Ótimo texto!!!!!!!
Homens que você deveria conhecer: Irineu 
Evangelista de Sousa por
 Daniel Bender
 
O Irineu mais rico 
do Império. Dono de um patrimônio equivalente a 20% do PIB brasileiro, é
 o cara por trás da primeira ferrovia, do primeiro 
banco privado e da primeira siderúrgica do Brasil.A vida empresarial de Irineu 
Evangelista 
de Souza é uma sucessão de novidades, coisa rara no país em que ele 
viveu, um parente distante do Brasil atual, recheado de empreendedores 
turbinados por Sebraes, Fiesps e assemelhados.Irineu é um 
legítimo filho do único Império da história das Américas. Tanto que hoje
 ele é mais conhecido por um de seus vários títulos nobiliárquicos: Barão de 
Mauá.De
 que planeta era Irineu?O Brasil do século XIX era muito 
diferente do de agora. Muito mesmo. Graças ao esforço da coroa 
portuguesa, a sua colônia sul-americana era o pedaço mais atrasado do 
continente. Todo o trabalho era feito por escravos, todas as indústrias 
eram proibidas, não se fazia estradas para não incentivar o contrabando e
 – pasmem! – até 1808 praticamente inexistia meio circulante, obrigando a
 minúscula população livre a fazer escambo (troca sem 
dinheiro).Isso começou a mudar em 1808 com
 a chegada da família real. Cinco anos depois, em 1813, nasce Irineu em 
Arroio Grande, no extremo sul do RS, quase no Uruguai. O local era meio 
que um velho oeste, tanto que o pai do guri foi assassinado quando ele 
tinha 5 anos. Sua mãe, obrigada a se casar, seguiu a ordem do novo 
marido e enviou Irineu para viver com seu tio marinheiro.Como na 
época a coisa era um pouco diferente, o tio pega o guri e o deixa num 
armazém para trabalhar de caixeiro em troca de moradia e comida na 
capital federal, Rio de Janeiro. Ele começou a trabalhar com 9 
anos.Alguns anos mais tarde, após negociar a falência de
 seu antigo patrão, foi trabalhar com o escocês Richard Carruthers. Cá 
entre nós, é aqui que competência encontra a oportunidade. Certamente 
Irineu não foi o único brasileiro a trabalhar com o sujeito, mas foi ele
 quem ganhou a confiança do ricaço e, com isso, “herdou” a filial 
brasileira anos depois.Nasce o revolucionárioEm 1839, 
Irineu estava bem de vida. Tinha uma empresa de comércio internacional 
na mão, acesso a capital estrangeiro e chamou sua mãe e irmã para morar 
com ele.Nesta ocasião ele poderia fazer o que toda a família de 
bem brasileira fazia: investir seu excedente em escravos. Mas não. 
Preferiu ajudar os revolucionários malucos do sul que queriam criar o 
“Pampa meu país” (um erro, do ponto de vista político) e comprar uma 
passagem para conhecer o berço da Revolução Industrial, o Reino Unido.Na
 Inglaterra, conheceu o poder alucinante das máquinas. Ferrovias 
transportavam bens e pessoas de um lado para outro com velocidade e um 
sistema bancário sólido provia crédito para pessoas interessadas em 
fazer a economia crescer. Tanto melhor se no caminho estas mesmas 
pessoas ficassem acidentalmente ricas.Na volta ao Brasil, percebe
 que uma mudança na tarifação de importação acabaria com seu negócio de 
comércio internacional, decide liquidar o negócio de Carruthers e 
comprar um estaleiro. Ali ele monta sua primeira indústria,
 a Pontal de Areia. Dela sairia boa parte da frota naval imperial 
daquela época, além de badulaques fundidos de todo o tipo como postes, 
engenhos e ferramentas. No entanto, ela não era algo que nós seres do 
XXI século reconheceríamos como uma fábrica, mas sim uma série de 
oficinas mais dependentes da habilidade dos trabalhadores, em boa parte 
escravos, do que da eficiência de máquinas.Vale lembrar que 
Irineu era um negociante, não um engenheiro. Por ser 
bem relacionado, conseguiu algumas vantagens imperiais, o que não quer 
dizer muito, já que na época quem não tivesse algum favor imperial ia à 
falência mais rápido do que se diz “Pedro de Alcântara João Carlos 
Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel 
Gabriel Rafael Gonzaga”.O que sabemos é que o patrimônio do rapaz
 multiplicou-se rapidamente. Alguns anos depois Irineu começou a se 
aventurar em empreendimentos cada vez mais audaciosos, como a 
instalação de iluminação pública no Rio de Janeiro, a primeira 
companhia de navegação do Amazonas e a primeira estrada de ferro do 
Brasil, entre o porto de Mauá, na Baía de Guanabara, e o pé da serra de 
Petrópolis. Esta última proeza lhe rendeu o título de Barão.Aliás,
 diziam as más línguas que “onde está o Barão, mal há”.Fachada da 
estação de Barão de MauáPrimeiro bilionário do BrasilEm
