O FIM DA VERGONHA
por Alceu Garcia
Estou convencido de que o Estado é, essencialmente, uma quadrilha
de bandidos. É uma conclusão analiticamente demonstrável. É um fato
empiricamente comprovável. É assim em toda parte. Foi assim em todas as
épocas. Nenhuma vilania estatal, portanto, deveria surpreender-me. Mas
eu confesso: estou espantado com a situação atual do país. Nunca se viu
tanta bandalheira, tanta desfaçatez.
Segundo um artigo recente, do antropólogo Roberto DaMatta, o que
está acontecendo relaciona-se com o declínio da culpa e a vergonha. A
culpa, neste contexto, é a consciência de uma conduta imoral ou ilegal,
a admissão de alguém, para si mesmo, que fez algo reprovável. A vergonha
é o sentimento de desonra, perante a comunidade, por ter sido apanhado,
fazendo algo de errado. São dois poderosos fatores de inibição da
prática de condutas anti-sociais. A vida em comunidade é impossível, sem
a culpa e a vergonha.
De modo geral, tendo em vista o crescente relativismo moral
reinante, a culpa, há tempos, deixou de ser obstáculo à perpetração de
ignomínias. O sentimento que ainda mantinha funcionando a sociedade era
a vergonha. Todos têm os seus "esquemas", mas ninguém queria ser
flagrado e passar o vexame de ser censurado, moralmente, diante do
público, mesmo que não sofresse punições concretas. O PT mudou isso,
simplesmente abolindo a vergonha.
A culpa sempre foi um sentimento estranho aos petistas. Mentir,
trair, roubar e matar, em nome da "causa", são atos normais e, até,
meritórios, no universo mental formado no marxismo. Para um petista, não
existe uma ordem moral objetiva. Logo, também não existem atos imorais.
Como não são atormentados pela culpa, eles nunca tiveram vergonha de
fazer, o que quer que fosse, em nome da causa, ou seja, da tomada do
poder político.
Uma vez eleito Lula, a supressão da vergonha, já uma realidade
difusa, em função da hegemonia intelectual do petismo, oficializou-se e
difundiu-se, rapidamente, em todo o organismo estatal. De agora em
diante, a mera aparência de honestidade e decência é desnecessária, uma
relíquia histórica. Se o presidente da república não tem vergonha, de
ser apanhado comprando deputados, favorecendo parentes, fazendo caixa 2,
humilhando um humilde caseiro e absolutamente nada lhe acontece - ao
contrário, sua popularidade se mantém alta -, o que se pode esperar, dos
demais agentes estatais? Os parlamentares do Congresso Nacional perderam
a vergonha de alugar seus votos, no atacado e no varejo. Magistrados dos
mais altos tribunais perderam a vergonha de proferir decisões,
claramente encomendadas pelo PT. O eleitorado de todas as classes
sociais perdeu a vergonha de apoiar um presidente incapaz e corrupto, em
troca das migalhas do bolsa-família, do dólar barato do "bolsa-miami",
dos juros altos para os banqueiros etc.
A extinção da vergonha é uma estratégia de conquista do poder,
pois, ao mesmo tempo em que iguala todas as facções políticas, beneficia
o grupo mais aguerrido e amoral, isto é, o PT. Trata-se de, nada menos
do que uma revolução, que será ratificada em outubro, com a reeleição do
presidente. O país jamais será o mesmo.
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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.
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