*A RENÚNCIA DE JÂNIO *

Laerte Braga

Há quarenta e nove anos Jânio Quadros renunciou a presidência da República.
Sete meses após sua posse. Minutos depois da leitura da carta renúncia pelo
presidente do Senado, Auro Soares de Moura Andrade (PSD/SP), já
ex-presidente e ao volante de um DKW da Vemag, Jânio disse a jornalistas que
nunca mais poria os pés em Brasília, “cidade maldita”. Afirmou que iria ser
pedreiro em Cuba.

“Forças ocultas” foi a expressão usada por Jânio Quadros, um mato-grossense
que fez carreira política em São Paulo, para justificar o ato. Em seus sete
meses de governo proibiu brigas de galos, desfile de miss com biquíni e
instituiu o slack como uniforme do funcionalismo público.

Deixou Douglas Dillon secretário do Tesouro dos EUA falando sozinho para
encenar um show de Brasil independente e mandou que cada chefe de repartição
conferisse o ponto de cada funcionário público, aumentando em meia hora o
expediente.

Atribuir a renúncia de Jânio a umas doses a mais é simplificar demais o
fato. As doses a mais faziam parte do dia a dia do presidente e começavam
pela manhã, estendiam-se pela tarde e encerravam-se à noite, já em profunda
embriaguez. Aí ia assistir a faroestes de trás para a frente.

Outro hábito de Jânio eram os famosos bilhetinhos. Enviava-os aos seus
ministros com determinações curtas, tudo com cópia para a imprensa.

Jânio era marqueteiro de si próprio. Um dos grandes demagogos de nossa
história. Construiu a fama de político honesto e deixou um patrimônio objeto
de disputa judicial por seus herdeiros em torno de cem milhões de dólares.
No exterior, lógico.

O ex-presidente acreditava que sua renúncia criaria um clima de comoção
popular e voltaria ao poder nos braços do povo com amplos poderes. Poderes
de ditador. Mas esqueceu de combinar o golpe com seus ministros militares e
seus principais aliados. Pelo contrário, deixou alguns pelo caminho, caso de
Carlos Lacerda.

Na antevéspera da renúncia chamou Lacerda a palácio, a conversa permanece
mais ou menos sigilosa até hoje e ao final o ministro da Justiça, Pedroso
Horta, mandou que as malas de Lacerda fossem postas à porta de saída do
Planalto.

Na noite do dia seguinte Lacerda foi a tevê e em seus costumeiros e
virulentos discursos usou de todo o arsenal de acusações que guardava desde
os tempos de Getúlio Vargas, para ocasiões em que seus interesses eram
contrariados.

No dia 24 de agosto Jânio recebeu em palácio o ministro da Indústria e
Comércio de Cuba, nada mais e nada menos que Ernesto Chê Guevara para
condecorá-lo com a Ordem do Cruzeiro do Sul. O fato indignou a direita
brasileira.

O marechal Lott, adversário de Jânio nas eleições de 1960, passou a campanha
inteira advertindo aos brasileiros que a eleição do ex-governador de São
Paulo levaria o País ao caos, a uma crise institucional, cujas conseqüências
seriam dias sombrios e tenebrosos.

Quase que simultaneamente à renúncia de Jânio, Lott divulgou um manifesto de
apoio à legalidade, vale dizer, a posse do vice-presidente da República João
Goulart.

O golpe que Jânio não combinou com ninguém, aí sim, a “mardita pinga” deve
ter influenciado, começou quando sem maioria no Congresso tentou atrair uma
das principais lideranças do PSD (maior bancada), o ex-presidente Tancredo
Neves, oferecendo-lhe uma embaixada no exterior. A Bolívia foi a “oferta” de
Jânio a Tancredo (o mineiro havia sido derrotado por Magalhães Pinto nas
eleições para o governo de Minas e estava sem mandato). A surpresa veio por
conta da recusa de Tancredo. Simples, respeitosa e direta. “sou de um dos
partidos que fazem oposição ao seu governo, agradeço a lembrança, sinto-me
honrado, mas declino do convite”. Mais ou menos assim.

O peso de Tancredo em setores do pessedismo não era maior, por exemplo, que
o de José Maria de Alckmin, mas sua presença entre os petebistas, partido de
Jango, era respeitada e acatada por setores expressivos daquele partido, o
antigo PTB. A idéia de Jânio era neutralizar o ex-ministro da Justiça de
Vargas, jogá-lo fora da arena política.

