Afeganistão pode se tornar a "Arábia do lítio", dizem EUA
*14 de junho de 2010 • 12h17 • atualizado às 12h33 * Comentários

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  [image: Região desértica na província de Ghazni pode abrigar uma das
maiores reservas de lítio do mundo, segundo o pentágono Foto: The New York
Times]

Região desértica na província de Ghazni pode abrigar uma das maiores
reservas de lítio do mundo
*Foto: The New York Times*

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  James RisenDo New York Times, em Washington

Os Estados Unidos localizaram quase US$ 1 trilhão em depósitos minerais
inexplorados no Afeganistão, muito superiores a quaisquer reservas
anteriormente conhecidas e o suficiente para alterar fundamentalmente a
economia afegã e o rumo da guerra no país, de acordo com importantes
funcionários do governo norte-americano.

Os depósitos anteriormente desconhecidos - que incluem grandes veios de
minério de ferro, cobalto, cobre, ouro e metais críticos para a indústria,
como o lítio - são tão grandes e incluem tantos minerais essenciais à
indústria moderna que o Afeganistão poderia no futuro se transformar em um
dos mais importantes centros mundiais de mineração, acreditam as autoridades
norte-americanas.

Um memorando interno do Pentágono, por exemplo, afirma que o Afeganistão
poderia se tornar a "Arábia Saudita do lítio", uma importante matéria-prima
para a fabricação das baterias usadas em laptops e celulares.

A imensa escala da riqueza mineral afegão foi descoberta por uma pequena
equipe de funcionários do Pentágono e geólogos norte-americanos. O governo
afegão e o presidente Hamid Karzai foram recentemente informados a respeito,
informaram os funcionários norte-americanos.

Embora o desenvolvimento de uma indústria mineradora possa requerer anos, o
potencial é tão grande que funcionários do governo norte-americano e
executivos do setor acreditam que os projetos possam atrair grande
investimento antes mesmo que as minas se provem lucrativas, o que ofereceria
a possibilidade de criar empregos capazes de criar uma nova opção econômica
depois de gerações de guerra.

"Há assombroso potencial aqui", disse o general David Petraeus, líder do
Comando Central das forças armadas norte-americanas, em entrevista. "Há
muitas incógnitas, claro, mas acredito que exista um potencial
significativo".

O valor dos depósitos minerais recentemente descobertos apequena as
dimensões da economia afegã encolhida por obra da guerra, cuja principal
atividade no momento é a produção de ópio e o tráfico de narcóticos, e que
depende pesadamente de assistência dos Estados Unidos e das demais nações
industrializadas. O Produto Interno Bruto (PIB) afegão é de apenas US$ 12
bilhões anuais.

"Essa descoberta se tornará a espinha dorsal da economia afegã", disse Jalil
Jumriany, assessor do Ministério das Minas afegão.

*Corrupção x desenvolvimento*
Funcionários dos governos norte-americano e afegão aceitaram falar sobre as
descobertas minerais em meio a um momento difícil na guerra afegã. Enquanto
isso, acusações de corrupção e favorecimento continuam a afligir o governo
Karzai, e o presidente parece cada vez mais amargurado com relação à Casa
Branca.

Assim, o governo Obama está ansioso por notícias positivas vindas do
Afeganistão. Mas os funcionários norte-americanos reconhecem que as
descobertas minerais certamente terão impactos contraditórios.

Em lugar de propiciar a paz, a riqueza mineral recentemente descoberta
poderia fazer com que o Talibã combatesse de forma ainda mais feroz por
retomar o controle do país.

A corrupção que já faz parte no governo Karzai seria amplificada pela
riqueza descoberta, especialmente se alguns poucos oligarcas bem
relacionados, alguns dos quais pessoalmente ligados ao presidente, vierem a
conquistar o controle dos recursos. No ano passado, por exemplo, o ministro
das Minas afegão foi acusado por funcionários norte-americanos de aceitar um
suborno de US$ 30 milhões para conceder à China o direito de desenvolver uma
mina de cobre. O ministro foi demitido.

Disputas infindáveis também poderiam irromper entre os governos centrais, em
Cabul, e os provinciais e líderes tribais nos distritos ricos em minérios. O
Afeganistão conta com uma lei nacional de mineração, redigida com a
assistência de especialistas do Banco Mundial, mas ela jamais enfrentou
contestações sérias.

"Ninguém colocou essa lei em teste; ninguém sabe como ela se sairá em uma
disputa entre o governo central e as províncias", disse Paul Brinkley,
subsecretário da Defesa norte-americano para questões de negócios e líder da
equipe do Pentágono responsável pela descoberta dos depósitos.

*Incógnitas*
Ao mesmo tempo, funcionários norte-americanos temem que a China, faminta por
recursos naturais, tente dominar o desenvolvimento da riqueza mineral afegã,
o que pode incomodar os Estados Unidos, dado seu pesado investimento na
região, Depois de vencer a concorrência pelo desenvolvimento da mina de
Aynak, na província de Logar, a China claramente deseja mais, disseram
funcionários norte-americanos.

Outra complicação, porque o Afeganistão jamais teve muita indústria pesada,
é que o país tem pouca ou nenhuma história de proteção ambiental, tampouco.
"A grande questão é determinar se isso pode ser desenvolvido de maneira
ambiental e socialmente responsável", disse Brinkley. "Ninguém sabe de que
maneira o processo funcionará".

