Oi

Achei interessante.

-- 
Beijins
Fa
----------------------------------------------------------------
"Marido é igual menstruação: quando chega, incomoda; quando
  atrasa, preocupa."
----------------------------------------------------------------


10.03.06 - BRASIL       

Mídia brasileira: coronelista e severina

Jakson Ferreira de Alencar *

Adital

A grande imprensa brasileira critica com muita propriedade e eloqüência 
tanto o coronelismo do Nordeste como o ex-deputado Severino Cavalcanti. 
Entretanto a mesma imprensa esquece-se de fazer uma autocrítica e de ver 
que ela própria é fortemente coronelista e severina, não na mesma 
amplitude de cidades nordestinas do interior, mas, o que é pior, em 
amplitude nacional. O primeiro sinal disso é que o grosso da imprensa 
nacional, que domina a informação no país, pertence a nove famílias, uma 
versão ampliada das famílias dos coronéis nordestinos. Essa mídia é 
coronelista enquanto usa o poder que tem para influenciar e manipular os 
destinos políticos e econômicos do país, para perpetuar o status quo, 
quando escolhe candidatos e faz tudo o que pode para que a população os 
eleja, um procedimento semelhante ao dos coronéis. E é severina ao fazer 
isso incorporando características que ela própria aponta no Severino 
Cavalcanti, ou seja de forma retrógrada, pouco ou nada esclarecida e 
reflexiva, não republicana e anti-democrática, ultrapassada, que, ao 
invés de favorecer o desenvolvimento do país o atravanca.

Não se faz injustiça ao apontar isso na mídia brasileira, também não é 
exagero; as provas estão nas manchetes e textos que todos os dias ela 
nos apresenta. Exemplos de coronelismo e severinismo midiáticos não 
faltam e alguns se tornaram clássicos, por exemplo, o ocultamento da 
campanha pelas eleições diretas por parte da Globo; a eleição de 
Fernando Collor, em grande parte creditada à Globo, mas na qual toda a 
grande imprensa brasileira embarcou, procurando promover Collor, sem que 
o tal candidato tivesse a consistência, o lastro histórico e político 
que ele dizia e que a imprensa difundia à exaustão. Como diz o escritor 
Rubem Alves, o ser humano tem mania de transformar em verdades idiotices 
que são muito repetidas. E assim a maioria do país acreditou que o 
Collor era o caçador de marajás, o salvador da pátria exatamente como 
foi propalado na mídia. Com isso combateu-se o temido Lula nas eleições 
de 89. Foi uma batalha assumida pela mídia e o grande empresariado 
nacional (ocasião em que se deu um grande impulso ao esquema de caixa 2 
para financiar as campanhas). Se a imprensa fosse menos severina, 
poderia ao menos ter escolhido um candidato mais confiável e consistente 
para evitar a vitória do candidato que ela e a classe econômica que a 
controla temiam.

Deixando esses exemplos clássicos de lado, voltemo-nos para situações 
mais recentes. Depois de tanto receber um tratamento desigual em relação 
a outros candidatos por parte da imprensa e de outros setores da 
sociedade em sucessivas campanhas, o ex-adversário de Collor chegou à 
presidência. Nem todos votaram nele por convicção política. Além dos que 
tinham convicção, parte votou porque achava que ele merecia uma chance 
depois de várias tentativas; parte porque não agüentava mais os que 
estavam no poder e outra parte devido ao marketing político. Mas por 
isso não se pode dizer que a esperança depositada nele não era forte. 
Lula assumiu o poder sendo depositário desse simbolismo e todos 
reconhecem que o fato de um operário chegar à presidência da República é 
um passo notável numa democracia. Ele assumiu o governo procurando ser 
conciliador, mas nem isso nem o simbolismo que o trouxe ao poder foram o 
bastante para evitar a acidez da grande imprensa para com ele e seu 
governo. Isso dava para saltar aos olhos de qualquer leitor ou 
espectador atento desde o começo do governo. Por exemplo, quando a 
política externa do governo Lula realizou a cúpula dos países árabes e 
latino-americanos, a imprensa contrária ao governo taxou-a de idiotice 
completa, que apenas iria provocar a ira dos Estados Unidos, no entanto, 
depois dela as exportações para tais países multiplicou-se em larga 
escala. Em uma edição do Bom Dia Brasil, da TV Globo, a jornalista 
Miriam Leitão dizia que o "governo bate no peito" devido aos recordes de 
exportação, "mas quem exporta são os exportadores", ou seja, na 
concepção que ela passa, o governo de um país não tem papel nenhum em 
agir para melhorar as exportações, isso se deve apenas aos empresários. 
Se isso fosse verdade, os déficits na balança comercial que o Brasil 
sofreu no governo anterior seriam por quê? Será que os empresários não 
estavam querendo ganhar dinheiro? A Veja diz que a política externa do 
governo Lula é o maior fracasso diplomático do país, no entanto, na 
realidade, os números e os fatos dizem o contrário, trata-se, por 
exemplo, do melhor desempenho em exportações do país em todos os tempos, 
em grande parte devido à política externa do governo, isso apenas para 
citar alguns poucos exemplos do que se vê de acidez e manipulações 
contra o atual governo diariamente na mídia.

