Oi

Quem sabe, né?

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Beijins
Fa
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"Era um sujeito realmente distraído: na hora de dormir, beijou
  o relógio, deu corda no gato e enxotou a mulher pela janela."
  - Max Nunes
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Segunda-feira, 27 de março de 2006

Xico Vargas - Um país cafajeste


O choque causado pelo samba da deputada Ângela Guadagnin no plenário da 
Câmara não se deve apenas ao grotesco da cena ou à comemoração pela 
pizza que saía do forno com a absolvição do petista João Magno. Para 
quem esteve distraído esses anos todos, é só olhar no espelho por trás 
dessa patética coreografia. O Brasil que dali emerge tem o retrato de um 
país cafajeste. Esse é o motivo do pasmo e, por triste que seja, não 
chega a ser surpreendente. Ao semear tanta perplexidade a deputada 
talvez tenha prestado um serviço à nação.

Menos de 24 horas depois do balé da deputada o presidente Lula, em mais 
uma etapa de sua campanha ainda-não-sei-se-sou-candidato, revelou que 
pouco se lhe dá se o ministro Palocci maracutou ou deixou de maracutar 
com a quadrilha de Ribeirão Preto. “Vou cuidar dele como de um filho”, 
disse. “Como se fosse pai e mãe dele”, explicou, com a paciência dos 
estadistas. Nada mais claro. É o amor incondicional, como o que 
escraviza mães de traficantes, de assassinos ou dos mais deslavados 
gatunos. Na ótica materna, filhos pairam acima das leis.

Idêntico sentimento impulsiona o acima da lei José Dirceu a pedir no STF 
a anulação de sua cassação. Enxotado da vida pública já foi acolhido num 
moribundo canto de página onde deita regras para os destinos do Brasil. 
Logo, logo estará de volta. Por que não? O Supremo é a mesma corte que 
impediu Francenildo dizer que viu o que viu na colônia de férias da 
República de Ribeirão Preto, em Brasília, mas não chamou ninguém às 
falas quando o governo passou a tesoura na Constituição e jogou o sigilo 
bancário do caseiro no ventilador. Nem a mal-reconhecida paternidade do 
moço escapou. Edificante isso, não? Mas como resolvemos tudo com 
metáforas futebolísticas, vamos dizer que o pobre Francenildo levou 
apenas um tranco.

Pouco importa se a lama já chegou aos joelhos. Interessa-nos que a Bolsa 
suba, para trocarmos de carro, e dólar caia, para comprarmos 
quinquilharias, ou decole, para batermos recordes na exportação. O resto 
é bobagem. Se for falcatrua - e estiver sendo feita hoje - é porque 
sempre se fez neste país. Ou seja: nem a cafajestice nos é novidade. 
Realmente, na terra onde o tesouro do partido do governo tem origem 
obscura, trafega à margem da Receita e vira recurso não-contabilizado 
para comprar deputados pouco há que nos possa surpreender. Talvez apenas 
a inesgotável criatividade de Delúbio Soares. Depois de receber 10 anos 
de salários sem comparecer ao trabalho – uma escola pública – o mago das 
finanças do PT processou o estado por usar num concurso seu prenome como 
exemplo de hipotético mau funcionário. Quer uma grana por danos morais o 
nosso Delúbio.

Mas assistimos a isso tudo com passividade bovina. Somos assim. Adoramos 
a canalha. Idolatramos os cafajestes desde que os vimos no cinema, 
durões, espancando mulheres e acendendo charutos com notas de dólar. 
Fazem grande sucesso na TV os vilões, os ladrões simpáticos, os 
vigaristas. Por isso espalhamos parentes pelas filas nos supermercados, 
para chegar ao caixa antes dos otários. Furamos filas de cinema e 
corremos atrás de bocas-livres. Há quem tenha dinheiro para comprar os 
mais caros ingressos, mas se ponha genuflexo diante de uma credencial 
VIP. Sem contar que, por uma guloseima a mais, somos capazes de entregar 
até nosso lugar no avião a qualquer general que mostre pouco apreço a 
relógios e civis. Nada, para nós, se compara ao espetáculo do poder 
sendo exercido. Mesmo que os intérpretes apenas julguem que o detém.