Mais à frente incumbiu o vice-presidente João Goulart, com quem vinha tendo
atritos, de missão na China Comunista. O objetivo era o mesmo, afastar Jango
do cenário político nacional, colocá-lo num país objeto de visceral ódio da
maioria dos militares brasileiros, limpar o terreno para o golpe.

Sabia que a primeira conseqüência de sua renúncia seriam as reações de
setores das forças armadas à posse de Jango, incluindo os seus três
ministros militares (Odílio Dennys, Grum Moss e Sílvio Heck – Guerra,
Aeronáutica e Marinha).

O problema Lacerda, na cabeça de Jânio era simples. A vocação golpista do
antigo governador do extinto estado da Guanabara aflorava à sua pele em cada
pronunciamento que fazia. Só não contava com a reação de Carlos Lacerda ao
seu projeto de virar ditador, já que Lacerda alimentava o sonho de suceder a
Jânio. Esse desejo era maior que o desvio golpista. E além do mais Lacerda
enfrentava problemas nos negócios, particularmente o jornal TRIBUNA DA
IMPRENSA, que pretendia transformar em algo semelhante ao que o GLOBO é
hoje.

Porta voz da insensatez e da mentira. O que faz de forma bem sensata, aliás.

Jânio puxou a escada, deixou Lacerda seguro só na brocha.

Cumpriu os protocolos, digamos assim, do dia 25 de agosto, dia do Soldado,
não deu na pinta que o gesto tresloucado viria uma ou duas horas depois,
entregou a renúncia a Pedroso Horta, ministro da Justiça e esse ao
presidente do Senado. A despeito dos apelos de Afonso Arinos, ministro das
Relações Exteriores e que correu a assumir o mandato de senador para tentar
evitar a renúncia, Auro Soares de Moura Andrade leu a carta e aceitou a
renúncia.

Afonso Arinos queria colocar em votação e Auro foi direto depois de ouvir
Tancredo. “A renúncia é um gesto de vontade unilateral, não cabe ser
discutida”.

Na ausência do vice-presidente, João Goulart, em missão na China (o Brasil
não tinha relações diplomáticas com o governo de Pequim e Jânio mandara
Jango para iniciar um diálogo com o governo de Mao Tse Tung e Chou En Lai),
o presidente da Câmara, Ranieri Mazili (PSD/SP) foi empossado no cargo.

Os três ministros militares, de pronto, se colocaram contra a posse de Jango
tachando-o de comunista. Não encontraram apoio nem entre udenistas
históricos caso de Adauto Lúcio Cardoso, nem em boa parte da caserna. Mas
assumiram o controle do Brasil.

A reação veio do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Do antigo
PTB, cunhado de Jango e que começava a despontar como liderança nacional a
partir das ações de seu governo, principalmente na área da educação.

Brizola, com ele e uns poucos secretários e assessores transformou o Palácio
do Piratini em centro da resistência democrática. Criou uma rede de
emissoras de rádio a que chamou de CADEIA DA LEGALIDADE, usada para
denunciar o golpe, defender a posse de Jango, a legalidade democrática.

Ao contrário dos ministros militares encontrou eco em todo o Brasil e em
diferentes forças políticas. Teve o apoio da Brigada Militar do Rio Grande
(PM), o Piratini foi pequeno para abrigar voluntários, muitos chegando de
várias partes do Brasil e em meio a incertezas recebeu o apoio do comandante
do III Exército, general Machado Lopes.

Lott que conclamara através de um manifesto a defesa da legalidade fora
preso pelos golpistas, isso no Rio de Janeiro onde se encontrava. O marechal
Nilo Sucupira foi o encarregado de prender o marechal.

Jango, estava em meio a um périplo para voltar da China ao sabor dos fatos
que aconteciam no Brasil. Encarregou Tancredo Neves de negociar em seu nome.
Um acordo feito com os golpistas em torno da emenda parlamentarista de Raul
Pila (Partido Libertador, RS), pôs fim à crise.

Brizola aceitou a solução negociada, mas declarou-se contrário ao que chamou
de “expediente golpista”. Tancredo Neves foi o primeiro-ministro indicado
por Jango e Ernesto Geisel o porta-voz do vice-presidente, agora presidente,
junto aos ministros militares do ex Jânio Quadros.

E se não me falha a memória, Jânio Quadros e suas esquisitices deliberadas,
propositais, embarcou para a Europa num navio cargueiro, me parece que o
Uruguai Star. Nos momentos seguintes à sua renúncia, na base aérea de
Cumbica, em São Paulo, ao saber que o fato estava consumado, teve uma forte
crise de choro.