Certamente as críticas são boas para fazer qualquer governo manter a 
linha e trabalhar para melhorar. O que é questionável é a virulência que 
chega a transformar fatos positivos em negativos ou a abafar os 
positivos e divulgar até à exaustão os negativos. Tudo isso em contraste 
com a grande benevolência para com o governo anterior, não só durante 
todo o governo, mas ainda hoje, quando se enaltece tanto e se dá tanto 
espaço à figura de FHC mesmo quando 70% da população o rejeita, segundo 
pesquisas de opinião. Certamente uma crítica equilibrada ao governo FHC, 
sem a virulência que se vê nas críticas ao governo Lula, teria 
contribuído para um melhor desempenho de seu governo, chamado a atenção 
para pontos fracos, alertando em relação a posturas erradas etc. E com 
isso o Brasil e o próprio FHC, seu partido e seus aliados e também a 
própria mídia teriam ganhado muito; entretanto, a capacidade reflexiva 
dos donos do poder político, econômico e midiático não foi e não é capaz 
de enxergar isso. Um governo como o de FHC, tão hegemônico tanto no 
congresso quanto na mídia "deita-se em berço esplêndido", esconde 
facilmente as mazelas, adia problemas, sente-se pouco instigado a 
melhorar, fica convencido de que não precisa fazer muito esforço para 
conquistar a população, crente de que a mídia sua aliada cuida disso. 
Mas em alguma hora, todos esses problemas estouram, como de fato 
aconteceu, e com isso todos sofrem, o país, os mais pobres e até mesmo a 
própria mídia, até hoje muito endividada desde os tempos de FHC. 
Entretanto, falta sabedoria em tais donos do poder para perceber isso.

Com a crise política que estourou no meio do governo Lula a forma 
desonesta com a qual a mídia o vinha tratando escancarou-se. Se antes já 
se transformava em negativo até o que houvesse de mais positivo, ou se 
retirava do governo qualquer mérito por resultados positivos, com a 
crise apoiada em erros do PT e em fragilidades do governo, isso chegou 
às raias da insanidade, até o ponto em que criminosos condenados e 
presos, ao fazer qualquer denúncia sem provas ganhava imediatamente 
capas de revistas e primeiras páginas de jornais como portadores da mais 
absoluta verdade. Operou-se uma verdadeira caça às bruxas em relação ao 
PT e ao governo, sem contrapontos ou ponderações. Coisas muito mais 
problemáticas em tempos passados, como as privatizações, jamais tiveram 
tratamento igual, por isso muitos cientistas políticos chegaram a falar 
em "golpe branco" contra o governo Lula, o que é uma tese bastante 
plausível.

Há uma disparidade muito grande na cobertura que a mídia faz em relação 
aos dois governos e que isso não é bom para o país e para a evolução de 
sua democracia; é algo de índole coronelista e severina, uma 
ainti-democracia.

