http://www.contandohistorias.com.br/shtml/2004341.shtml

Mau humor

Lula Vieira - publicitário

Não me lembro direito, mas li numa revista, acho que na Carta Capital,
um artigo levantando a hipótese de que todo o cara que tem mania de
fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato. Num
outro artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um
restaurante de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho.
Joaquim Ferreira dos Santos, em "O Globo" de domingo, fala do seu
profundo preconceito com quem usa "agregar valor". Eu posso jurar que
toda mulher que anda permanentemente com uma garrafinha de água e fica
mamando de segundo em segundo é uma chata. São preconceitos, eu sei.
Mas cada vez mais a vida está confirmando estas conclusões.

Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é
usar o paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que
pareça, não consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora
todo cara que eu me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre
os ombros é muito babaca.

Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum
natureba radical que tenha conversa agradável? O sujeito ou sujeita
que adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à
simples menção da palavra "carne", fica falando o tempo todo em vida
saudável é seu ideal como companhia numa madrugada? Sei lá, não sei.
Não consigo me lembrar de ninguém assim que tenha me despertado muita
paixão.

Eu ando detestando certos vícios de linguagem, do tipo "chegar junto",
"superar limites", essas bobagens que lembram papo de concorrente a
big brother. Mais uma vez, repito: acho puro preconceito,
idiossincrasia, mas essa rotulagem imediata é uma mania que a gente
vai adquirindo pela vida e que pode explicar algumas antipatias
gratuitas.

Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito por
quê. Vai ver que transmite algum sintoma de chatice. Tom de voz de
operador de telemarketing lendo o script na tela do computador e
repetindo a cada cinco palavras a expressão "senhoooorrr" me irrita
profundamente.

Se algum dia eu matar alguém, existe imensa possibilidade de ser um
flanelinha. Não posso ver um deles que o sangue sobe à cabeça. Deus
que me perdoe, me livre e me guarde, mas tenho raiva menor do
assaltante do que do cara que fica na frente do meu carro fazendo
gestos desesperados tentando me ajudar em alguma manobra, como se
tivesse comprado a rua e tivesse todo o direito de me cobrar pela
vaga.

Sei que estou ficando velho e ranzinza, mas o que se há de fazer? Não
suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas a
pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos
fechados e tentando receber "energia positiva".

Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem uma
boa e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de
motivação para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do
mês e com a satisfação de trabalhar numa boa empresa.

Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos
percorrendo o país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me
lembra putaria. E para terminar: existe qualquer esperança de
encontrar vida inteligente numa criatura que se despede mandando "um
beijo no coração"?


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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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