Irmãos Wrights vs. Santos-Dumont 
[publicado na Folha, 15 de dezembro de 2003]
[por SALVADOR NOGUEIRA]


Cara ou coroa: Wilbur vence e sobe no aparelho. Além de Orville, dois 
homens são chamados para ajudar a empurrar a máquina e soltar a corda 
que a prendia -- o peso do invento impedia a pronta liberação. Wilbur 
liga o motor.  O aparelho começa a se deslocar pelo trilho, descendo 
uma suave ladeira com inclinação de cerca de nove graus, e Orville 
corre ao lado dele, equilibrando a aeronave pela asa direita. Depois 
de percorrer uns dez metros, ou cerca de três quartos do comprimento 
total dos trilhos, o veículo já prossegue numa velocidade que Orville 
não pode acompanhar. 

"Eu fiquei olhando enquanto a máquina passava pelo fim do trilho. 
(...) A máquina apontou para cima e subiu a uma altura de cerca de 
15 pés [4,6 m] do chão, num ponto na casa dos 60 pés [18,2 m] além do 
fim do trilho. Após perder a maior parte de sua altura, gradualmente 
se afundou no chão, virada para cima em um ângulo de incidência de 
provavelmente 20 graus. A asa esquerda estava mais baixa que a di-
reita, de forma que o pouso a atingiu antes", anotou Orville em seu 
diário, registrando a falha. "O tempo de vôo desde o final do trilho 
foi de 3,5 segundos para uma distância de 105 pés [32 m]." 

Há exatos cem anos, em 14 de dezembro de 1903, terminou em fracasso a 
primeira tentativa dos irmãos Wrights de fazer voar seu aeroplano 
motorizado, o Flyer.  O teste ocorreu na praia de Kitty Hawk, na 
Carolina do Norte (EUA), local cuidadosamente escolhido por seus 
fortes ventos e pela presença de terreno razoavelmente plano e poucos 
obstáculos no solo. 

Três dias e muitos reparos depois, o Flyer foi novamente levado para 
fora do hangar.  Desta vez, caberia a Orville fazer a primeira tenta-
tiva, que se deu às 10h35. A decolagem ocorreu muito mais depressa do 
que no dia 14, auxiliada pelo vento forte. Orville se postou deitado 
sobre a asa inferior (posição normal para a pilotagem do Flyer). Ele 
teve pouco tempo para aprender a pilotar o veículo ao deixar o chão. 
A aeronave oscilou, subiu, desceu, subiu e desceu, até que, ao final 
de longos 12 segundos, um pouso suave concluiu o primeiro vôo de um 
avião. 

Wilbur teve sua chance em seguida, reproduzindo o mesmo resultado sob 
as mesmas condições. O terceiro vôo do dia melhorou o tempo para 15 
segundos.  E a tentativa derradeira, com o sol a pino, durou 57 se-
gundos, quando foi percorrida uma distância de 260 metros. Os irmãos 
sabiam que tinham uma bomba nas mãos e, ao final da noite, dispararam 
um telegrama para o pai, Milton, residente em Dayton, Ohio.  

No centenário da primeira decolagem motorizada, já é mais do que hora 
de parar de tratar os irmãos de Dayton, Ohio, como farsantes que 
apenas diziam ter voado antes de Santos-Dumont.

"Sucesso quatro vôos manhã de quinta todos contra vento de vinte e 
uma milhas iniciados do plano somente com força do motor velocidade 
média pelo ar trinta e uma milhas mais longo 57 segundos informe 
imprensa casa Natal."  Seguindo as instruções dos filhos, Milton 
notificou a imprensa local. Na edição de 18 de dezembro, O "Dayton 
Daily News" relatava com orgulho o feito de Orville e Wilbur.  O 
título da reportagem, hoje, seria ininteligível para a grande maioria 
dos americanos, mas era altamente elogioso: "Rapazes de Dayton emulam 
o Grande Santos-Dumont". 

