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Eu nem falo nada!
Carlos Antônio.

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Se bobearmos os homens
vão mandar a gente pelo espaço.
Graça. São Paulo, sexta-feira, 31 de março de 2006
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TENDÊNCIAS/DEBATES
Um passeio de
10 milhões de dólares
RONALDO ROGÉRIO DE FREITAS MOURÃO
Como um dos parceiros
no projeto de construção da ISS (Estação Espacial Internacional), o Brasil
assumiu o compromisso de construir algumas peças -ao custo de US$ 120
milhões. Além de dar treinamento, a Nasa se encarregaria de enviar Marcos
Cesar Pontes ao espaço; tudo sem custo adicional.
Sob o ponto de vista político, a Missão Centenário só terá
repercussão no Brasil nas classes menos esclarecidas
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Entretanto, o Brasil não tem honrado o
compromisso de arcar com os custos das peças, enquanto outros países fazem
suas contribuições para a montagem da estação. Em conseqüência, os
astronautas dessas nações têm prioridade para voar, e Pontes acabava sendo
preterido, ficando sempre para o fim da fila. A situação se agravou com o
acidente do Columbia, em 2003, quando a frota norte-americana de veículos
espaciais foi desativada. O transporte para a ISS passou a ser feito
com a espaçonave russa Soyuz. Esta, porém, tem tripulação de só três
astronautas, enquanto a lançadeira comportava sete. A redução do número de
assentos fez com que a fila de espera em que estava Pontes
aumentasse. O vôo de Marcos Pontes (444º astronauta ao espaço) é, na
realidade, uma grande jogada eleitoreira do governo. Ela não irá
contribuir em nada para reafirmar o programa espacial brasileiro. Na
realidade, Pontes poderia ir ao espaço em 2009, de graça, sem pagar os US$
10 milhões, se o Brasil tivesse cumprido o acordo de construir algumas
peças para a ISS. É mais importante cumprir essa tarefa do que enviar um
brasileiro ao espaço, pois ela irá gerar um desenvolvimento tecnológico no
Brasil. Muito mais importante é destinar recursos para tornar realidade
nosso programa espacial. Há mais de 10 anos, o nosso veículo lançador de
satélites, o VLS, está sofrendo uma "sabotagem governamental", pois as
verbas foram reduzidas no fim do governo Sarney, que estabeleceu o acordo
de colaboração espacial durante visita à China. Nosso programa espacial
não será beneficiado com o vôo do astronauta brasileiro. Convém salientar
que as críticas relativas à Missão Centenário não atingem Pontes, que,
competente, vai levar a bom termo as oito experiências programadas. No
entanto, os ganhos científicos serão muito reduzidos. Não são experiências
prioritárias. Elas poderiam ser realizadas em 2009. Sob o ponto de
vista político, a Missão Centenário só terá repercussão no Brasil nas
classes menos esclarecidas. Aliás, a associação do envio do astronauta
brasileiro com o vôo do 14 Bis vai colocar em evidência que o Brasil, em
cem anos, sofreu um grande atraso. Naquela época, fomos os primeiros a
controlar a dirigibilidade dos balões e a levantar vôo com um veículo mais
pesado que o ar, graças à iniciativa de Santos Dumont. No presente, o
governo gasta US$ 10 milhões para colocarmos um astronauta no espaço
-sendo que mais de 30 países já o fizeram-, usando lançadores de outros
países. Talvez seja por causa disso que não existe em relação ao
astronauta o mesmo senso de patriotismo que envolve o feito de Santos
Dumont. Na realidade, o que existe é certa euforia, e não patriotismo. É
esse espírito que o governo atual quer captar para a sua
reeleição. Criticar o gasto desnecessário não é falta de patriotismo.
Ao contrário, é um ato de patriotismo -e até mesmo de coragem, durante
determinados regimes. Na verdade, a falta de sensibilidade dos governos em
relação à pesquisa científica e tecnológica no Brasil constitui um ato de
desrespeito dos políticos com o futuro de nossa pátria. A Índia e a
China já têm os seus lançadores há mais de dois decênios. Começaram seus
programas na mesma época que o Brasil. A Índia vem lançando os seus
satélites por meios próprios. A China foi o terceiro país a colocar um
astronauta no espaço com seus lançadores. Não lançou nenhum homem no
espaço com o auxílio de outro país. O importante é que as autoridades
do governo do Brasil compreendam que o programa espacial é fundamental
para a economia (o transporte de satélites é um comércio muito lucrativo)
e para a segurança nacional, assim como para o progresso cientifico e
tecnológico, tendo em vista o seu efeito nas mais diferentes indústrias,
como na eletrônica. O atraso do nosso programa espacial já deveria ter
provocado uma CPI sobre o desenvolvimento científico e tecnológico
brasileiro. Quando a URSS colocou o primeiro satélite artificial em
órbita, houve um questionamento por parte dos políticos norte-americanos
para saber a razão pela qual os EUA não conseguiram fazê-lo com sucesso
antes dos russos. Até o sistema de ensino foi questionado. No Brasil, se
perdermos a Copa do Mundo, será uma verdadeira crise...
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, 70, astrônomo,
doutor pela Universidade de Paris, é criador e primeiro diretor do Museu
de Astronomia e Ciências Afins (RJ). É autor de mais de 70 livros, dentre
os quais "Anuário de Astronomia 2006".
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