento de soltar as bombas quando
penetramos numa formaçaão de nuvens. Nosso
bombardeador-guia abanou as mãos para trás e para
a frente, para indicar que teríamos de passar "em
branco", e demos uma volta sobre Honolulu para
aguardar outra oportunidade. Nesse ínterim,
outros esquadrões fizeram suas corridas, tendo
alguns realizados três tentativas antes de lograrem êxito.
Repentinamente, colossãl explosão verificou-se no
CAis dos Encouraçados. Uma imensa coluna de
fumaça negro-avermelhada se elevou as uns 300
metros, e uma violenta onda de choque atingiu o
nosso avião. Devia ter explodido um paiol de
pólvora. O ataque estava no auge; a fumaça dos
incêndios e explosões enchia quase todo o céu sobre Pearl Harbor.
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Observando com o binóculo o Cais dos
Encouraçados, vi que a grande explosão havia sido
no Arizona. Este continuava ardendo
violentamente, e como a fumaça encobria o Nevada,
alvo do meu grupo, procurei outro navio para
atacar. O Tennessee já estava pegando fogo, mas
junto dele estava o Maryland. Dei ordem para
mudar, tomando o Maryland como alvo, e voamos em direção ao fogo anti-aéreo.
Quando o piloto do nosso avião-guia lançou sua
bomba, os pilotos, observadores e radioperadores
dos demais aviões gritaram "Lançar!" e lá se
foram as nossas bombas. Imediatamente me deitei
de bruços no chão para observar através de uma
fresta. Quatro bombas, formando um desenho
perfeitamente simétrico, caíam a prumo como
demônios da destruição. Foram diminuindo de
tamanho até se transformarem em quatro pontinhos,
e finalmente desapareceram dando lugar a quatro
minúsculos clarões no navio e perto dele.
De grande altitude, os tiros perdidos são mais
perceptíveis que os impactos diretos, pois
produzem ondas circulares na água, fáceis de ver.
Percebendo duas dessas ondas e mais dois pequenos
clarões, bradei: "Dois certeiros!" Tive a
convicção de havíamos produzido danos
consideráveis. Dei ordem aos bombardeiros que
haviam completado suas missões para que
regressassem ao porta-aviões. O meu, porém,
permaneceu sobre Pearl Harbor para observar e
dirigir as operações ainda em curso.
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Pearl Harbor e arredores estavam convertidos num
caos. O Utah havia emborcado. O West Virginia e o
Oklahoma, com os cascos quase arrancados pelos
torpedos, adernavam perigosamente em meia a uma
inundação de óleo grosso. O Arizona estava muito
adernado e ardia furiosamente. Os encouraçados
Maryland e Tennessee ardiam também. O
Pennsylvania, que estava no dique, ficara intacto
- evidentementre o único encouraçado que não fora atacado.
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Durante o ataque, muitos dos nossos notaram os
valentes esforços dos pilotos americanos para
decolar com seus aviões. Apesar da grande
inferioridade numérica, voaram diretamente sobre
nossos aparelhos para travar combate. Os
resultados foram ínfimos, mas sua coragem impôs admiração e respeito.
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Os aviões do nosso primeiro ataque levaram uma
hora para concluir sua missão. Quando iniciaram o
regresso aos navios aeródromos, após terem
perdido três caças, um bombardeiro de mergulho e
cinco aviões torpedeiros, entrou em cena nossa segunda vaga de 171 aviões.
O céu agora estava tão coberto de nuvens e de
fumaça que era impossível localizar os alvos.
Para dificultar ainda mais a missão, o fogo da
artilharia anti-aérea, naval e terrestre, tornara-se intensíssimo.
O segundo ataque conseguiu excelente dispersão,
atingindo os couraçados menos danificados, bem
como os cruzadores e contratorpedeiros não
atingidos anteriormente. Durou também cerca de
uam hora, mas, em virtude da intensificação do
fogo da defesa, houve novas baixas: seis caças e 14 bombardeiros de mergulho.
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Depois que a segunda onda iniciou a viagem de
retorno ao navios-aeródromos, dei novamente uma
volta sobre Pearl Harbor para observar e
fotografar os resultados. Contei quatro
encouraçadaos definitivamente afundados, três
seriamente avariados. Outro encouraçado parecia
consideravelmente desmantelado, e haviam sido
destruídos numerosos navios de outros tipos. A
base de hidroaviões da Ilha Ford estava presa das
chamas, bem como os aeródromos, especialmente o de Wheeler.
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Densa cortina de fumaça tornava impossível
determinar os estragos sofridos pelos aeródromos.
Era evidente, todavia, que boa percentagem do
poderio aéreo da ilha fora destruído: nas três
horas em que meu aviões permaneceu naquela região
não encontramos um único avião inimigo. No
entanto, vários hangares estavam ilesos, e era
possível que alguns deles contivessem aviões utilizáveis.
Meu avião foi o último a voltar para a esquadra,
onde os outros aparelhos, reabastecidos e
rearmados, estavam-se alinhando, preparando-se
para outro ataque. Fui chamado sem demora à ponte
de comando. O estado-maior do Almirante Nagumo,
enquanto aguardava meu relatório, estivera
entretido em uma discussão intensa sobre a conveniência de lançar novo ataque.
- Quatro encouraçados positivamente afundados -
informei. - Alcançamos elevado grau de destruição
nas base aéreas e nos aeródromos. Há, contudo, muitos alvos ainda por atingir.
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Insisti por novo ataque. O Almirante Nagumo,
porém - numa decisão que desde então tem sido
alvo de muita crítica por parte dos peritos
navais - preferiu voltar à base. Imediatamente
foram alçadas as bandeirolas de sinais e nossos
navios aproaram para o norte a grande velocidade.
(Compilação de Roger Pineau - Seleções do Reader
Digest: A história secreta da Guerra - 1962).
Matzembacher,André
Santa é a guerra,
e sagrada são as armas para aqueles que somente nelas podem confiar
V ilaça
http://clarival.com