No Brasil, cem anos depois, todos sabem muito bem a quem o jornal 
estava se referindo. Dirigíveis O curioso é que Alberto Santos-Dumont 
nem trabalhava com a possibilidade de construir veículos mais pesados 
que o ar em 1903.  Seu foco de atuação então eram os balões dirigí-
veis, cuja funcionalidade havia comprovado pela primeira vez dois 
anos antes, vencendo o Prêmio Deutsch, que exigia um vôo controlado 
de St. Cloud até o coração de Paris, um contorno da torre Eiffel e o 
retorno ao ponto de partida, em 30 minutos. 

A circunavegação da torre Eiffel fez com que ele recebesse congra-
tulações de expoentes como os escritores H.G. Wells e Júlio Verne. 
Outros que reconheceram seu talento foram Samuel Langley, diretor da 
Smithsonian Institution, dos EUA, e o inventor Thomas Edison. Santos-
Dumont adquiriu fama mundial e demonstrou a viabilidade da aeronáu-
tica. Como ninguém, popularizou o sonho do vôo e, com isso, ajudou a 
torná-lo realidade. Toda a fama que tem entre os brasileiros é justa. 
Pena que os motivos sejam equivocados. 

Santos-Dumont não é o inventor do avião. E, verdade seja dita, nem 
tampouco o são os irmãos Wrights. Os veículos voadores mais pesados 
que o ar são, como outras tantas maravilhas do mundo moderno (e a 
televisão é o exemplo mais evidente disso), invenções resultantes da 
contribuição de muitas mentes. 

Antes que os Wrights criassem seu Flyer, os construtores de bici-
cletas precisaram aprender tudo que se sabia a respeito do vôo. 
Enviaram uma carta em 30 de maio de 1899 à Smithsonian, pedindo toda 
informação disponível sobre o tema. Lá, Langley trabalhava avidamente 
para desenvolver o primeiro avião, sem sucesso. Após um período de 
estudo intenso, Wilbur e Orville começaram a desenvolver planadores. 
Um de seus contatos mais próximos era Octave Chanute, outro empreen-
dedor interessado no vôo. Solucionaram, com experimentos pioneiros em 
túnel de vento, o problema da sustentação e do controle com veículos 
mais pesados que o ar. 

Aliás, como bem entenderam os irmãos na época, o segredo do sucesso 
de qualquer avião seria a dirigibilidade. Por isso, se preocuparam em 
patentear seu invento assim que atingiram um projeto capaz de dar 
controle total ao piloto, antes mesmo de dar a ele um motor e héli-
ces. A patente primordial dos Wrights, datada de 23 de março de 1903, 
dizia respeito basicamente aos sistemas de manobras de sua máquina 
voadora.  Foi com ela que eles atravancaram enormemente o avanço da 
aviação americana, nos primeiros anos do século 20. 

Embora Santos-Dumont tenha passado a se interessar por vôos do mais-
pesado-que-o-ar após ouvir de Chanute sobre o suposto sucesso dos ir-
mãos de Dayton, pode-se dizer que sua solução para o design do avião 
foi obtida de forma totalmente independente. Com sua menta-lidade 
tipicamente ianque, os Wrights pretendiam vender seus aviões e, en-
quanto não o faziam, hesitavam em realizar demonstrações públicas. 

Quase três anos depois do primeiro vôo motorizado do Flyer, o bra-
sileiro tentaria sua primeira decolagem com o 14-Bis.  Em 7 de se-
tembro de 1906, fez uma tentativa, fracassada, com um motor de 24 
cavalos-vapor. Deu apenas um salto de seis metros, muito embora o 
motor fosse duas vezes mais potente que o do avião dos Wrights em 
1903.  Trocando por outro de 50 cavalos-vapor, em 23 de outubro 
conseguiu fazer um vôo de 61 metros, a uma altura de dois a três 
metros do solo. Finalmente, em 12 de novembro, o 14-Bis fez seu maior 
vôo: 220 metros, com altitude máxima de seis metros. 

Essa decolagem passou à história como o primeiro vôo reconhecido pela 
Federação Aeronáutica Internacional -- um dos argumentos em que se 
apóiam hoje os defensores da primazia de Santos-Dumont com o avião. 
Para eles, o reconhecimento imediato é fator de legitimação. 

