29/09/2005

No Pasarán!

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa


Estou achando muito curiosa essa reação de certos intelectuais petistas, essa dor de cotovelo, esse amargor ao descobrir que o PT anda despertando ódios. Primeiro foi a professora Marilena Chauí e agora, sexta-feira, 23, o professor Paul Singer. Estão profundamente sentidos e o que é mais deprimente, desorientados por não saberem bem de onde vem o tal ódio. Ela, como já foi reproduzido aqui, por mim mesma (no dia 15 deste mês), chega a dizer que deve ser porque "o PT foi o principal construtor da democracia no Brasil". Ele tem uma explicação para o desabafo de sua companheira de partido, que é muito mais curiosa do que o que foi expressado por ela. Diz Singer em seu artigo publicado na Folha de São Paulo: "A frase tocou num ponto sensível dos que diariamente nos lincham pela imprensa, pois vários jornais chegaram a responder a Marilena em editorial. Discutir, como vários fizeram, se o PT foi ou não o principal construtor da democracia é completamente ocioso. Basta que inimigos da democracia ou desta democracia que hoje temos acreditem que o PT é o principal responsável por ela para que odeiem o partido e aproveitem o ensejo para dar livre curso a sua sanha".

 

Bem, ele acha que é completamente ocioso discutir se o PT foi ou não "o principal construtor da democracia". Discordo. Não é ocioso por não ser verdadeiro.  O PT foi um dos tantos que, ao longo de muitos e muitos anos, lutaram para o Brasil se tornar uma democracia. Depois afirma que "os inimigos da democracia ou desta democracia que hoje temos" odeiam o partido, por acreditarem que o PT é o principal responsável por ela. Parece-me, aliás, que seria deveras instrutivo saber o que melhor caracterizaria, no entender de Singer, "esta democracia que hoje temos". Seria a política econômica concentradora de renda? Ou o arcabouço político-institucional, de todo favorável ao poder da plutocracia, que faculta à sociedade o peculiar direito de 'optar' por partidos rigorosamente idênticos em termos substantivos? 

 

O PT foi apanhado com a boca na botija e, o que é mais curioso, quem o entregou foi um ´deputado-companheiro-cheque em branco`, pouco recomendado como exemplo de retidão. Mas não fosse o Roberto Jefferson, os Delúbios e Companhia Ilimitada continuariam a pintar e a bordar. A ele devemos a descoberta de uma turma funesta. A qual não aconteceu nada. Ninguém foi ao menos expulso do partido: foram apenas afastados ou se afastaram. Nenhuma punição, nada, apesar das confissões de corrupção ativa e passiva.

 

O deputado José Dirceu foi o único que recebeu uma punição, embora negue ter sido esse o caso. Mas não consigo crer que ele tenha se afastado do cargo de Ministro Chefe da Casa Civil da Presidência da República, por estar cansado do poder ou por estar com saudades da planície. Tem se dedicado a salvar seu mandato com um denodo típico de sua personalidade. Mas quando se defende, ele é curioso: "não há provas contra mim". Repete muito essa frase. Não há provas...

 

O PT se descaracterizou inteiramente. Afastou-se da linha que o criou. Isso mais do que justifica o desamor de alguns petistas e o afastamento de muitos militantes. Homens como Plínio de Arruda Sampaio ou Hélio Bicudo desligaram-se do PT. O mesmo fizeram alguns deputados, como Chico Alencar e Maninha. Será que vão insistir na teoria de que essas pessoas se afastaram por influência do linchamento da mídia de direita? Será que não reconhecem o imenso sofrimento pelo qual passaram esses que já saíram e aqueles que vão sair? O incrível não é a saída desses militantes, o extraordinário é a massa que compareceu para votar nas eleições para a presidência do PT. Outro espanto foi a vitória do deputado Aldo Rebelo, o que dá ao governo a ilusão de um futuro brilhante. Mas é preciso que eles levem em conta que a vitória do alagoano Rebelo foi conseguida às custas dos partidos pequenos, de alguns dos chamados 3 porquinhos, o que não dá base sólida ao governo.

 

Falam em refundar o Partido dos Trabalhadores. Mas refundar sem expulsar os membros da antiga diretoria que manipulou uma imensa fortuna, não se esforçar em descobrir e confessar de onde veio esse dinheiro e para onde foi, querer que os brasileiros aceitem a teoria do caixa dois, como se isso fosse natural e honesto, não é refundar, é maquiar, é tentar enganar os trouxas. Continuam barganhando, fazendo acordos às escondidas, mentindo. E como têm a faca e o queijo na mão, não acreditam no futuro que os espera.

 

No entanto, o desligamento dos petistas Plínio de Arruda Sampaio e Hélio Bicudo, assim como de alguns deputados e muitos militantes anônimos, não pode ser atribuído ao linchamento da imprensa. Nem à direita, apesar da frase indecente, ignóbil, do senador Bornhausen que, a meu ver, só vez botar pilha nova em alguns petistas. Os professores Chauí e Singer emularam a Pasionária, dizendo àqueles que querem acabar com o PT: "No Pasarán!". Espero que tenham razão, pois não creio que interesse ao cenário político brasileiro o desaparecimento do Partido dos Trabalhadores, desde que saneado, higienizado, reformulado, livre dos militantes que não sabem mais o que é certo, o que é errado. 

 

Mas se o PT só fizer um arremedo de renovação e continuar a alegar "não há provas", creio que seu futuro será desolador. Tomo a liberdade de imitar o estilo inigualável do assombroso senador Mão Santa: "Atentai bem, PT! O No Pasarán! será o grito dos eleitores que em 2006 fecharão a porteira para os candidatos petistas".

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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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