DIREITO DE VOTO
Bondades e maldades do horário eleitoral gratuito
Maurício Cardoso


A partir da terça-feira, 17 de agosto, os eleitores brasileiros serão brindados 
com um mimo diário. Começa a propaganda eleitoral gratuita. Todos os dias, pela 
manhã e à tarde, no rádio e na televisão, terão oportunidade de ouvir 
candidatos para os mais variados cargos dos mais diversificados partidos 
falando de suas propostas para um Brasil melhor. A maioria prefere desligar o 
aparelho. São os ônus e bônus da democracia.

Como a jabuticaba, propaganda eleitoral gratuita só tem no Brasil. E como a 
jabuticaba, ela tem uma cor por fora e outra por dentro. Muito observador 
estrangeiro elogia o espírito democrático do horário eleitoral que permite o 
acesso aos meios de comunicação para todos os candidatos, em igualdade absoluta 
de condições, não importa sua ideologia ou seu poder econômico.

No âmbito doméstico, os defeitos da invenção são mais visíveis e provocam não 
poucas reclamações. A principal delas é de conteúdo. Inventada pelo regime 
militar justamente para manter a propaganda eleitoral sob controle do Estado. 
Naquele tempo, o candidato só podia dizer o nome, o número e o cargo a que 
concorria. Hoje, cada um pode dizer o que bem entender. O problema é que a 
maioria não tem muito o que dizer. E não é fácil mesmo dizer algo original com 
tamanha concorrência. Afinal, são 50 mil candidatos vendendo o mesmo produto: a 
própria bondade.

A outra queixa contra o horário gratuito é justamente pelo fato de ser um 
horário determinado e compulsório em que todas as emissoras de rádio e 
televisão que deixa o ouvinte ou telespectador sem opção. Ou escuta ou desliga. 
Se cada emissora pudesse escolher o horário para transmitir a sua propaganda 
eleitoral, o ouvinte ainda teria a possibilidade de mudar de estação. Mas esse 
é mais um traço das origens autoritárias da invenção.

A mais grave contribuição negativa aos costumes políticos trazida pelo 
propaganda eleitoral gratuita, porém, é de natureza semântica. Propaganda 
gratuita é uma contradição em termos. Qualquer aluno de comunicação de primeiro 
ano, ou qualquer leitor de jornal ou telespectador medianamente informado sabe 
que a diferença entre informação editorial e propaganda é que a primeira é de 
graça e a segunda é paga. Quem decide qual a notícia que será divulgada no 
jornal ou no telejornal é o editor, levando em conta o interesse do leitor ou 
telespectador. Quem decide qual o anúncio que vai ao ar ou na página é o 
anunciante que paga por ele.

A regra não vale para o Direito Eleitoral. Talvez por acreditar que a 
propaganda eleitoral seja realmente gratuita - na verdade as emissoras que a 
transmitem são devidamente ressarcidas pelo poder público - a legislação e a 
Justiça eleitorais passaram a considerar toda informação eleitoral como sendo 
propaganda. Só como exemplo: uma notícia favorável ao senador Tasso Jereissati 
(PSDB) publicada no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, e outra 
desfavorável ao ex-senador Joaquim Roriz (PSC) na revista Veja foram igualmente 
censuradas sob o mesmo pretexto de tentar interferir no resultado das eleições 
futuras. Como se não fosse desejável que os eleitores - e os órgãos de imprensa 
nada mais fazem do que dar voz aos seus leitores que são também eleitores - 
pudessem influenciar no resultado das eleições. Afinal, são eles mesmos, os 
eleitores que fazem o resultado da eleição com o seu voto.

No caso do Ceará, a "propaganda editorial" feita pelo jornal tinha ainda a 
agravante de ter ocorrido fora de hora. Esse é outro absurdo da legislação 
eleitoral que pretende limitar no tempo a publicidade da atividade política. 
Porque se um político fala de alguma obra ou feito de sua autoria entende-se 
que ele está fazendo propaganda eleitoral. E a legislação só permite propaganda 
eleitoral nos seis meses antes da eleição.

Mas voltando ao horário eleitoral, como há uma propaganda gratuita, os 
legisladores acabaram por entender que se deveria conter ao máximo as despesas 
com a propaganda. A pretexto de moralizar a campanha e terminar com o caixa 2, 
na primeira eleição depois do escândalo do mensalão, a mais explícita exibição 
de gastos de campanha não contabilizados nunca antes mostrada nesse país, foi 
baixada uma legislação que proibia tudo na campanha: de camiseta a showmício, 
de outdoor a panfletagem.

Limparam a campanha e a cidade - não se sabe se também o caixa 2 - mas 
empurraram a propaganda eleitoral ainda mais para seu único reduto legítimo: o 
horário gratuito. Que também por medida de economia e de probidade teve 
proibido o uso de recursos gráficos e tecnológicos capazes de tornar a mensagem 
mais palatável ou mais agradável de ser vista.

Que se prepare, portanto o eleitor. O horário eleitoral gratuito começa na 
próxima terça-feira com a perspectiva de monotonia de sempre. Mas essa é a 
melhor oportunidade para se conhecer os candidatos, principalmente os 
pretendentes a se tornar deputado e senador, que são milhares. É o preço da 
democracia.

Em: 
http://www.conjur.com.br/2010-ago-12/direito-voto-bondades-maldades-horario-eleitoral-gratuito

Carlos Antônio.

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