Foi desse jeito, tentando levar vantagem, que construímos o segundo país 
do mundo no consumo de produtos falsificados. Compramos pirataria pelas 
esquinas. Não faz muito era grande sucesso no Rio de Janeiro a Robauto, 
feira de acessórios surrupiados que funcionava nas manhãs de sábado, 
numa das principais avenidas do subúrbio de Acari. Comprava-se, por 
exemplo, um som numa barraca e, na do lado, contratava-se a instalação. 
Dava gosto de ver. Nunca se soube que vendedores ou fregueses tenham 
sofrido algum tipo de constrangimento. Talvez porque não tenha faltado 
ao empreendimento a proteção de policiais que, ao final do expediente, 
botavam no bolso a sua parte nos negócios. Xerifes da mesma linhagem dos 
que hoje conhecem (e fingem que não) os feirões de drogas existentes na 
parte baixa de qualquer favela carioca, de segunda à sexta-feira, a 
partir das seis da tarde. É o grande varejo de cocaína e maconha da 
cidade. Mostra que os morros consomem drogas cada vez mais e que, se 
depender dos moradores, o tráfico jamais sairá de onde está.

Se pagamos e aceitamos que a polícia seja como é, por que, nos 
espantamos com a patética dança de Ângela Guadagnin? As aberrações em 
ambos não surgiram agora. A deputada exibe há anos o instrumento que 
prefere na banda. Ou não foi ela, quando prefeita, que demitiu o 
secretário que denunciou uma roubalheira petista? Não foi ela na CPI que 
tentou retardar ao máximo todas as conclusões, com intermináveis pedidos 
de vista para cada relatório? Ora, quando viu ser absolvido o amigo - 
que tinha o pescoço na lâmina só por ter posto a mão em R$ 420 mil do 
valerioduto - queriam que a deputada fizesse o quê? Caísse em prantos? 
Nada disso, mandou a compostura às favas. Como sempre se fez neste país, 
diria o presidente.

Por que não nos espantamos antes com o elástico conceito de moralidade 
de Guadagnin? Ninguém estranhou quando ela empregou na defesa dos 
correntistas do valerioduto veemência idêntica à que aplica para 
condenar as mulheres da campanha pela descriminalização do aborto. 
Interromper a gravidez de feto sem cérebro não pode. É a lei de Deus, 
diz a deputada em defesa da moral cristã. Até aí, tudo bem, cada um que 
defenda o que lhe é caro. Estranho, porém, que a métrica dessa retidão 
religiosa não se aplique aos que enfiam a mão na bufunfa. Deve ser 
porque o caixa 2 não é tão antigo a ponto de alcançar os textos do Livro 
Sagrado.

Por que o Brasil se espanta que Ângela Guadagnin tenha pisoteado o 
decoro e, na mesma semana, passa batido pelo escândalo das 10 mil obras 
dos governos Garotinho? No país que criou um Conselho de 
Auto-regulamentação Publicitária aceita-se que o casal nos enfie pelos 
olhos e ouvidos, em vários estados, uma aberração que arrola tratamentos 
dentários entre obras civis, multiplica praças e quadras de esporte, e 
vende favelas como programas habitacionais. Por que isso já não nos 
surpreende? Certamente porque, nos últimos anos, os Garotinho testaram 
todos os limites, da mentira ao desvio de recursos, e, até agora, só a 
juíza Denise Appolinária tentou deter-lhes a marcha.

Como Guadagnin com sua dança. Experimentou com ela mais um limite da 
tolerância nacional. “Foi um ato espontâneo”, disse a deputada. Pronto, 
está justificado. Afinal, como não admitir que políticos em geral 
embolsem dinheiro público se o país inteiro sabe que a polícia o toma 
diariamente da platéia pelas ruas? E os prefeitos que fazem acordos com 
milícias que controlam favelas? E os juízes que vendem sentenças? E os 
governantes que superfaturam obras e botam no bolso o troco dos remédios 
dos hospitais? Políticos como Ângela Guadagnin, João Magno, Waldemar 
Costa Neto, José Dirceu e tantos outros que se multiplicam no Congresso 
só estão lá porque foram criados a nossa imagem e semelhança. O problema 
não está neles, mas na nossa insistência em construir uma nação 
cafajeste. Quem sabe olhamos com atenção a próxima eleição?



Retirado de
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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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