*Carência de professores: um dos reflexos da crise do magistério* *Necessidade de melhores salários e de condições de trabalho mais adequadas são algumas das reivindicações feitas por membros do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro para que a carreira volte a ser atrativa para os jovens estudantes.
* Alessandra Moura Bizoni Perda de status social, baixos salários e carga excessiva de trabalho são alguns dos fatores apontados por integrantes do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro (CEE/RJ) para o déficit de professores que atinge a educação brasileira. O problema extrapola as fronteiras fluminenses e ganha abrangência nacional, interferindo, segundo alguns, em pontos estratégicos para o desenvolvimento do país. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC) sobre a educação básica indicam que são necessários 235 mil professores no ensino médio e 476 mil para as turmas de 5ª a 8ª série, totalizando 711 mil professores. *Segundo o órgão, nos últimos anos, o número de professores formados nos cursos de licenciatura foi de 457 mil, gerando uma lacuna de cerca de 250 mil docentes*. O estudo feito pelo Inep revela que o Brasil necessitaria de 55 mil professores de Física e o mesmo número de Química. Entre 1990 e 2001, apenas 7.216 professores graduaram-se em Física e 13.559 em Química. Os números demonstram, e especialistas concordam, que *a profissão do magistério não atrai mais os jovens, como ocorria no passado*. Segundo os conselheiros, os estudantes percebem, já na escola, as dificuldades enfrentadas no cotidiano e as perspectivas financeiras da carreira docente, o que os leva a escolher outras áreas de atuação. Com a potencialização deste ciclo vicioso, o setor educacional é quem perde. Diante do quadro de carências, o Inep estima que, até 2010, o país vai formar somente 14.200 professores de Física e 25.300 de Química. Preocupado com o problema, o Ministério da Educação (MEC) tem desenvolvido programas especiais para os docentes, que incluem prioridade ao reconhecimento de cursos de licenciatura e a implantação por todo o país da Universidade Aberta do Brasil (UAB) — cujo objetivo é aprimorar a formação profissional dos professores. Outra iniciativa nesse sentido é a criação de uma bolsa de iniciação à docência, nos moldes da bolsa de iniciação científica, para graduandos, concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Entrevistados, integrantes do CEE/RJ analisam o problema, cobrando melhores salários e condições de trabalho para o magistério, especialmente para aqueles que atuam na educação básica. A carreira do magistério ainda é atraente? *Amerisa Rezende, integrante do CEE/RJ * “Iniciei minha vida como uma educadora de grande respeito, tanto de minha parte, quanto dos alunos e da comunidade. Isso era uma coisa que nos impulsionava. Infelizmente, hoje, não há essa valorização que o professor merece. Ele não está sendo mais respeitado pelas autoridades, que não têm um projeto do Governo que o coloque no lugar de destaque. Estamos sendo marginalizados não apenas quanto à valorização financeira, mas também quanto à valorização pedagógica. Lembro-me que, quando dava aulas na rede estadual, nos períodos de férias, tinha a oportunidade de ficar hospedada no Caio Martins, em Niterói, para fazer vários cursos de capacitação. Isso era a valorização pedagógica. Nossos professores deveriam todos ter, como base, o curso Normal Médio, que é onde se recebe as bases iniciais de uma atuação docente. E, hoje, o curso Normal Médio está à porta de extinção. A formação do professor está desvirtuada. Quem está no curso Normal hoje em dia? Aqueles que não conseguem galgar o ensino superior”. *Francisca Pretzel, integrante do CEE/RJ *“Pelo que eu tenho observado, a carreira do magistério não é mais atraente. Se nós, no país, em todas as unidades federativas, temos uma necessidade de 450 mil professores, é porque não há oferta de cursos ou não há interesse dos jovens. Eu lamento, muitas vezes, quando entro no táxi e pergunto ao motorista qual é a sua qualificação e eles respondem que são professores. Às vezes são docentes até de Física, onde há carência de pessoal. E por que eles estão nessa profissão? Porque o salário do magistério não compensa. As pessoas fazem quatro anos de Pedagogia, com licenciatura plena e, quando vão trabalhar na sua qualificação, os vencimentos não correspondem àquilo que é necessário para sua sobrevivência, com um mínimo de qualidade. Na minha concepção, a profissão do magistério não compensa atualmente. Esta é a razão pela qual nós temos tanta necessidade de professores e não existem profissionais aptos para completar o quadro”. *Ângela Mendes Leite, integrante do CEE/RJ* “Infelizmente, hoje, no Brasil não existe uma valorização do professor e nem da educação. Esse é um movimento de toda a sociedade. Viemos perdendo, ao longo dos anos, a capacidade de compreender o importante papel que a educação tem na construção do país. Mas, acredito que ainda há pessoas destinadas a romper com este triste paradigma e trazer a educação de volta para a ordem do dia da nossa nação”. *Renata Bondim, integrante do CEE/RJ* “A carreira do magistério não tem sido atraente para o jovem porque, há muitas décadas, a profissão vem sendo desvalorizada. Isso está refletido no salário, que não dá condições para o docente se manter atualizado, ter acesso a outras expressões artísticas e culturais. A educação é um processo social e é preciso um repertório cultural qualificado. Hoje, o sistema está sucateado. O jovem, já na escola pública, vê quais são as condições de trabalho de seus professores e os problemas que eles enfrentam em seu dia-a-dia. E o jovem sonha com um futuro melhor, quer ter acesso a bens simbólicos e materiais. E se ele for professor, sabe que não vai conseguir isso. Os professores de ensino superior são mais bem remunerados e reconhecidos que os de educação básica. Mas todos passam pela educação básica. E quanto melhor for o professor da educação básica, melhor será a qualidade do nosso ensino. Acredito que, hoje em dia, muitos têm a vocação para o magistério, mas não seguem a carreira. Alguns fazem até os cursos de licenciatura, mas vão em busca de outras coisas”. *Arlindenor Pedro de Souza, integrante do CEE/RJ * “Do ponto de vista estratégico para o país, a carreira do magistério é importantíssima. Contudo, do ponto de vista de mercado, hoje, ela não é mais uma carreira atraente para os jovens. Por isso, acredito que o magistério se tornou uma profissão em extinção. E penso que essa questão merece atenção dos governantes e da sociedade civil, devendo ser tratada do ponto de vista estratégico. Muitos países mudaram a sua história após terem feito uma reforma educacional. E não existe nenhum país que tenha feito uma reforma educacional de peso sem ter mexido na questão do papel do professor e de seu salário”. http://www.folhadirigida.com.br/htmls/hotsites/suplemento_2007/Cad_06/Pag_64.html -- ---- FG
