Carlos, muito boa a reportagem que relembra o Peralva. O desencanto com o comunismo ganhou proporções maiores na abertura dos arquivos de Stalin por Nikita Kruschev - arquivos abertos e imediatamente fechados - pq certamente causariam escandalo no Congresso dos países socialistas, que se realizava naquele momento, em Moscou (Stalin falecera em 1953). Concomitantemente, na década de 1950, houve uma cisão entre historiadores ingleses marxistas - como Edward Palmer Thompson, Christopher Hill e Eric Hobsbawm, entre outros - que não concordavam com as atrocidades de Stalin e tambem pela invasão soviética na Hungria, tambem em 1956. E acabaram fundando a New Left Review, revista da "Nova esquerda" britânica.
Esses historiadores continuavam marxistas, porém, com algumas distinções. Por exemplo, Thompson acreditava que a somente através da luta de classes é que os trabalhadores adquiririam consciencia de classe (o marxismo tradicional via o contrário: primeiro a consciencia de classe, para depois a luta). Ou seja: a New Left via na experiência o despertar para a luta. No Brasil, a grande crítica da esquerda recai sobre o PCB, nos anos 1950 e 1960. Eu diria um pouco antes até, em 1943, na Conferencia da Mantiqueira, quando o PCB, sob orientação de (Luis Carlos) Prestes afirmou seu apoio ao Estado Novo e a Vargas, na luta contra o nazi-fascismo. (vejam: Vargas "entregou" Olga Benario, mulher de Prestes, à SS nazista). Parte da esquerda nao engoliu isso. Embora tenha permanecido na ilegalidade durante o mandato de Dutra, na decada de 1950, o PCB esteve alinhado ao desenvolvimentismo de JK e ao nacionalismo de Jango. Pois não acreditava, naquele momento, na revolução, somente num momento posterior. Com a articulação dúbia e indecisa de Jango, que não pendia nem para o radicalismo e nem para a parceria com os EUA, os comunistas mostraram-se abismados com a atitude do "Partidão". (somente anos depos, com Marighella, um militante do partido, aí sim, foi à pratica). O socialismo democrático, ao meu ver, era a tendencia que o governo Jango estaria tomando naqueles idos de 1963/1964, e que em 1973, Salvador Allende, presidente do Chile, colocava em prática. Um socialismo conquistado pacificamente, sem luta armada - e reside aí mais uma severa crítica da ala radical do PCB. Atribuo o "desencanto" do Peralva com Jango, provavelmente à atitude fraca do ex-presidente, num momento crítico como os últimos dias de março de 1964. Excelente reportagem. Vou procurar esse livro na Estante Virtual. Abraço Fabrício Em 1 de agosto de 2010 22:04, Carlos Antônio <[email protected]> escreveu: > > > Fabrício, > > Em 1963 eu ganhei de um professor de física o livro "O Retrato". Hoje, > quase que por acaso deparei-me com o artigo abaixo. Há muita verdade no que > é dito e o autor, além do que descreve, faz também uma espécie de mea culpa > por atitudes que teria tomado aqui. Penso que para você, que é historiador, > será útil. Vale a pena procurar. > > OSVALDO PERALVA > O jornalista que o Brasil esqueceu > > Sergio Paes da Motta e Albuquerque em 6/7/2010 > Osvaldo Peralva foi um jornalista e repórter internacional brasileiro que > esteve na União Soviética no final dos anos 1950. Falava russo corretamente, > acreditava no bolchevismo. Mas retornou decepcionado com os horrores da > ditadura stalinista e publicou seu livro-denúncia *O Retrato* (Editora > Globo, 1962), onde narra em pormenores os horrores dos porões da KGB, e as > conseqüências trágicas das idéias de Lênin e seus sucessores. Este > jornalista descreveu em minúcias cada mentira, cada fracasso do regime > soviético. E pagou por isso. > > Voltou para o Brasil convertido ao "socialismo democrático", como disse o > mesmo em seu famoso livro. Peralva também integrou o Kominform, o comitê de > informação comunista. Foi membro ativo do PCB por 30 anos, mas abandonou o > partido após pronunciamento de Nikita Kruschev, em 1956, quando o comitê foi > extinto. Foi execrado pela maioria da esquerda brasileira. Muitos > ex-companheiros o acusaram de agente da CIA. Sua atitude corajosa quase > destruiu sua vida. > > Foi diretor do *Correio da Manhã*, do Rio de Janeiro, nos anos 1960. > Desencantou-se com João Goulart, em 1964. Como muitos de seus colegas. Em > 1968 foi preso, após o AI-5. Sua corajosa e antecipada crítica jamais foi > perdoada ou esquecida pela maior parte da intelectualidade brasileira. > * > > Denúncia contundente > * > > Hoje pouco se fala de Osvaldo Peralva. O homem que disse a verdade sobre o > comunismo, muito antes da *perestroika* e de Mikhail Gorbachev, agora > ameaça desaparecer da história. Ouvi falar dele em público, pela última vez, > no final dos anos 1980, numa palestra do cientista político Leandro Konder. > Que referiu-se a ele como autor de um livro, "muito, muito ruim". Referia-se > ao *Retrato*. Nada mais disse o professor Konder sobre Osvaldo Peralva... > > O livro até hoje anda abandonado, mofando nas bibliotecas das > universidades. É um retrato precioso da falácia do socialismo soviético. Uma > completa desconstrução dos mitos que os soviéticos procuraram propagar mundo > afora, nas décadas de 1950 e 60. *O Retrato* é leitura obrigatória para > todos, membros da mídia ou não, que desejam entender a infeliz trajetória do > comunismo em sua forma mais macabra: o stalinismo. > > Osvaldo Peralva faleceu no Rio de Janeiro em 19 de outubro de 1992. Ninguém > mais fala dele. Seu nome e sua lembrança são anátemas para boa parte da > intelectualidade brasileira. Cabe a nós decidir se a denúncia contundente e > verdadeira de Peralva vai viver ou desaparecer para sempre da memória do > jornalismo e das idéias democráticas no Brasil. > > Em: > > http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=597MEM002 > > Carlos Antônio. > > -- ---- FG
