Segue a dica de livro... A resenha deste livro saiu na Folha de S.Paulo no
dia 15/08. O livro é um tijolo (826 páginas), mas vale a pena o "esforço" de
musculação para lê-lo (e também esforço financeiro, já que custa a
"bagatela" de 84 reais! rs), justamente por tecer uma abordagem nova sobre a
história do stalinismo: a história contada sob a ótica da vida privada, de
quem viveu (e sofreu) o regime totalitário. A história da Revolução Russa,
do período de Stálin e posteriormente Kruschev carece de uma historiografia
feita basicamente por RUSSOS, tendo em vista que o regime não era
democrático a ponto de permitir uma avaliação idônea sobre os períodos em
questão. Quem se atrevia a escrever "contra" ou algo que desagradasse, o
destino era um Gulag, a Sibéria ou o fuzilamento mesmo. rs
*HISTÓRIA*
*Perversão e culpa* *
A vida privada sob Stálin*
*RESUMO*
Um ensaio monumental de Orlando Figes e um romance de Robert Littel retratam
a vida privada de cidadãos comuns e intelectuais durante o regime de Stálin
na União Soviética (1924-53). Delação, culpa e repressão engendraram um
peculiar e romanesco sistema social e político marcado pela paranoia e pelo
terror generalizados.
* BERNARDO CARVALHO*
ilustrações *MARCELO COMPARINI*
*O INGLÊS ORLANDO FIGES*, um dos maiores especialistas na história da Rússia
e da União Soviética, foi pego, há pouco mais de três meses, com as calças
na mão. Um internauta-resenhista, usando o codinome "historiador", havia
postado comentários devastadores contra os livros de dois outros estudiosos
do mundo russo e soviético no site da Amazon. Como se não bastasse, o mesmo
resenhista era só elogios hiperbólicos a "Sussurros", de Figes, um imenso
painel sobre a vida privada na União Soviética de Stálin.
Alguns internautas -e as vítimas dos comentários- começaram a desconfiar de
que o "historiador" e o autor de "Sussurros", professor no Birkbeck College,
na Universidade de Londres, fossem a mesma pessoa. A suspeita chegou ao
"Times Literary Supplement". O mínimo que se pode dizer é que, a partir daí,
o próprio Figes não deixou de contribuir, com suas ações desastradas, para
amplificar o vexame.
Num primeiro momento, por meio de seu advogado, o egrégio historiador (agora
sem aspas) exigiu a retratação dos que o acusavam, ameaçando processá-los.
Num segundo momento, sabe-se lá por quê, responsabilizou a própria mulher, a
advogada Stephanie Palmer, por ter tomado, sem o seu conhecimento, a
iniciativa de postar os comentários infames no site da Amazon.
*CULPA DE STÁLIN *Dias depois, para surpresa ainda maior, Figes pôs a culpa
em Stálin: assumiu afinal a autoria dos "posts" espúrios, mas sob a desculpa
de que o exaustivo trabalho de pesquisa exigido para a execução do
monumental "Sussurros" o teria deixado num estado de "depressão profunda",
capaz de levá-lo a cometer "erros tolos". E saiu de licença, por motivo de
saúde.
*
"Sussurros - A Vida Privada sob Stálin" [trad. Marcelo Schild e Ricardo
Quintana, Record, 826 págs., R$ 84,90]*, de Orlando Figes, acompanha uma
dezena de famílias soviéticas ao longo do século 20, relata a vida privada
de pessoas comuns e suas "estratégias de sobrevivência, os silêncios, as
mentiras, as amizades e traições, as concessões e acomodações", diante dos
crimes mais pavorosos que um Estado totalitário, com o auxílio indispensável
do que há de pior entre os homens, pode cometer contra seus cidadãos:
torturas, sequestros, prisões, condenações e execuções baseadas em falsas
denúncias, falsos depoimentos e julgamentos de araque.
Elif Batuman, autora do engraçadíssimo "The Possessed" ("Os Demônios -
Aventuras com Livros Russos e as Pessoas que os Leem", publicado em
fevereiro, nos EUA, pela Farrar, Strauss and Giroux), certamente daria outro
diagnóstico para a depressão de Figes, mostrando, com conhecimento de causa,
o que já era óbvio: que a loucura do historiador tem menos a ver com Stálin
do que com a própria academia.
Batuman, que também é detratora das sagradas oficinas de criação literária
nos EUA (acredita ser mais fácil aprender a escrever romances lendo
Cervantes, Dostoiévski e Foucault), ensina literatura russa na Universidade
Stanford, na Califórnia, e está acostumada a lidar com acadêmicos e seus
congressos, como se pode depreender do humor absolutamente judaico dessa
acadêmica de origem turca.
