E os heróis?
por Eduardo Martins Ribeiro em 31 de março de 2006
 
 
A patifaria petista é um assunto tão monótono quanto a defesa do liberalismo
econômico: as coisas, quando óbvias demais, tendem a ficar meio chatas. Não
é preciso mais dizer que o PT é um partido corrupto e imoral, da mesma forma
que não é necessário que se escrevam mais artigos sobre as vantagens do
Estado mínimo. Mas, pelo imenso valor simbólico do caso do sr. Francenildo,
vale a pena dar uma última cuspida na bandeira hipócrita do petismo. 
 
O sr. Francenildo é um pé-rapado. De origem humilde, sem acesso à educação
privada e coisas do tipo, ele pode seguramente representar um arquétipo do
brasileiro de classe baixa: pobre, inculto, condenado para sempre ao
ostracismo econômico e à mendicância obrigatória das esmolas estatais. O sr.
Francenildo é, portanto, a princesa na torre dos cavaleiros esquerdistas. É
missão histórica e absoluta dessas nobres almas resgatar a qualquer custo o
sr. Francenildo de sua condição de prisioneiro da maldade do mundo, da
opressão dos poderosos, da imoralidade capitalista. 
 
Mas, esperem. O sr. Francenildo não é somente um pé-rapado. Ao dar
testemunho das relações de um Ministro de Estado com uns bandidos vulgares
de Ribeirão Preto - aqueles que celebram com prostitutas o bem-sucedido
roubo de dinheiro público -, o sr. Francenildo mostrou ao país que foi uma
criança muitíssimo bem educada no senso do dever para com a verdade, na dose
suficiente de vergonha na cara para não aceitar ser chamado de mentiroso
mesmo que por gente poderosa. E ao afirmar não ser ninguém perto do Ministro
Palocci, o sr. Francenildo o faz com benevolência; no fundo, lá no fundo,
ele sabe ser infinitamente melhor que o ministro. Nada nem ninguém pode
apagar da sua memória o que só ele viu; para o homem decente, nem todo o
dinheiro do mundo vale uma degradação tão baixa. 
 
Com um currículo desses, quem em sã consciência condenaria o sr.
Francenildo? Se a elite brasileira ainda não tivesse perdido a decência, o
sr. Francenildo seria celebrado como herói nacional; ele daria entrevistas,
seu nome seria mencionado nas escolas, receberia condecorações oficiais e
seria saudado por todas as pessoas de bem. Mas, no reinado da moralidade
petista, o que o sr. Francenildo recebe em troca de sua coragem? O Supremo
Tribunal Federal proíbe o seu testemunho, seu sigilo bancário é ilegal e
brutalmente quebrado, a Polícia Federal devassa sua intimidade, provas
contra a sua idoneidade são grosseiramente forjadas, calúnias são levadas a
público por uma revista de circulação nacional, ao mesmo tempo em que o
denunciado, sem ao menos dar-se ao trabalho de uma satisfação à sociedade
que o sustenta, deixa o Ministério da Fazenda sob aplausos de analistas como
tendo feito um excelente trabalho. Para a esmagadora maioria dos formadores
de opinião brasileiros, seguir
 a cartilha do neoliberalismo globalista é tarefa que requer talento, muita
coragem e quem sabe até mesmo uns toques de genialidade, ao passo que
utilizar o poder do Estado para esmagar o sr. Francenildo como um rato, bem,
isso não é motivo para exigir que Antonio Palloci seja preso, julgado e
condenado. Para esses mongolóides, Palocci é o melhor aluno da classe, o
menino sempre comportado que, por mera traquinagem, pôs uma tachinha para o
Francenildo sentar. Para casos assim, basta colocar o menino levado para
pensar no cantinho. 
 
Nesse enredo fantástico, onde estão os defensores dos oprimidos, os
cavaleiros da justiça e da bondade? Ao que parece, eles estão ocupados
demais tentando destruir a vida do sr. Francenildo e a mãe deste último, com
instinto maternal infalível, implora ao presidente Lula que não machuquem
seu filho, coisa que, convenhamos, não é de todo despropositada. Naquele
breve depoimento, na frente de deputados e senadores, aquele pobre diabo deu
ao país uma lição de coragem que não deveria jamais ser esquecida. Mas o
Brasil parece prestar atenção sempre mais nos bandidos: os nossos heróis,
quando aparecem, são rapidamente esquecidos. Afinal, vai que a moda pega.
 

O autor é advogado.

                
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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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