As coisas são assim, Fa.
Nós gostamos e houve quem não
gostasse.
Isto é uma questão muito pessoal, eu também não
esperava que fosse achar tão bom mesmo não levando muita fé. Mas o filme é
realmente muito bom. O Ang Lee
mostrou que é um bom diretor e que pode realizar
ainda grandes obras.
Quem não gostou tem a sua razão e um enfoque
diferente. Tudo bem. Eu não vou querer que concordem comigo. Cada um na
sua.
Um beijão.
Carlos Antônio.
----- Original Message -----
From: Fatima Conti
Sent: Thursday, March 23, 2006 1:57 AM
Subject: [gl-L] Re: Re: Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis
machos
Oi Carlos
Acabei indo ver o Brokeback hoje.
Achei excelente.
O Ang Lee mereceu mesmo o Oscar. Tomara que tenha muita oportunidades e
grana e nos presenteie com outras obras tão incríveis, né? :)
--
Beijins
Fa
----------------------------------------------------------------
"A lesma é lenta. Ainda bem. Já pensou se esse bicho nojento
corresse?" - Sérgio Maldonado
----------------------------------------------------------------
ccarloss wrote:
>
> Fa, lindinha,
>
> pode ver sim que é muito bom.
>
> Beijão.
>
> Carlos Antônio.
>
>
> ----- Original Message -----
> *From:* Fatima Conti
> *Subject:* [gl-L] Re: Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis machos
>
> Oi Carlos
>
> Boa noite, lindinho :)
>
> Ainda não vi o filme, mas agora fiquei com mais vontade de ver.
>
> --
> Beijins
> Fa
> ----------------------------------------------------------------
> "Os homens mais paquerados pelas mulheres são os cafajestes e os bichas."
> ----------------------------------------------------------------
>
> ccarloss wrote:
> > Fa,
> >
> > Eu já lera essa crônica do Jabor. E concordo com ele (coisa difícil de
> > acontecer).
> > E o Millôr que eu gosto pacas comete uma veadagem em dizer que quem
> > escreve veado é viado.
> > Viado não existe. Tentaram uma explicação fajuta que seria uma derivação
> > de transviado, mas não colou. Primeiro porque os transviados eram sempre
> > machos. E depois porque nada justificaria tal corruptela da palavra e
> > nem etmologicamente haveria embasamento algum.
> > Mas o filme é realmente bom e veadagem é achar que não pode haver este
> > tipo de sentimento.
> > Tanto entre dois homens como entre duas mulheres.
> > E não há frescuras e nem chiliques de bichas loucas no filme. Acho que
> > cada um deve assumir o que é e dane-se o resto. Se os dois se gostavam
> > problema deles.
> >
> >
> > Um beijão.
> >
> > Carlos Antônio.
> >
> > ----- Original Message -----
> > *From:* Fatima Conti
> > *Subject:* [gl-L] Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis machos
> >
> >
> > Oi
> >
> > Você viu?
> >
> > --
> > Beijins
> > Fa
> > ----------------------------------------------------------------
> > "Se homem fosse dinheiro, todas as notas seriam falsas."
> > ----------------------------------------------------------------
> >
> >
> > Arnaldo Jabor - É um filme sobre heróis machos
> >
> > [07 Março 02h21min 2006]
> >
> >
> > Eu não queria ver o filme O Segredo de Brokeback Mountain. Não queria.
> > Ver filme de viados, eu? (Escrevo viado porque, como disse Millor, quem
> > escreve veado é viado). Muito bem; eu resistia à idéia, mais ou menos
> > como o Larry David (o roteirista de Seinfeld) disse, num artigo
> > engraçadíssimo, que tinha medo de virar gay se ficasse emocionado.
> >
> > O viado sempre encarnou a ambigüidade de nossos sentimentos. Claro que,
> > hoje, os civilizados todos dizem que ''tudo bem, que são contra a
> > homofobia'' e todo o bullshit costumeiro. Eu mesmo já fiz filmes em que
> > viados são protagonistas, em que o ator principal escolhe a
> > homossexualidade no final (Toda Nudez Será Castigada), já filmei
> > travesti em Eu te Amo e em Eu Sei que Vou te Amar, além da ''biba''
> > louca do O Casamento, em que o grande ator André Valli dá um show
> > inesquecível. Em todos os meus filmes há uma boneca ativa e digna. E, no
> > entanto, eu não queria ver o tal filme do Ang Lee, apelidado pelos
> > machistas finos de ''Chapada dos Viadeiros''.
> >
> > Minhas razões eram mais discretas, intelectuais: ''Ah... porque o Ang
> > Lee é um cineasta mediano, ah... porque será mais um filme politicamente
> > correto, onde o amor de dois cowboys é justificado romanticamente... Vou
> > fazer o que no cinema? Ver mais um panfletinho que ensina que os gays
> > devem ser compreendidos em seu 'desvio'? Não. Não vou'', pensei.