Ainda estudante, ela ajudou a organizar um congresso em torno de Isaac Bábel
(banido e executado durante o terror stalinista), tendo a chance, por assim
dizer, de privar da companhia não exatamente fácil da descendência do
escritor. Também conseguiu emplacar um texto num colóquio de tolstoianos, em
Iásnaia Poliana, a antiga propriedade rural do autor de "Guerra e Paz". Mas,
como sua mala desaparecera nos labirintos da malha aérea da Aeroflot, a
companhia russa, Batuman acabou passando os quatro dias do congresso com a
roupa que tinha reservado para dormir no avião (chinelos, calças de moleton
e um camisão de flanela), o que levou os colegas a confundi-la com os
fanáticos seguidores da seita criada por Tolstói no século 19.
O pequeno embuste de Figes não revela nada além da vaidade (um tanto
descontrolada, é certo) do acadêmico. E se tem alguma relação com o mundo
stalinista, como pretende o próprio autor, é apenas por refletir, numa
escala insignificante, a prática das difamações e das acusações anônimas
-moeda corrente na internet de hoje, embora sem as consequências do mesmo
gênero de ações nos regimes totalitários.
* PARANOIA
*Entre 1928, quando Stálin obtém poder total, e 1953, ano de sua morte, em
média uma pessoa para cada 1,5 família foi vítima da repressão do Estado
(cerca de 25 milhões de pessoas, estima Figes). A população não distinguia
entre presos políticos e criminosos comuns. Pegos de surpresa, familiares
costumavam atribuir a prisão de um parente a algum equívoco ou
mal-entendido. A paranoia chegou a ponto de ninguém mais ser considerado
inocente. Mulheres passaram a desconfiar de maridos e vice-versa. Pais
presos exortavam os filhos a renunciá-los, se quisessem vencer na vida - ou
simplesmente sobreviver.
É realmente uma ótima ideia estudar a vida privada de um mundo onde a
própria ideia de privacidade se tornara uma aberração. Num apartamento
comunal de Leningrado (nome da atual São Petersurgo entre 1924 e 1991), nos
anos 30, por exemplo, podia haver apenas um banheiro para 48 moradores, que
tinham de sussurrar quando queriam falar de seus assuntos privados.
Também sussurravam os delatores. No auge do terror (entre 1937 e 1938),
havia informantes por toda parte, em fábricas, escolas, escritórios,
apartamentos e locais públicos. Segundo cálculos de ex-oficiais ligados à
polícia, havia em Moscou (uma cidade de 3,4 milhões de habitantes em 1933,
quando o crescimento da população passou a ser controlado por um sistema de
passaportes e expulsões) pelo menos um informante para cada seis ou sete
famílias.
Não há nenhuma inverdade na opinião enlevada que Figes tem da própria obra.
E ele não teria do que se envergonhar se não fosse por ter-se valido de um
codinome para atacar seus pares e publicar o autoelogio. "Sussurros" é um
livro fenomenal. A equipe do historiador consultou dezenas de arquivos e
entrevistou centenas de pessoas ao longo de sete anos (a totalidade dos
depoimentos pode ser acessada em *orlandofiges.com*).
*STALINISTA BOM*
O que a anedota infeliz da internet e a vaidade do historiador talvez
permitam compreender sob outra ótica é sua empatia por Konstantin Simonov
(1915-79), um dos favoritos do regime, que Figes teve a perspicácia de
transformar não só em fio condutor mas em herói trágico do seu livro: "Se
fosse possível ser um 'stalinista bom', ele poderia se enquadrar na
categoria. [...] Compreender seus pensamentos e ações talvez seja
compreender esse período", escreve na introdução.
A complexidade desse personagem vaidoso e ambíguo, capaz de sobreviver aos
piores anos do terror e da paranoia, mantendo as regalias reservadas aos
mais altos escalões e vivendo com um glamour equivalente ao de Hollywood
quando até os homens da mais alta confiança de Stálin terminavam caindo em
desgraça, traídos por seus próprios amigos e colaboradores, faz de
"Sussurros" um valioso documento histórico que se lê como um grande romance.
"O Simonov ficou famoso com um poema de guerra, muito sentimental, 'Espere
por mim'. Como poeta, é bastante fraco", sentencia Boris Schnaiderman, que
reconhece, contudo, a importância literária de outros escritores
stalinistas, como Mikhail Chólokov. "Espere por mim" foi escrito em 1941,
quando Simonov era correspondente na frente de batalha, para a atriz
Valentina Serova, que o escritor cortejava à época e com quem acabou se
casando sob os auspícios do Kremlin.