"Tenho tentado mostrar que o critério de verdade no início do século 
exigia a demonstração diante de uma comissão e do público, com anún-
cio antecipado. Trata-se de uma forma de autenticação. Relatos tes-
temunhais não tinham peso", diz Henrique Lins de Barros, físico do 
CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas) e estudioso da obra do 
inventor brasileiro.  

Ainda que frágil, o argumento é defensável. Muito mais problemáticos 
são aqueles que se sustentam pela afirmação de que o avião dos 
Wrights dependia intrinsecamente de uma catapulta para a decolagem. 
Esse dispositivo foi introduzido apenas posteriormente, para 
compensar a ausência de ventos que ajudassem o avião a subir. Em 
1903, não houve catapulta. 

Se o vento realmente pudesse ser usado como critério para desquali-
ficar os vôos dos Wrights, o mesmo se poderia dizer do vôo homologado 
de Santos-Dumont em 12 de novembro de 1906. Depois de três tentativas 
frustradas de realizar um vôo com mais de 200 metros (parâmetro ado-
tado para a homologação) no campo de Bagatelle, o brasileiro só 
conseguiu a façanha voando contra o vento e num declive.  Lins de 
Barros, ainda assim, mantém sua posição. "Existem ventos e ventos. É 
impossível realizar uma prova ao ar livre sem vento. Em 12 de 
novembro, o vento era muito fraco -- segundo a ata, uma brisa --, e o 
declive, muito pequeno. Isso é bem diferente de um vento de 21 milhas 
por hora, que dá algo como 33 km/h. Com esse vento uma asa delta, por 
exemplo, levanta vôo sem precisar correr na rampa." 

Apesar de invalidar a decolagem auxiliada pelo vento feita pelos 
irmãos americanos, Lins de Barros reconhece que os aviões comerciais 
fazem isso o tempo todo e defende que o mito da catapulta suma do 
mapa.  "O avião escolhe a melhor posição -- dentro das condições do 
aeroporto -- e decola contra o vento", diz ele. "Ficar falando que os 
Wrights dependiam da catapulta é uma das várias besteiras que devem 
ser abolidas do vocabulário nacional tupiniquim." 

Quando do vôo de Santos-Dumont, os Wrights ainda mantinham segredo 
sobre seus inventos, e o brasileiro foi aclamado no mundo inteiro 
como o inventor do avião. Mas a primazia foi rapidamente transferida 
para os EUA quando Wilbur e Orville fizeram as primeiras demonstra-
ções públicas na Europa, em 1908, voando dezenas de quilômetros, e 
os europeus mal completavam vôos de um quilômetro. 

Embora não tenha homologado os vôos de 1903, a Federação Aeronáutica 
Internacional hoje reconhece os irmãos Wrights como os primeiros 
aviadores.  (Aliás, como poderia a FAI, fundada na França em 1905, 
legitimar um vôo de 1903, mesmo que fosse mais que comprovado?)

Evidentemente, o avião não terminou de ser inventado em 1903.  Um 
processo de longos anos levou às configurações modernas da máquina 
voadora. A configuração "canard", com leme à frente, foi adotada 
tanto no Flyer quanto no 14-Bis, mas logo rejeitada. Os "ailerons", 
pequenas partes móveis que servem como miniasas para controlar o 
movimento no ar, foram introduzidos só com Santos-Dumont, mas estavam 
ausentes no Flyer. Em vez disso, os irmãos adotaram um desenho de 
encurvamento das asas ("wing warping") para alterar o curso da 
aeronave, num desenho reconhecidamente bem menos eficiente. 

Renegar a importância dos irmãos Wrights na aviação é como questionar 
o papel de Santos-Dumont na divulgação do vôo (tanto de dirigíveis 
como de aviões). Com o centenário da primeira decolagem motorizada do 
Flyer em dezembro de 2003, já é mais do que hora de parar de tratar a 
dupla de Dayton como farsantes que apenas diziam ter voado antes do 
inventor brasileiro.  
  

[fonte - Folha de São Paulo]

















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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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