Essa disparidade pode ser constatada numericamente comparando-se a 
cobertura no episódio da compra de votos para a reeleição de FHC em 
contraste com o episódio do suposto "mensalão" (ainda não provado) do 
governo Lula. No primeiro, a grande imprensa abafou o quanto pôde, 
embora houvesse provas exatas, no segundo amplificou ao máximo, sem que 
houvesse provas que justificassem tamanha virulência. No caso de FHC a 
revista Veja passou 12 edições (enquanto durava o episódio) sem dar a 
cobertura merecida, já no episódio de Lula ela não só alardeou como deu 
pelo menos umas 15 capas seguidas relativas ao tema, em tom pesado, 
chegando a comparar Lula a Collor, sendo que a conjuntura política era 
completamente diferente ao período do presidente cassado (claramente 
dois pesos duas medidas). Talvez se os fatos ocorridos no tempo de FHC 
tivessem sido melhor apurados, a tão sonhada e propalada reforma 
política já tivesse sido feita e o país não estivesse passando por essa 
nova crise que, entre as sucessivas crises políticas, já é algo 
rotineiro no país. Igual disparidade de tratamento pela mídia acontece 
sistematicamente em todos os níveis de governo no país e em todas as 
campanhas eleitorais, onde se procura massacrar midiaticamente os 
partidos, candidatos e governos identificados com causas de esquerda, 
com os movimentos sociais e que visam a uma melhor distribuição de renda 
no país; por outro lado, a mesma mídia enaltece os políticos mais 
identificados com os ideais da direita e a manutenção da ordem social 
vigente. Isso é totalmente semelhante, na verdade idêntico, ao 
coronelismo e provoca um forte desequilíbrio democrático e não contribui 
para o avanço do país.

O coronelismo e o severinismo político aliados aos seus pares midiáticos 
criam mecanismos para perpetuar a desigualdade social no país, formam 
uma simbiose que dificulta a melhoria política e a distribuição da renda 
nacional. Com isso, todos perdem, inclusive a própria mídia, que perde a 
possibilidade de ter novos leitores e espectadores entre os que não têm 
condições financeiras de assinar revistas e jornais ou de comprar os 
produtos que a TV e o rádio anunciam e poderiam fazê-lo se a renda do 
país fosse melhor distribuída. A mídia perde também credibilidade, 
subestimando a inteligência de seus espectadores, pois o espectador 
esclarecido, ao ver certas manipulações grosseiras que são feitas, fica 
com a impressão de que o jornal ou a revista que assinou, ou o canal de 
TV que está assistindo, estão subestimando sua inteligência, achando-o 
incapaz de perceber esse jogo.

Se um dos fatores principais para o empobrecimento do Nordeste 
brasileiro é o coronelismo e os "políticos severinos", o coronelismo e o 
severinismo midiático fazem o mesmo com o país inteiro: atravancam o seu 
desenvolvimento. Se a mídia assumisse uma melhor cobertura política, 
mais imparcial, mais objetiva, balizada e aprofundada, com certeza 
contribuiria muito para termos um país mais desenvolvido e mais justo. 
Mas infelizmente, por enquanto ela, com raras exceções, não está à 
altura disso, não tem um nível mais elevado do que os muitos maus 
políticos que ocupam o congresso nacional e as cadeiras do poder 
executivo. Ela tem preferido atender aos interesses escusos de 
determinadas linhas político-ideológicas a atender os interesses de toda 
a nação. Falta espírito público à mídia e faltam políticas públicas para 
os meios de comunicação no país, o pior é que à menor tentativa de criar 
essas políticas, os donos do poder midiático reagem ferozmente. 
Portanto, o país não precisa apenas de reforma política, precisa também 
de um reforma da mídia, essa não pode ficar concentrada nas mãos de tão 
poucos, formando um pensamento único e procurando eliminar do jogo 
político por meio de informações distorcidas quem se oponha a isso, da 
mesma forma que os coronéis do Nordeste mandam matar seus adversários. 
Enquanto essas reformas não vêm, é importante que as instituições 
sociais, em particular as escolas, procurem formar pessoas com 
capacidade de leitura crítica tanto da mídia quanto da política e da 
relação entre ambas.

* Jornalista, filósofo e religioso paulino



Retirado de
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?cod=21470&lang=PT


---

Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

Comentários: www.yahoogroups.com/group/goldenlist-L/messages

Newsletter: www.yahoogroups.com/group/goldenlist/messages
 
Yahoo! Groups Links

<*> To visit your group on the web, go to:
    http://groups.yahoo.com/group/goldenlist-L/

<*> To unsubscribe from this group, send an email to:
    [EMAIL PROTECTED]

<*> Your use of Yahoo! Groups is subject to:
    http://docs.yahoo.com/info/terms/
 
no mail with banners

Responder a