Patrões esquisitos

Lucas Mendes
De Nova York para a BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/06/100610_lucasmendes_tp.shtml


Numa escala de 1 a 10, qual seu grau de esquisitice? Se você acha que 
não passa de um, então não procure emprego na Zappos. Se for 10 talvez 
seja esquisito demais, mas suas chances de conseguir emprego são melhores.

Antes de maiores explicações, vamos dar dois cenários de empresas 
diferentes com conexões taiwanesas. A Foxconn, com sede em Taiwan, tem 
700 mil empregados, 400 mil deles em Shenzen, no sul da China, onde 
fabricam componentes eletrônicos para Apple, Dell, Hewlet-Packard. Peças 
do iPhone e do iPad saem de lá.

Os empregados da Foxconn trabalham onze horas por dia, às vezes 13 dias 
seguidos sem folga. Dormem nove em cada dormitório, mal sabem os nomes 
dos companheiros de quarto, só comem no bandejão da empresa. Qualquer 
tipo de lanche fora das horas de refeição é proibido. O limite de hora 
extras na China é de 36 horas por mês, mas na Foxconn muitos empregados 
fazem 112 horas.

No fim das contas ganham US$ 1 por hora. Os banhos são frios. Estas 
condições do capitalismo chinês parecem piores do que os das empresas 
inglesas descritas por Marx e Engels, aqueles dois críticos do 
capitalismo selvagem inglês do século 19.

Só este ano, houve 13 suicídios ou tentativas de suicídio na Foxconn, 
entre eles o de Ma Chiangquian, que discutiu com o chefe e, como 
castigo, foi limpar privadas. Em depressão e absolutamente infeliz, saiu 
da fábrica pela janela do nono andar. O suicídio de Ma já aumentou os 
salários na fábrica e os patrões anunciaram mudanças de atitude. Nós, 
consumidores dos produtos chineses, vamos pagar a conta e as 
consequências da inflacao que vem por aí.

Na Zappos, com sede em Las Vegas e presidida pelo taiwanês Tony Hsieh, 
os empregados ditam os "valores essenciais" - "hardcore values" -, uma 
espécie de código de valores e comportamento da empresa.

Os pais de Tony Hsieh vieram de Taiwan como imigrantes, e os três filhos 
cresceram em cima dos livros e instrumentos musicais. Esperavam que eles 
acrescentassem MDs, PhDs e outras abreviações preciosas aos sobrenomes. 
Tony estudou em Harvard, não acrescentou nada ao nome, mas junto com 
outro colega criou a LinkExchange que foi comprada pela Microsoft por 
US$ 265 milhões. Ele tinha 24 anos.

No livro que lançou esta semana, aos 37 anos, ele conta que vendeu a 
empresa porque tomou pavor dela depois que cresceu de 10 para 100 
empregados. Ele e o sócio não conseguiam sair da cama para ir trabalhar.

Com o dinheiro, Tony Hsieh comprou parte da Zappos, uma empresa que 
vende sapatos pela internet. Na época, faturava US$ 1,6 milhão por ano. 
O problema dele de dinheiro já tinha sido resolvido (como presidente da 
Zappos, ganha R$ 5 mil por mês) com a venda da LinkExchange.

O que ele queria era criar um lugar que desse prazer de trabalhar, 
revolucionar o capitalismo, como sugere o título do livro, Delivering 
Happiness: A Path to Profits, Passion and Purpose. (em tradução livre, 
Entregando Felicidade: Um caminho para Lucros, Paixao e Proposito).

Uma das primeiras decisões dele quando assumiu a Zappos foi pedir a 
todos uma lista de sugestões do que deveriam ser os 10 valores 
essenciais (“hardcore values”) da empresa. Chegaram a 37 propostas que 
foram reduzidas para 10, entre elas, “crie diversão e um pouco de 
esquisitice no trabalho”. Vem daí a pergunta sobre quão esquisito é o 
candidato que pede emprego na Zappos.

Este patrão escreve que se interessa tanto pelo conteúdo das respostas 
como pelas reações à pergunta: “A Zappos prefere as pessoas que sejam 
diferentes, todos nos somos meio esquisitos”, diz Hsieh.

Será preciso ser meio esquisito para vender sapatos? Talvez, mas este 
não é o ponto. A Zappos quer produzir o empregado feliz que dá lucro 
para a empresa. Não importa o produto. Um dia por ano - Bald and Blue 
Hair Day - , Hsieh raspa a cabeça de vários empregados, que escrevem a 
letra Z nas carecas, nas bochechas ou pintam seus cabelos de azul, a cor 
da Zappos.

Esta é apenas uma das demonstrações de dedicação e apreço a empresa que 
paga bons salários, raramente demite, oferece refeições de graça, jogos 
e outras distrações durante o trabalho, horários flexíveis, excelente 
seguro de saúde.

Você compra os sapatos pela internet, mas se precisar esclarecer dúvidas 
vai conversar com algumas das pessoas mais solícitas deste pais. Pode 
falar sobre as vantagens e desvantagens dos modelos dos sapatos. Ou 
sobre qualquer assunto. O tempo que quiser. Para reduzir custos, a 
maioria das empresas transferiram suas centrais telefônicas de 
atendimento ao cliente para a Índia e outros países. O da Zappos fica em 
Las Vegas.

A Zappos, segundo a revista Fortune, é a 15ª melhor empresa para se 
trabalhar nos Estados Unidos. Esta também entre as empresas que lideram 
as listas dos empregados campeões de lealdade. Desde a entrada dele, as 
vendas da Zappos subiram de um US$ 1,6 milhão por ano para US$ 1 bilhão.

Hsieh ainda não está feliz. Quer empregados que cheguem ao trabalho 
sapateando nas nuvens.


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