> >
> > Aliás, eu sou do tempo em que os viados apanhavam na cara em plena rua.
> > Havia pouquíssimos gays declarados no Brasil. No Rio, havia o
> > Murilinho... cantor de foxes em boates, havia o Clóvis Bornay e poucos
> > outros... O viado passava na rua sob os rosnados dos boçais prontos para
> > lhes tirar sangue. E no anonimato, enxameavam os pobres ''pederastas'',
> > de terno e gravata, pais de família se esgueirando nas esquinas, nas
> > noites escuras, em busca de satisfação.
> >
> > Mais tarde, com o tempo, surgiram as ''bichas loucas'', que se assumiam
> > com um toque de autoflagelação, de autoderrisão, caricaturas da mãe
> > odiada e amada, que berravam e desfilavam nos carnavais num freje
> > humorístico, que até hoje alimenta nosso show na TV... A bicha virou uma
> > personagem clássica do humor, como os palhaços e os bacalhaus de circo.
> > E tudo bem... são engraçados mesmo.
> >
> > Depois, com os direitos civis dos anos 60, surgiu o gay power, com
> > homossexuais fortes e de bigode, malhados, cheios de orgulho. A viadagem
> > virou um poder político importante, claro, mas até meio sério demais,
> > aspirando a uma ''normalidade'' que contrariava sua ''missão''
> > trangressiva que tanto nos acalmava. Como disse Paulo Francis um dia,
> > sacaneando-os: ''Se esses caras querem todos os direitos e deveres dos
> > caretas como nós, qual é então a vantagem de ser viado?''.
> >
> > Em suma, por mais que ''aceitemos'' os gays, eles sempre foram uma fonte
> > de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade ''clara''.
> > O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a
> > unicidade do desejo. A bicha louca ou o travesti, a biba doida ou o
> > perobo, o boy, o puto, a santa, a tia, a paca, todos eles nos
> > tranqüilizavam com suas caricaturas auto-excludentes. Já o gay sério
> > inquieta. O gay banqueiro, o gay de terno, o gay forte, o gay cowboy é
> > muito próximo de nós, a diferença fica mínima.
> >
> > Por isso, eu não queria ver o tal filme dos cowboys. Como? Cowboy de
> > mãos dadas, dando beijos românticos, com tristes rostos diante do
> > impossível? Não. Eu não. Mas, aí, por falta de programa,
> > ''distraidamente''... (aí, hein, santa?...) fui ver o filme. E meu susto
> > foi bem outro. O filme não me pedia aprovação alguma para a
> > homossexualidade, o filme não demandava minha solidariedade. Não.
> >
> > Trata-se de um filme sobre o império profundo do desejo e não uma
> > narração simpática de um amor ''desviante''. O filme se impõe
> > assustadoramente. Os dois cowboys jovens e fortes se amam com um tesão
> > incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme,
> > hetero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano
> > não agüentava.
> >
> > Nem europeu, que ia ficar filosofando. Brokeback é imperioso, realista,
> > sem frescuras. Eu fiquei chocado dentro do cinema, quando os dois
> > começam a transar subitamente, se beijando na boca com a fome ancestral
> > vinda do fundo do corpo. O filme não demandava a minha compreensão. Eu é
> > que tinha de pedir compreensão aos autores do filme, eu é que tive de me
> > adaptar à enorme coragem da história, do Ang Lee.
> >
> > Eu é que precisava de apoio dentro do cinema, flagrado, ali, desamparado
> > no meu machismo ''tolerante''. Eu é que era o careta, eu é que era o
> > viado no cinema e eles os machos corajosos, se desejando não como
> > pederastas passivos ou ativos, mas como dois homens sólidos, belos e
> > corajosos, entre os quais um desejo milenar explodiu. Não há no filme
> > nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo.
> >
> > Ninguém está ali para curtir uma boa perversão. Não. Trata-se de um
> > filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de um
> > profunda entrega entre dois seres, homos ou heteros. Acaba em tragédia,
> > claro, mas não são ''vítimas da sociedade''. Não. Viveram acima de nós
> > todos porque viveram um amor corajosíssimo e profundo.
> >
> > Há qualquer coisa de épico na história, muito mais que romântica. Há um
> > heroísmo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo na Ilíada, algo
> > desse nível. O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisas
> > assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome que nos
> > move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante,
> > que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de
> > sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas.
> >
> > Merece os Oscars que ganhou. Este filme amplia a visão sobre nossa
> > sexualidade.
> >
> >
> > Publicado originalmente em
> > http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/jabor.asp
> >
> > Recebi de "Silvia"/21
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