Uma verdadeira lição de vida.

Rafael

05/04/ 2006 - Jornal de Brasília


Ele mora na rua e passou no vestibular

Sérgio Reis é um sobrevivente. Órfão e vivendo de bicos, o rapaz foi
aprovado para o curso de Pedagogia, na UnB.

Ele mora na rua, tem um bueiro como guarda-roupa - na comercial da 302
Sul -, não conhece o pai e perdeu a mãe muito cedo. Já foi pedreiro,
vendedor de cachorro-quente, flanelinha, lavador de carros. E até
"fogueteiro" - garoto que avisa aos traficantes quando a polícia
chega. Mas tantos obstáculos não foram capazes de impedir Sérgio Reis
Ferreira, 27 anos, de lutar por um futuro melhor. Nem pensar. E,
assim, ele conquistou a proeza de ser um dos novos calouros do curso
de Pedagogia da Universidade de Brasília (UnB), no primeiro semestre
letivo de 2006. Mais. Aguarda ser chamado para os concursos da
Infraero e Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb).

A história de Sérgio, conhecido nas ruas como Carioca, é marcada por
fugas, tragédias e remorsos. Mas é marcada, principalmente, por
vitórias, por superação. Quando ele tinha nove anos, foi separado da
mãe, ao lado dos dois irmãos mais novos, na cidade de Iapu (MG).
"Sempre que bebia para suportar o trabalho na lavoura, ela nos
agredia. Uma vez tentou nos queimar com uma panela de água fervendo.
Preocupado, o prefeito nos mandou para um orfanato em Ipatinga (MG)",
lembra.

No orfanato, Sérgio ganhou outra mãe. O carinho pela mulher que
cuidava dele e dos irmãos foi tanto que, quando ela mudou-se para
Duque de Caxias (RJ), ele foi junto. Depois, não teve mais contato com
os irmãos César e Celso, que ficaram no orfanato. Nem tudo foi
felicidade, porém. Sérgio começou a dar trabalho à tutora. Vieram os
castigos. "Ela passou a me bater e eu voltei a fugir, como fazia com
minha mãe legítima. Só que a minha fuga era para o morro", diz.

Foi nesta época, aos 12 anos, que aprendeu o ofício de "fogueteiro"
para servir aos traficantes. Pronto. Não demorou e foi parar na
Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, a temível Febem. O tempo
passou e ele foi mandado para outro orfanato. As escapadas não
pararam. O garoto voltou a morar com a mãe legítima, que se mudara
para Ipatinga, mas o padrasto o impedia de estudar. Foi quando fugiu
para mais longe. Aos 19 anos, veio parar em Brasília pela primeira
vez.

"Queria conhecer o presidente, o Congresso. Cheguei na Rodoferroviária
e, de lá, fui para Taguatinga. Me falaram que ali conseguiria ajuda",
lembra. Sérgio passou a vender cachorro-quente e alugou um quarto nos
fundos de uma agência bancária. Não deu certo. "O quiosque fechou e eu
não tinha condições de me sustentar. Conheci dois moradores de rua e
aprendi a ganhar a vida vigiando carro", diz. Não demorou e Sérgio
voltou para visitar a mãe no interior de Minas.

Ali, recebeu a trágica notícia de que ela havia morrido. A dor e os
problemas não terminariam. Nem mesmo na casa que era sua por direito
ele poderia ficar. O padrasto, que morrera antes da mãe de Sérgio, deu
um jeito de deixar o imóvel para uma filha de outro casamento. Sem
rumo, ele voltou para Brasília. Sem teto, foi morar nas ruas. Mas a
esperança de uma vida melhor não diminuíra.

Mesmo com a vida levada nas ruas, sem emprego, sem teto, esse
sobrevivente não aceita ser chamado de mendigo. "Sempre trabalhei.
Nunca pedi", garante. Com o tempo, decidiu que queria estudar. Iniciou
um curso supletivo, da 5ª série do Ensino Fundamental ao 3º ano do
Ensino Médio, no Cesas, na Asa Sul. "Mas eu queria continuar
estudando. Um dia, na rua, encontrei com o Cristovam Buarque, que era
ministro da Educação, e pedi para ele me ajudar a entrar na UnB. Ele
me disse que nem a filha dele conseguiu. Então, ele citou o cursinho
Alub e comentou que tentaria uma bolsa para mim", afirma.

Mesmo sem resposta do ex-ministro e atual senador, Sérgio decidiu ir
ao pré-vestibular. Após um teste de nivelamento conseguiu a tão
sonhada bolsa de estudos. "Descobri que não sabia nada. O sinal de
adição era uma novidade para mim", brinca. Sérgio conquistou espaço no
cursinho. Ganhou livros, virou monitor e foi parar até em uma turma
avançada.

Na terceira tentativa, após um ano e meio no cursinho, Sérgio Reis
Ferreira viu seu nome na lista dos aprovados. Ele passou pelo sistema
de cotas. E garante que não pára por aí. "Quero fazer Matemática,
também. Um dia, vou democratizar o ensino das ciências exatas. Não
quero que tenham as dificuldades que tive", sonha. Não duvidem. Ele já
provou, após vencer tantas dificuldades, que é capaz de mais uma
proeza.


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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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