11/07/2010
às 13:48 \ *Direto ao
Ponto<http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/secao/direto-ao-ponto/>
*
Quase 100 anos em menos de 100
palavras<http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/quase-100-anos-em-menos-de-100-palavras/>

**Se os candidatos ao exame do Enem fossem submetidos a um exame oral de
História, se tivessem de dissertar sobre o que houve de mais importante no
Brasil do século 20, se entre os julgadores figurasse o professor Antônio
Cândido, imagine que nota daria o intelectual companheiro a um aluno que
dissesse o seguinte:

*“Entre os anos 20 e 30, quando a gente teve a Semana de Arte Moderna, o
Brasil cumeçô a se pensar como país, depois houve a Revolução de 30, saiu da
República Velha, depois, ali no final dos anos 50 e nos anos 60, teve
Brasília, a bossa nova, o cinema novo, toda também uma discussão sobre os
caminhos do futuro do país, né?, a discussão sobre a identidade. **Acho que
nós vivemo um momento igual”.*

Esqueçamos as agressões ao português. Fiquemos no conteúdo. Como toda
semana, também a Semana de Arte Moderna ─ que se realizou não “entre os anos
20 e 30″, mas em 1922 ─ durou sete dias. Foi um evento importante, mas não
obrigou “a se pensar como país” um país que existia desde 1500. Antonio
Cândido sabe disso. Sabe, também, que não foi pouco o que houve entre a
Revolução de 30, que aposentou a República Velha, e “o final dos anos 50 e
nos 60″.

Houve, por exemplo, a Revolução de 1932, a Intentona Comunista, a rebelião
integralista, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, a queda de Getúlio
Vargas, a redemocratização, a volta do ditador como presidente eleito e o
suicídio. Também não foi pouco o que aconteceu entre o banquinho, o violão,
a câmera na mão, o Plano Piloto, as curvas de Niemeyer e “o momento igual
que nós vivemo”.

Houve a renúncia de Jânio Quadros, a ascensão de João Goulart, o golpe
militar de 1964, a ditadura do AI-5, a Anistia, a Campanha das Diretas, a
vitória e a morte de Tancredo Neves, os seis anos de José Sarney, o triunfo
e o impeachment de Fernando Collor, os dois mandatos de Fernando Henrique
Cardoso, o Plano Real, o fim da inflação e a Era Lula. Fora o resto.

Avaliado por Antonio Cândido, um aluno que empacotasse quase 100 anos em
menos de 100 palavras não conseguiria vaga em faculdade nenhuma, muito menos
na USP. Pois foi exatamente isso o que Dilma Rousseff fez ao resolver dissertar
sobre o 
século<http://acao.dilmanaweb.com.br/page/-/dilma/uploads/audio/Dilma_LiliMarinho.mp3?nocdn=1>20
na casa de Lily Marinho. Como o poço de ignorância não quer um lugar
na
Universidade, mas a presidência da República, Antonio Cândido sacou a caneta
do paletó não para dar-lhe um merecidíssimo zero, mas para juntar-se a um
abaixo-assinado que considera Dilma a governante que o Brasil merece.

Quem não sabe escrever o desfecho da própria biografia merece pena.

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/quase-100-anos-em-menos-de-100-palavras/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter&utm_campaign=Feed%3A+augustonunes+%28Augusto+Nunes%29

FG

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