Terça-feiraRepassando do Migalhas e mostrando quanto o PT está refém do PMD.
Carlos Antônio. Francisco Petros e José Marcio Mendonça ___________ Terça-feira, 10 de agosto de 2010 - nº 113 Um novo PMDB na praça ? Depois de eleito em 2002, como animal político que é, Lula percebeu que precisava fazer alianças políticas nada ortodoxas para governar. Mas quis manter certa pureza política e ideológica de seu governo e do PT, e tomou duas providências : 1. Vetou um acordo formal com o PMDB, negociado pelo então ministro chefe da Casa Civil - o PMDB já era a imagem acabada do fisiologismo que Lula então execrava ; 2. Arranjou algumas legendas auxiliares para acomodar os adesistas de sempre, sem manchar o governo. O mensalão derrubou toda a estratégia e as portas tiverem de ser escancaradas sem pedidos de atestados de antecedência. As bancadas do PT que surgiram das urnas já não tinham o mesmo pedigree de antanho, embora ainda mantivessem certas características. O governo, no entanto, começou a ter uma cara mais parecida com o PMDB nascido depois que o partido chegou ao poder com Sarney. Pelos arranjos partidários patrocinados por Lula para eleger Dilma e manter seu grupo no poder, O PT das urnas de 2010 deverá sair mais forte nos legislativos, mas também mais parecido com o PMDB que um dia Lula não quis a seu lado. O autêntico PMDB A referência bíblica de Michel Temer a um grupo de senadores, sobre a arte de repartir o pão e as artimanhas de compartilhar - ou repartir, esquartejar - o governo diz bem dos propósitos governistas ao entoar loas à candidatura oficial. O PMDB não nega sua vocação, desde que perdeu a aura de partido da resistência à ditadura e provou as delícias de Brasília. Obséquio do silêncio Não foi a primeira vez nas últimas semanas que o presidente da Câmara e vice de Dilma expõe, sem máscara e cruamente, o fato de não ser um mero coadjuvante num futuro governo comandado pela petista. Como a estratégia da campanha de Dilma agora é mostrar que ela tem e terá luz própria, as intervenções peemedebistas estão desagradando. Sem espaço Em Brasília, na área de quem sabe dos ventos, analisa-se as declarações de Temer não como simples escorregões, fruto de desatenção ou afoiteza. Afinal, Temer não é nenhum neófito, tem reconhecida habilidade política. De fato, o vice estaria apenas dando voz à insatisfação peemedebista com o ambiente da campanha oficial. Não há nenhum peemedebista - ou outros aliados - no alto - nem no médio - staff que assessora Dilma e o tal conselho suprapartidário, que nem funciona. O PMDB está de verdade apenas na equipe de programa de governo. E ninguém ignora o valor que esses documentos têm : nenhum. São destinados à prateleira das coisas inúteis da política brasileira. A questão é outra O PT cedeu espaços regionais. Nacionalmente, não cede sequer um ladrilho. Os aliados estão estrilando, mas em conluios fechados, pois o objetivo é eleger Dilma, e ponto. Depois de outubro, Dilma e Lula terão de dançar diferentes minuetos para evitar tiroteios entre aliados, com mortos e feridos. E o PMDB então entrará com sua principal arma, como disse e acredita Temer : o tamanho de sua bancada na Câmara e no Senado. A microeconomia está em ritmo lento Nos últimos anos não tivemos nem as reformas micro e nem as macroeconômicas. Questões centrais, tais como a tributação, proteção alfandegária, política industrial, etc., ficaram no falatório ou nas prateleiras. O que temos hoje é uma política de crédito oficial que privilegia empresas com critérios duvidosos de eficiência e interesse público. Os próximos meses serão ainda mais curiosos nesta rota do governo : a eleição traz certa paralisia dos negócios à espera do novo governo. Já se sente isto em setores de infra-estrutura, por exemplo. Há mais um dado : nenhum dos candidatos traz à tona uma discussão consistente sobre o futuro do desenvolvimento brasileiro. Existe um deserto de ideias e a possibilidade da continuidade das políticas "dos amigos" é elevada. Para o mal do país. Primeiro o nosso Soou extraordinariamente "espontâneo" o manifesto assinado por doze entidades empresariais da indústria defendendo as generosas linhas de financiamento subsidiado do BNDES. Também deve ter sido uma mera coincidência o documento, como matéria paga, ter surgido no mesmo dia em que, em Londres, começava a circular o prestigioso semanário The Economist com uma reportagem com as mesmas críticas que se fazem no Brasil e o manifesto tenta explicar. Ele teria sido mais forte e "espontâneo" se tivesse vindo acompanhado de uma relação dos empréstimos do banco, a juros módicos, para os associados das entidades. Nenhuma suspeita pairaria sobre interesses particulares. E tudo poderia ser comemorado com um grande churrasco com carnes carimbadas pelos frigoríficos que receberam gorduchos empréstimos. Ficaria, como se diz, tudo em família. Exclusão financeira Duas reportagens saídas nos últimos dias mostram a atual vocação do BNDES : 1. O jornal Valor Econômico mostrou que o banco aprovou empréstimos de bilhões de reais para apenas dois frigoríficos e negou apoio a outros médios e pequenos, com dificuldades. 2. Segundo a Folha de S. Paulo, 57% dos R$ 168 bilhões de financiamentos contratados pelo banco de 2008 a junho deste ano foram para a Petrobras, a Eletrobrás e apenas dez grupos privados. É o que podemos chamar de exclusão financeira, o contrário do discurso oficial. Para uns poucos, tudo. Para alguns, migalhas. Sem trocadilho. ____________