Especialista em literatura russa, tradutor de Púchkin e Dostoiévski (e
contemporâneo de Simonov), Schnaiderman nasceu na Ucrânia em 1917 e deixou a
União Soviética em 1925. Suas visitas à Rússia desde 1967 renderam, entre
outros, "Os Escombros e o Mito" (Companhia das Letras), sobre a glasnost e a
perestroika - literalmente, "transparência" e "reestruturação econômica", as
duas palavras que simbolizam as políticas de abertura administrativa e de
informação implantadas por Mikhail Gorbatchov e que culminariam no fim da
União Soviética, em 1991. Uma reunião das entrevistas de Schnaiderman deve
sair ainda neste ano na coleção Encontros, da editora Azougue.
*SOBREVIVÊNCIA*
O mea-culpa feito por Simonov no final da vida confirma a opinião de
Schnaiderman: a literatura foi, para Simonov, menos uma questão literária do
que de sobrevivência. O escritor fez o que foi preciso fazer. Escreveu
poemas à glória de Stálin (grandes poetas, como Boris Pasternak, também
escreveram). Sob intensa pressão, recusou-se a ser informante (o que talvez
o tenha salvado, no final das contas), mas nunca deixou de servir ao Estado
com a aparente convicção de um homem moral e íntegro na sua ingenuidade e na
sua cegueira.
Secretário da União dos Escritores, Simonov não poupou ataques aos "inimigos
do povo", fossem eles formalistas, cosmopolitas, liberais ou simplesmente
judeus, dependendo do momento e a despeito de suas duas primeiras mulheres
-a segunda, mãe de seu filho- serem judias. Apoiou a invasão da Hungria, em
1956, e impediu a publicação do "Doutor Jivago", de Pasternak, na revista
"Nóvi Mir" (o romance acabou saindo no Ocidente e garantindo o Nobel de
literatura ao autor, em 1958, que foi obrigado a recusá-lo sob pressão do
Estado soviético).
Entretanto, nos anos que precederam sua morte, Simonov tornou-se um ardoroso
defensor dos escritores censurados e perseguidos por Stálin. Passou a
colecionar arte da vanguarda soviética e teve um papel na divulgação dos
poemas de Óssip Mandelstam, chegando a ajudar financeiramente a viúva do
escritor, Nadedja. Teve papel decisivo no processo que levou à publicação da
obra-prima proscrita de Mikhail Bulgákov, "O Mestre e Margarida" (trad. Zoia
Prestes, Alfaguara). Quando morreu, a imprensa internacional noticiou o
desaparecimento do "favorito de Stálin". O escritor russo e Nobel de
literatura de 1970 Alexander Soljenitsin o chamava de "homem de várias
faces".
Simonov aprendeu a calcular desde cedo. Filho de uma princesa, descendente
de um clã de grandes proprietários de terra, e de um general czarista
desaparecido em 1917, passou a vida tentando esconder as origens
aristocráticas. Depois do sumiço do pai, a mãe foi despejada do apartamento
onde moravam em Petrogrado (nome de São Petersburgo entre 1914 e 1924) e
obrigada a ir viver no interior, onde entendeu que mais valia casar-se de
novo, ainda que o pretendente fosse de classe inferior, a manter-se princesa
abandonada em plena revolução.
Criado pelo padrasto, militar humilde que sonhava com uma educação superior
para o enteado, Simonov preferiu cursar uma escola técnica e trabalhar numa
fábrica. Tinha entendido que sua sobrevivência dependia de uma metamorfose.
E, ao longo de toda a sua formação, comportou-se como um aplicado aspirante
a operário, um "CDF" (como foi apelidado pelos colegas) proletário.
Participava de todo tipo de agremiações e associações, com a disciplina de
um pequeno burocrata, a ponto de não se poder mais distinguir entre a
estratégia e a personalidade. A prisão do padrasto, em 1930, em vez de levar
o adolescente a questionar o regime, apenas o fez trabalhar com mais afinco
para sustentar a mãe e corresponder ao modelo do operariado soviético.
* ANKETA*
"Havia a famosa 'anketa'", diz Schnaiderman. A palavra, derivada do francês
"enquête", designava uma espécie de currículo e atestado de bons
antecedentes. "Para tudo precisava de 'anketa'. Estava tudo ali, suas
atividades, seus antecedentes. Você tinha que ter origem adequada. O
Bulgákov, por exemplo, tinha servido no Exército Branco, como médico, contra
os bolcheviques, na guerra civil. Por mais que Stálin admirasse sua peça 'Os
Dias dos Turbins', ele estava marcado pela origem", diz Schnaiderman.