O golpe falhara.

Um ano depois tentaria voltar ao governo de São Paulo. Foi derrotado por
Ademar de Barros (a quem havia vencido em 1954). O governador Carvalho
Pinto, oriundo do chamado janismo não absorvera a renúncia do seu antigo
líder e um terceiro candidato, José Bonifácio, dividiu o eleitorado janista.
Àquela época não havia segundo turno, uma eleição para governos estaduais ou
presidente da República era decidida por maioria simples.

A renúncia de Jânio escancarou mais ainda as portas para o golpe real.

O outro golpe, o de 1964, começou em 1950, na segunda derrota do brigadeiro
Eduardo Gomes (UDN). A primeira para o marechal Dutra e a segunda para
Getúlio Vargas. Quase se materializou em 1954 no manifesto dos coronéis
contra a presença de Jango no Ministério do Trabalho (Getúlio havia dobrado
o valor do salário mínimo e nem as elites e nem militares subordinados a
elas aceitaram a medida) e da crise provocada pelo assassinato do major
Rubens Florentino Vaz, que na verdade foi um atentado contra Carlos Lacerda,
deputado e principal líder da oposição a Getúlio.

Um inquérito que mostrou membros da guarda pessoal de Vargas envolvidos no
crime deu ensejo a que militares da Aeronáutica, na chamada REPÚBLICA DO
GALEÃO, pregassem abertamente o golpe. O suicídio de Vargas abortou o golpe,
comoveu o país e o vice, o potiguar João Café Filho, ligado a Ademar de
Barros, assumiu o governo. De cara deixou Ademar e migrou para o udenismo.

A eleição de JK por pouco não foi para o brejo na tentativa golpista
abortada pelo marechal Lott, ministro da Guerra (hoje, Secretaria do
Exército). Em 11 de novembro de 1955 e no governo de Juscelino, duas
revoltas localizadas e levadas à frente por setores da Aeronáutica
fracassaram.

Nada do que Lott dissera que aconteceria ao Brasil na hipótese da eleição de
Jânio deixou de acontecer. Em 1º de abril de 1964 militares de
extrema-direita, subordinados aos Estados Unidos e comandados pelo general
norte-americano Vernon Walthers, derrubaram Goulart, assumiram o governo e
até 1984 produziram o pior filme de terror de nossa história, real e
sofrido.

A última cena ainda não foi protagonizada. A punição dos responsáveis pelo
período de barbárie. Se auto anistiaram. É uma espécie de the end necessário
para cicatrizar feridas abertas pela barbárie dos DOI/CODI e das OPERAÇÕES
CONDOR.

Jânio conseguiu voltar à Prefeitura de São Paulo, em 1965, derrotando
Fernando Henrique Cardoso.

No dia da sua posse pendurou um par de chuteiras à porta do seu gabinete
anunciando que estava terminando sua carreira.

E ainda assim tentou “inovar” para melhorar o trânsito de veículos
automotivos na capital paulista. Queria o patinete a motor.

Sua reputação por pouco não vai abaixo literalmente, quando sua filha quis
denunciá-lo por corrupção, abusos, etc. Foi salvo por Ulisses Guimarães que
preferiu não deixar a história vir a público e segurou Tutu Quadros,
deputada e filha do ex.

Se a ditadura foi uma noite de horror, Jânio foi um drama lamentável com
laivos de loucura consciente, se é que posso escrever assim, estudada,
pensada.

Sanduíche de mortadela e um copo de pinga, os ingredientes preferidos em
suas campanhas políticas, mas de público, de forma ostensiva e visível, para
que todos pensassem que com o boné de motorneiro de bonde, de fato dirigia
um bonde.

Descarrilou. Pior descarrilou o Brasil.

No período da ditadura militar tentou ensaiar algumas declarações contra o
regime militar, acabou inovando, cumpriu a primeira pena de confinamento
desde não sei quando em nossa história. Foi para Corumbá, onde ficou 45 dias
por determinação do marechal Castelo Branco. Sossegou em seguida, foi cuidar
de outro Sossego, esse com letra maiúscula. Uma das marcas mais famosas de
pinga àquele tempo e escreveu uma gramática e uma coleção de história do
Brasil, uma delas em parceria com Afonso Arinos.

Arinos recuperou-se e curou-se da doença, registre-se nos autos a bem da
verdade.

E como dizia Jânio, *“fi-lo porque qui-lo”.*


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FG

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