17/08/2010

Ninguém faz horário eleitoral como o Carlos Imperial...

 Hoje começa o horário eleitoral gratuito. Não vou assistir a nenhum. Já
escolhi meus candidatos. Além do mais, o programa é um porre.

Não consigo ver o horário eleitoral sem lembrar do Carlos Imperial
(1935-1992). Se você não conhece o Imperial, sugiro correr até a livraria e
comprar “Dez, Nota Dez!”, a divertida biografia do sujeito, escrita por
Denilson Monteiro.

Imperial foi o picareta mais genial que o Brasil já conheceu. Um dos
pioneiros do rock no país, apresentou programas na TV e no rádio, escreveu
colunas de jornal, lançou discos, fez filmes, jogou nas onze. Gostava de
polêmica e sabia criar escândalos como ninguém. Era uma manchete ambulante.

Em 1985, Imperial inventou sua jogada mais estapafúrdia: candidatou-se a
prefeito do Rio. Num gesto de extrema sem-vergonhice, criou o PTN –Partido
Tancredista Nacional - para tentar faturar com a comoção causada pela morte
de Tancredo, meses antes.

Seu tempo na TV era curtíssimo. Mas ele, velho macaco de imprensa, usava os
poucos segundos de que dispunha com táticas chocantes. Cercado de
assistentes – as “zebrinhas” – Imperial aparecia com uma camisa zebrada, ao
som de “Cidade Maravilhosa” e sempre gritando seu bordão: “vai dar zebra!”.
Na parede, uma foto de Tancredo Neves adicionava ainda mais surrealismo à
coisa toda.

Já viu um filmaço do Sidney Lumet chamado “Rede de Intrigas” (1976)? Peter
Finch faz um apresentador de TV que pira no ar e anuncia que vai se matar em
rede nacional. “Estou puto da vida e não agüento mais!”, grita o alucinado.
A audiência dispara.

Imperial resolveu imitar Peter Finch. Ele apontava diretamente para a
câmera, fazia cara de revoltado e dizia: “Povo do Rio de Janeiro, é, você,
meu amigo, que vive sendo sacaneado... vá agora para a janela e grite: ‘Eu
não agüento mais!!!!’”

Eu tinha 17 anos e fiquei louco com o Imperial. “Eu não agüento mais!” virou
o bordão meu e de todos os meus amigos. Não tinha uma aula de Física em que
algum retardado não levantava no meio da sala e gritava “Eu não agüento
mais!!!!!”

Fui até um comitê do Imperial e peguei todos os cartazes, adesivos e bonés
que pude. Comecei a fazer campanha.  Imperial pedia que os “patrulheiros
mirins” ligassem para ele, denunciando qualquer desmando na cidade. “Você
será atendido pessoalmente por uma zebrinha”, prometia. Mandei várias
reclamações contra meus professores mas, infelizmente, nenhuma foi lida no
ar. Também nunca consegui falar com nenhuma zebrinha.

Imperial não ganhou. Mas sua campanha na TV é a melhor que já vi até hoje.

Outros tentaram: havia um candidato no Rio chamado Nelson Merru, que
costumava encerrar seu discurso jogando um espanador na direção da câmera. E
não podemos esquecer o grande Marronzinho, candidato a presidente em 89, que
prometia pagar a dívida externa com óleo de mamona. Mas nenhum chegou nem
perto do Imperial.

Por isso, quando você ligar a TV e der de cara com o horário eleitoral
gratuito, vá até sua janela, abra a janela e grite: EU NÃO AGUENTO
MAIS!!!!!!

Escrito por André Barcinski às 00h59

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FG

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