Merval Pereira:  Retrocesso político

Mais um "mensaleiro", e desta vez dos grandes, se não na quantia, no 
peso político, foi absolvido pelo plenário da Câmara num misto de 
compadrio e irresponsabilidade que, mais cedo ou mais tarde, se vol-
tará contra a imagem dos políticos, enfraquecendo um dos Poderes da 
República e a democracia brasileira.  O ex-presidente da Câmara João 
Paulo Cunha, que recolheu, tendo como intermediária a própria mulher, 
R$ 50 mil pagos pelo lobista Marcos Valério, se declarou uma pessoa
 "do bem" e encorajou seus pares a não temerem a opinião pública, a 
exemplo do que já fizera, com êxito, o deputado pefelista Roberto 
Brant. 

A tese de que os meios de comunicação não refletem necessariamente a 
opinião média do eleitorado, mas apenas o pensamento das elites bra-
sileiras, transforma os deputados em parceiros do nivelamento por 
baixo de nossa política, e tem o respaldo no comportamento do próprio 
presidente Lula, que se orgulha de ter um canal direto com o povo que 
dispensa a intermediação das elites, políticas ou intelectuais. 

Esse desprezo por intermediações e pela elite do país está espelhado 
no texto que o ministro Tarso Genro distribuiu a militantes petistas, 
no qual destaca como um dos feitos do governo, e que seria alvo dos 
conservadores, a "plebeização do processo democrático no país". 

Como se a defesa da democracia dependesse de uma permanente luta de 
classes, uma disputa entre elite e povo, na qual a elite está sempre 
do lado errado e este governo sempre do lado certo, o do povo. Um dis-
curso diversionista para um dos governos mais conservadores em termos 
econômicos e sociais que o país já teve, e isso num momento da econo-
mia mundial que permitiria um salto à frente no caminho do desenvol-
vimento. 

Nunca as elites financeiras ganharam tanto dinheiro com os juros. E 
os programas sociais de cunho assistencialista permitem que o governo 
garanta sua popularidade nos setores mais pobres e mais excluídos da 
sociedade brasileira, e permitem também que esses "mensaleiros" se 
apeguem à esperança de que o grosso do eleitorado não será atingido 
pelo clamor de seriedade que os meios de comunicação, de maneira 
geral, ecoam. 

A chamada "opinião pública" surgiu no fim do século XVIII, como 
maneira de as elites se contraporem à força do Estado absolutista, e 
a imprensa teve papel fundamental na sua consolidação. Não é à toa, 
portanto, que o surgimento da "opinião pública" está ligado ao sur-
gimento do Estado moderno, e a negação da opinião pública, como virou 
moda no Parlamento e no governo brasileiros, representa a tentativa 
de retroceder na história, de fazer prevalecer o atraso nas relações 
do Congresso com os eleitores. Não é à toa também que esta está sendo 
considerada a pior de todas as legislaturas. 

O deputado João Paulo Cunha, na sua análise histórica sobre o papel 
da imprensa no país, quer também retornar no tempo, quando os jor-
nais, no Brasil e no mundo, existiam para defender interesses dos 
grupos políticos ou familiares aos quais pertenciam.  O que o PT 
sempre criticou e atacou, o uso dos meios de comunicação em apoio a 
um determinado grupo político, João Paulo apontou como uma prática 
que deveria ser retomada, contra a profissionalização, tendência 
dominante. 

Segundo a historiadora Isabel Lustosa, em seu livro "Insultos impres-
sos", os jornais surgidos no Brasil no período de intenso debate po-
lítico que antecedeu a Independência, em 1822, nasciam impulsionados
pelo propósito de preparar o povo para o regime liberal que se inau-
gurava. Para Hipólito da Costa, o primeiro jornalista brasileiro, 
fundador do primeiro jornal brasileiro, o "Correio Braziliense", 
impresso em Londres em 1808, a instrução seria a chave de uma conduta 
racional e asseguraria o bom funcionamento dos governos. 

Todos os jornais se outorgavam a tarefa de educar o povo. Mas o clima 
tenso e apaixonado que caracterizava a vida política se transferiu 
rapidamente para o texto, em que cada jornal defendia seu ponto de 
vista político, a favor ou contra a Independência. No mundo inteiro 
os jornais começaram assim, panfletários, e os brasileiros não foram 
exceção à regra, e só muito recentemente, mais acentuadamente no eixo 
Rio-São Paulo, começaram a se profissionalizar e a dar mais atenção a 
questões éticas na informação. 

A maior influência hoje na imprensa brasileira é a da cultura anglo-
saxônica, e atribui-se a essa influência, especialmente da imprensa 
dos Estados Unidos, distorções da ética jornalística, especialmente a 
glamurização da notícia, a busca do espetáculo para atrair os leito-
res.  O jornalista Alberto Dines, fazendo uma análise sobre essa in-
fluência, lembra os aspectos positivos dela desde que o poeta, polí-
tico e publicista inglês John Milton publicou Areopagítica (1644), 
primeiro documento explícito em favor da liberdade de expressão na 
história da cultura universal, que Hipólito da Costa traduziu numa 
das primeiras edições do "Correio Braziliense". 

Hoje, é dos Estados Unidos que vêm as grandes inovações tecnológicas 
que fundem as mídias e inauguram uma nova era da comunicação, com 
base na internet. Mudou a relação dos donos dos jornais com seus 
próprios jornais. 

Hoje os jornais são empresas e precisam estar mais perto do público 
leitor do que dos governantes para serem bem-sucedidos.  Para tanto, 
publicam textos ou depoimentos com posições antagônicas, privilegiam 
o pluralismo de opiniões entre seus colunistas e colaboradores, dando 
mais opções de informação aos leitores. 

E demarcam mais claramente a sua opinião, tratando que ela não influ-
encie o noticiário, que deve ser o mais imparcial e abrangente pos-
sível.  Os jornais deixaram de ser partidários, sectários, e isso é 
sinal de amadurecimento, político e empresarial. 













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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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