Dez anos após matar a namorada, Pimenta Neves vive em liberdade Réu
confesso no assassinato de Sandra Gomide, o então diretor de redação de “O
Estado de S. Paulo” ficou menos de 7 meses preso

*Ricardo Galhardo, iG São Paulo* | 13/08/2010 12:00

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Foto: AE

Sandra Gomide foi assassinada em agosto de 2000

No dia 20 de agosto de 2000, o então diretor de redação do jornal "O Estado
de S. Paulo" Antonio Marcos Pimenta Neves matou com dois tiros pelas costas
a repórter do jornal Sandra Gomide, de 32 anos, em um haras em Ibiúna.
Algumas semanas antes ele havia sido abandonado por Sandra, que era também
sua namorada. Pimenta Neves confessou o crime, foi condenado em 2006 a 19
anos de cadeia em um júri popular (pena reduzida para 18 e depois 15 anos),
mas passou menos de sete meses na prisão.

Passados quase 10 anos do assassinato de Sandra, especialistas e advogados
que participaram do caso creditam a impunidade do jornalista a dois fatores:
a lentidão da Justiça e a legislação penal anacrônica brasileira. No início
de agosto o caso finalmente chegou às mãos do ministro Celso de Mello,
relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), que pode a qualquer
momento decidir se aceita ou não o recurso da defesa de Pimenta, que pede a
anulação do julgamento realizado em maio de 2006.

Para o Ministério Público e os advogados da família de Sandra, a decisão do
STF pode ser o último passo do emaranhado de recursos e apelações que
garantem ao assassino viver em liberdade durante 10 anos embora condenado. Já
o pai de Sandra, João
Gomide<http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/pai+de+sandra+gomide+diz+nao+ter+esperanca+de+ver+assassino+preso/n1237746902390.html>,
não tem esperança de ver o criminoso atrás das grades

Embora tenha embasamento jurídico, a situação de Pimenta contraria a lógica.
Ele se beneficia da presunção da inocência para continuar solto apesar de
ser um réu confesso. Ou seja, não existem dúvidas quanto à sua culpa mas a
Justiça ainda o considera inocente até que não exista mais possibilidade de
apelação.

Pimenta Neves foi preso em 3 de setembro de 2000, logo depois de cometer o
crime, e solto em 23 de março de 2001 graças a um habeas corpus do mesmo
ministro Celso de Mello que lhe conferia o direito de aguardar em liberdade
o julgamento, que só aconteceria em 2006 devido a protelações da defesa e à
lentidão do Judiciário.

Em 13 de dezembro daquele ano o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a
condenação e determinou a prisão do jornalista. Ele foi considerado foragido
da Justiça por três dias até que no dia 16 de dezembro a ministra Maria
Thereza de Assis Moura, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), concedeu novo
habeas corpus, desta vez baseado na presunção da inocência.

A tendência de manter o réu em liberdade até que o caso transite em julgado
começou no início da década de 2000 no STF e se transformou em
jurisprudência que agora também é seguida pelo STJ. A ideia é impedir a
injustiça de colocar na cadeia alguém que, em última instância, pode ser
considerado inocente. "Isso é até louvável, mas não no caso de um assassino
confesso. Falta sensibilidade aos tribunais superiores. Como um réu confesso
pode ser presumidamente inocente?", questionou o promotor do caso, Carlos
Sérgio Rodrigues Horta Filho.

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Foto: iG

Pimenta deixa a cadeia acompanhado de advogados no dia 23 de março de 2001
depois de passar sete meses preso (Foto AE)

*Lentidão da Justiça*

A partir de então o caso entrou em um labirinto de recursos especiais e
extraordinário, apelações, embargos, agravos regimentais, agravos de
instrumentos, enfim, todo o arsenal que a legislação brasileira oferece para
protelar o cumprimento da sentença.

No final de julho o Ministério Público Federal deu parecer contrário à
defesa de Pimenta e o processo foi finalmente remetido para o ministro
Mello. Para se ter uma ideia de como o processo desviou do objetivo
principal, o nome de Sandra e o crime do qual ela foi vítima não são nem
sequer citados no parecer do MPF.

Em agosto de 2009 a situação era descrita no site do STF pela sigla "EDCL no
AGRG nos ERESP". Traduzindo: embargos declaratórios no agravo regimental nos
embargos do recurso especial. Tudo isso foi negado pela Justiça. Depois a
defesa protocolou um recurso extraordinário que finalmente será julgado pelo
STF. Os advogados de Pimenta alegam irregularidades no julgamento como a
proibição de um depoimento por vídeo gravado (o que impede a acusação de
contestar as afirmações do depoente) e a ausência de uma testemunha que vive
nos EUA e serviria apenas para reafirmar a idoneidade de Pimenta Neves.

A ação movida pelo pai de Sandra pedindo indenização a Pimenta também está
longe do fim. O jornalista foi condenado a pagar R$ 166 mil mas seus
advogados recorreram. O caso ainda não foi julgado pelo Tribunal de Justiça
de São Paulo e ainda pode ir para o STJ e o STF.

"Se até hoje ele não propos um acordo é porque pretende recorrer muitas
vezes. Este caso ainda vai para a terceira instância", disse o advogado
Fábio Barbalho Leite.

O defensor do jornalista, José Alves de Brito Filho, se recusou a comentar o
caso. Ele também se negou a intermediar um pedido de entrevista com Pimenta
Neves. "Ele não dá entrevista nem para Deus", disse o advogado. O iG foi
quatro vezes até a casa do jornalista que nem sequer abriu a porta.

*Impunidade de Pimenta Neves*

Outros profissionais que participaram do caso se dividem quanto às causas da
impunidade de Pimenta. Alguns acusam o sistema em si e seus infinitos
recursos. Outros, à lentidão dos tribunais.
"Embora existam todos estes recursos, quando houve vontade da Justiça o caso
andou. O problema é a lentidão. O processo ficou seis anos aguardando
julgamento no Tribunal de Justiça. Ninguém fica seis anos esperando
julgamento preso. Ele está se aproveitando dos recursos que tem direito. O
que não pode é demorar tanto para julgar", disse o advogado Sergei Cobra
Arbex, assistente da acusação.

Já o promotor Horta Filho está descrente de que o jornalista seja preso.
"Este caso é um dos maiores absurdos do sistema jurídico brasileiro. Vou ser
sincero. Não tenho expectativa nenhuma. Bastaria dizer que não cabe mais
recurso, mas os tribunais superiores não batem o martelo e permitem essa
protelação sem fim", disse ele.

Com 50 anos de experiência na área criminal, o advogado Paulo Sérgio Leite
Fernandes lembrou que a legislação foi abrandada ainda na ditadura militar
para beneficiar o delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos principais
responsáveis pela repressão política em São Paulo, que foi alvo de pedido de
prisão por supostos assassinatos cometidos pelo esquadrão da morte, na
década de 70.

"Pimenta Neves está solto porque tem bons antecedentes e é primário. Isso
vale para qualquer um que cometa um crime desde a chamada Lei Fleury, que
criou a liberdade provisória. Ironicamente o jornalista é beneficiado por
uma lei criada para proteger um dos maiores carrascos da ditadura", disse o
advogado.

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FG

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