Mikhail Bulgákov foi, por sinal, um dos poucos a se recusar a participar, em
1933, do passeio de propaganda pelo canal do mar Branco a que se submeteram
120 escritores.
Organizado numa das célebres reuniões no palacete de Máximo Górki, em
Moscou, onde, dois anos mais tarde, também seria elaborada a doutrina do
realismo socialista anunciada no 1º Congresso da União dos Escritores, o
passeio tinha por finalidade exaltar o gulag, o sistema dos campos de
trabalhos forçados. Construído com mão de obra de prisioneiros, o canal foi
um dos projetos mais desastrosos e assassinos do primeiro plano Quinquenal
(1928-33), que também espalhou a fome por toda a União Soviética.
Simonov, à época com 18 anos, trabalhava como mecânico nos estúdios de
cinema onde Pudovkin filmava "O Desertor" e ficou tão encantado com a
oportunidade edificante daquela farsa que passou a escrever seus próprios
poemas sobre o canal, terminando por visitá-lo, com financiamento da editora
estatal, para escrever mais poemas. Nascia um poeta stalinista. A
consagração, porém, só veio mesmo durante a Segunda Guerra (1939-45), que
para muita gente teve o efeito purificador de legitimação do regime na luta
contra o nazismo, quando o poema "Espere por mim" transformou Konstantin e
Valentina na face romântica e glamourosa do terror.
* EPIGRAMA*
É claro que nem todos os escritores reagiam da mesma forma. A fome no campo
(que testemunhou em uma viagem à Crimeia) foi o que levou Óssip Mandelstam,
um dos maiores poetas russos do século 20, a escrever sua sentença de morte:
um epigrama contra Stálin. O escritor foi denunciado depois de ler o poema
para um círculo restrito de amigos. Preso pela primeira vez em 1934, morreu
num campo de trabalhos forçados, no extremo leste da Rússia, quatro anos
depois. A morte do poeta é o tema do romance *"De Mandelstam para Stálin"
[trad. Mauro Gama, Record, 378 págs., R$ 52,90]*, escrito pelo americano
Robert Littel, autor de best-sellers de espionagem e pai de Jonathan Littel,
vencedor do prêmio francês de literatura Goncourt, em 2006, com "As
Benevolentes" (trad. André Telles, Alfaguara).
"De Mandelstam para Stálin" faz a dramatização desse quadro tão romanesco
que foi o terror soviético, tentando reencenar pela ficção o que ninguém viu
e o que nenhum historiador jamais poderá desencavar de nenhum arquivo.
Littel imagina o triângulo amoroso entre o poeta, a mulher Nadedja e uma
jovem atriz; a reunião na casa de Górki, com a presença de Stálin, em que
são lançados os preceitos do realismo socialista; as catacumbas da sede da
polícia política no centro de Moscou e o calvário de Mandelstam entre a
primeira prisão, os interrogatórios, a tortura, o exílio, o campo de
trabalhos forçados e a morte.
Littel conhece bem o mundo soviético. O romance tem altos e baixos (é
infeliz, por exemplo, a referência aos traumas de infância de Stálin como
esboço de uma possível explicação psicológica para a personalidade do
monstro), mas faz o leitor compreender, talvez com mais agudeza do que
permite supor o heroísmo ambivalente de Simonov, a perversão psicológica
perpetrada pelo terror e pela paranoia stalinista sobre a personalidade dos
indivíduos.
* DOUTRINAÇÃO*
A figura do delator parece natural num universo onde a crença no regime,
incutida em todos por meio de uma doutrinação obstinada, acaba por lhes
fazer ver um Estado onipotente e onisciente, impedindo que enxerguem
qualquer coisa além dele. O Estado stalinista só sobrevive porque as pessoas
não cometem os crimes de que são acusadas. Todos se submetem por
antecipação, porque é impossível não se submeter alguma hora. Todos são
delatores e culpados em potencial. Nessa falta de perspectiva, também parece
natural o suicídio de quem se adianta ao terror (como Mandelstam) para se
livrar dele.
O projeto de Orlando Figes era pôr o homem comum no centro dessa história.
No romance de Robert Littel, o homem comum está representado por um
levantador de pesos que cai em desgraça por conta de um adesivo da torre
Eiffel colado a uma mala que ele adquire. Os caminhos do levantador de peso
e do poeta vão se cruzar no gulag.
O homem comum também estará representado pela bela imagem dos prisioneiros
que jogam pelas frestas dos vagões que os levam para os campos, depois de
terem sido arrancados de suas famílias, torturados e submetidos em segredo a
encenações judiciais, as cartas que, a depender da solidariedade dos que por
acaso as encontrarem e decidirem pô-las no correio, serão o seu único
testemunho e testamento.
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FG