 1851 Irineu encabeçou um dos movimentos mais interessantes do império, 
que lhe provocaria as maiores dores de cabeças. Em parceria com outros 
empresários, ressuscita o Banco do Brasil com a proposta de oferecer 
juros baixos para todos que pudessem comprovar o crédito.Vale 
lembrar que o Banco do Brasil original faliu por obra 
do digníssimo avô de D. Pedro II que, num golpe de dar inveja aos piores
 congressistas, levou todo o dinheiro do banco quando retornou a 
Portugal, em 1819.Em apenas dois anos o conservadorismo do 
império falou mais alto. “Juros baixos provocam inflação”, diziam os 
escravocratas. Outros nobres  horrorizavam-se quando funcionários do 
banco iam até suas mansões cobrar suas dívidas. No Brasil pré-Serasa da 
época, só os pobres pagavam suas dívidas. Talvez por isso que eram 
pobres. Ou porque não tinham escravos o bastante, vai saber…“Não 
queremos mais esta instabilidade!”, disse o grupo liderado pelo 
primeiro-ministro visconde de Itaboraí, logo antes de privatizar o banco
 que, a partir daí, serviria apenas aos propósitos do governo de 
ocasião. Exatamente como ocorre até hoje.Apesar 
do contratempo, os outros negócios iam de vento em popa. Ainda na década
 de 1850 ele inaugura uma casa de câmbio com agências em várias capitais
 brasileiras, Paris, Nova York e Londres. E o que seria o maior banco do
 Uruguai. Depois abre mais um banco no Brasil, um pouco menor do que o 
anterior, aproveitando uma brecha maluca na lei.Na década de 
1860, Irineu era “o cara”. O homem mais rico do país, mais até que o 
imperador, tinha tudo nas mãos exceto a boa vontade imperial.Em 1885, aos
 72 anos.Concorrência imperialAparentemente, D. 
Pedro II não era uma má pessoa ou retrógrada, como a história às vezes o
 faz parecer. É preciso entender que o sujeito foi criado em berço de 
ouro, literalmente, para ser o manda-chuva. O Brasil era um reinado 
absolutista com regras tão imbecis quanto a que obrigava a infalibilidade
 do rei.Digamos que D. Pedro II sugerisse a Dunga que 
colocasse Neymar na seleção. Dunga vai e coloca, porque ele não é louco 
(ou é, sei lá…), e Neymar não joga nada, ainda é expulso no início de 
uma quarta-de-final com a França. A culpa, nos dias de hoje, seria de 
quem mandou levar um sujeito tão instável quanto Neymar. Ou seja, do 
rei.O problema é que, legalmente, o rei nunca pode “falhar”, 
portanto Dunga teria de admitir publicamente inúmeras vezes que jamais 
deveria ter passado pela cabeça dele levar Neymar ao invés de Josué. 
“Como eu fui burro!”, diria Dunga ali por 1860, caso não quisesse ser 
julgado por lesa-majestade.Como dono do campinho, D. Pedro II 
começou a se ver interessado pelas maravilhas do mundo moderno. Entre 
outras coisas, decidiu que iria fazer uma estrada de ferro 
paralela à do Barão de Mauá com fretes mais baratos. Decidiu 
que o Banco do Brasil não iria mais conceder empréstimos para as 
empresas do Barão. E também decidiu que mudaria paulatinamente as regras
 de todo e qualquer negócio no império simplesmente porque ele podia.“Sabe
 por que cachorro lambe o próprio saco? Porque ele pode”, exatamente 
como D. Pedro II, que ficou conhecido por revezar seu apoio a liberais e
 conservadores com frequência estonteante durante seu reinado.Em 
1875, após anos de ataques, a situação se complica. O Barão de Mauá 
declara moratória e começa a liquidar todas suas empresas e bens 
pessoais para pagar suas dívidas. Homem honrado, não queria deixar 
ninguém no prejuízo.O detalhe peculiar é que, de acordo com os 
registros contábeis, a moratória do Barão se deveu a pesadas dívidas por
 parte de empresas estatais e estrangeiras. Entre elas, a São Paulo 
Railway, que questionou uma dívida gigantesca absolutamente válida 
durante anos com o argumento de que “como era estrangeira, não poderia 
ser julgada em corte brasileira”.Wonderful.Ao invés de 
sair por aí esbravejando contra o Imperador (com razão),  Irineu 
preferiu se retirar à sua casa em Petrópolis, pagar suas dívidas e tocar
 sua vida vendendo café.Morreu em 21 de outubro de 1889, três 
semanas antes do seu império também vir a falecer.
 Link YouTube | Trailer do filme “Mauá – O Imperador e
 o Rei” (1999)Referências:Mauá:
 Empresário do Império, de Jorge Caldeira.“Mauá por trás do mito”, de Carlos 
Gabriel 
Guimarães, Revista de História da Biblioteca Nacional.Wikipedia.
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   "Quelle connerrie est la guerre" 

            (Jacques Prévert)


      

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