Virtualmente desprovido de setor de mineração ou inifraestrutura, no
momento, serão necessárias décadas para que o Afeganistão possa explorar
plenamente sua riqueza mineral. "Trata-se de um país no qual não existe
cultura de mineração", disse Jack Medlin, geólogo do programa internacional
do Serviço de Levantamento Geológico dos Estados Unidos. "Eles contam com
algumas minas artesanais, mas minas de porte muito grande requererão mais
que o uso de bateias".

Os depósitos minerais estão espalhados pelo país, o que inclui as regiões
sul e leste, ao longo da fronteira do Paquistão, que viram alguns dos mais
intensos combates na guerra liderada pelos Estados Unidos contra os
insurgentes do Talibã.

O grupo de trabalho do Pentágono já começou a tentar ajudar os afegãos a
estabelecer um sistema para organizar o desenvolvimento mineral. Empresas
internacionais de auditoria que conhecem bem os contratos de mineração foram
contratadas para assessorar o Ministério das Minas afegão e dados técnicos
estão sendo preparados para envio a empresas multinacionais de mineração e
outros potenciais investidores estrangeiros.

O Pentágono está ajudando o governo afegão a iniciar o processo de
concorrência para a distribuição dos direitos de mineração, até o final
deste ano, de acordo com funcionários norte-americanos.

"O Ministério das Minas não está preparado para esse trabalho", disse
Brinkley. "Estamos tentando ajudá-los a se aprontar". Como boa parte da
história recente do país, a história da descoberta da riqueza mineral afegã
envolve muitas oportunidades perdidas e distrações causadas pela guerra.

*Histórico de pesquisas*
Em 2004, geólogos norte-americanos enviados ao Afeganistão como parte de um
esforço de reconstrução mais amplo descobriram uma série intrigante de
velhos mapas e dados, na biblioteca do Serviço de Levantamento Geólogico do
Afeganistão, em Cabul, nos quais identificaram indícios de grandes depósitos
minerais no país. Logo descobriram que os dados haviam sido recolhidos por
especialistas soviéticos em mineração durante a ocupação do país pela União
Soviética, nos anos 80, mas que o trabalho havia sido abandonado quando da
retirada soviética em 1989.

Durante o caos dos anos 90, quando o Afeganistão passou uma séria guerra
civil e terminou sob o controle do Talibã, um pequeno grupo de geólogos
afegãos protegeu os mapas guardando-os em suas casas, e só os devolveram aos
arquivos depois da invasão norte-americana e da derrubada do Taleban, em
2001.

"Os mapas existiam, mas o desenvolvimento não aconteceu, porque passamos por
35 ou 40 anos de guerra", disse Ahmad Juabre, engenheiro afegão que
trabalhava para o Ministério das Minas nos anos 70.

Com a ajuda dos velhos mapas russos, os geólogos norte-americanos começaram
uma série de levantamentos aerofotogramétricos dos recursos minerais afegãos
em 2006, utilizando equipamento avançado de medição magnética e de gravidade
instalado em um velho avião P-3 da marinha norte-americana que sobrevoou
cerca de 70% do território do país em suas missões.

Os dados dos voos foram tão promissores que, em 2007, os geólogos retornaram
para um estudo ainda mais sofisticado, utilizando um velho bombardeiro
britânico equipado com instrumentos que permitiam obter um perfil
tridimensional de depósitos minerais subterrâneos. Foi a mais abrangente
pesquisa geológica já realizada no Afeganistão. Os poucos geólogos
norte-americanos envolvidos no projeto avaliaram os novos dados com atenção
e disseram ter descoberto resultados surpreendentes.

Mas os resultados passaram dois anos juntando poeira, ignorados por
funcionários dos governos afegão e norte-americano. Em 2009, um grupo de
trabalho do Pentágono que estava criando programas de desenvolvimento no
Iraque foi transferido ao Afeganistão, e os seus integrantes localizaram os
dados geológicos. Até então, ninguém além dos geólogos havia estudado a
informação - ou tentado traduzir os dados técnicos de maneira que permitisse
medir o valor econômico potencial dos depósitos minerais.

*Esforços atuais*
Não demorou para que o grupo de trabalho do Pentágono enviasse novas equipes
de especialistas norte-americanos em mineração aos locais a fim de validar
as descobertas dos geólogos, e em seguida o secretário da Defesa
norte-americano Robert Gates e o presidente Karzai foram informados.

Até agora, os depósitos minerais de maior porte identificados eram de ferro
e cobre, em quantidade suficiente para fazer do Afeganistão grande produtor
mundial de ambos os metais, segundo funcionários norte-americanos. Outras
descobertas incluem grandes depósitos de nióbio, um metal leve usado na
produção de aço superconducente, elementos de terras raras e grandes
depósitos de ouro em áreas pashtun do sul do país. Este mês, geólogos
norte-americanos que colaboram com o grupo de trabalho do Pentágono estão
conduzindo pesquisas em lagos salgados secos no oeste do Afeganistão, onde
acreditam que possa existir grandes depósitos de lítio.

Funcionários do Pentágono disseram que sua análise inicial de um local na
província de Ghazni demonstrava o potencial de depósitos de lítio tão fortes
quanto os da Bolívia, detentora de uma das maiores reservas mundiais de
lítio conhecidas.

Para os geólogos que agora estão avaliando algumas das áreas mais remotas do
Afeganistão a fim de concluir os estudos técnicos necessários ao início do
processo internacional de concorrência pelos direitos de exploração mineral,
existe uma crescente sensação de que estão em meio a uma das maiores
descobertas de suas carreiras.

"O que estamos vendo nos locais prospectados é muito, muito promissor",
disse Medlin. "Na verdade, parecem ser descobertas maravilhosas".

*Tradução: Paulo Migliacci ME*

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