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Não sou adepto da tese de que a Varig deve ser salva por
simbolizar o Brasil ou pelos serviços prestados a artistas e
desportistas. Cresci tendo a Varig como referência de maior
companhia aérea nacional e lembro com carinho dos comerciais da
empresa, principalmente de uma série em que os vôos internacionais
eram destacados através de pequenas histórias cantadas. Recordo-me
bem de um que falava da chegada de Cabral ao Brasil e de sua saudade
sem jeito de voltar pra Portugal pela Varig, Varig, Varig. Acredito,
também, que todo brasileiro saiba de cor o jingle da empresa
estrela brasileira no céu azul, iluminando de norte a sul...
Até tenho simpatia pela Varig, mas sob uma perspectiva
histórica é bom lembrar que ela cresceu após o terrível golpe manu
militare sobre a Panair, a maior empresa brasileira até 1964. Os
militares simplesmente cassaram os direitos operacionais da Panair e
transferiram as linhas internacionais para a Varig, que,
imediatamente, passou a operá-las. O telegrama que decretava o fim
da Panair chegou ao então presidente da companhia às 15 horas do dia
10 de fevereiro de 1965 e na noite daquele mesmo dia a Varig
conseguiu a proeza de operar todos os vôos que pertenciam à Panair.
Mas acho que não cabe remoer o passado e sim vislumbrar o
futuro. A Varig deve ser salva por dois motivos fundamentais: um
social e outro geopolítico. O primeiro é que ela emprega onze mil
pessoas que não podem ser jogadas na rua como se isso nada
significasse. Isso é motivo de preocupação para qualquer governo e é
preciso sensibilidade à questão. Não se trata de ser paternalista e
se lançar a salvar uma empresa privada de forma irresponsável, com
sérios prejuízos aos cofres públicos, mas se esforçar por uma
solução responsável, que evite a tragédia social.
É evidente
que a Varig sofre de problemas de má gestão, mas numa hora de crise
o que caracteriza um governo socialmente responsável é analisar a
questão além da ótica puramente negocial. O mercado certamente já
está decretando a morte da Varig, mas o governo não pode compactuar
com isso. É importante destacar que a Varig também é credora do
governo. Decisão judicial lhe garantiu créditos, que se não chegam
ao valor da dívida poderiam possibilitar um acordo para dar fôlego a
uma possível recuperação.
A questão geopolítica está no
aspecto de que a Varig é responsável pela ligação do Brasil com o
mundo. E aí estão incluídas as rotas deficitárias. Pela ótica
puramente de mercado não interessaria a ninguém voar para Angola ou
La Paz. Mas a Varig voa para estes destinos e outros mais,
possibilitando negócios do país com estas nações.
A política
externa brasileira, que vem ampliando seu alcance para novas
fronteiras, como os países árabes, a África e os nossos próprios
vizinhos, exige uma empresa de porte, que arque com certos déficits.
Por isso a quebra da Varig é um problema, sim. Sua sobrevivência
torna-se estratégica para que não se entregue o mercado de vez para
as empresas estrangeiras, sem nenhum compromisso com os interesses
geopolíticos do Brasil.
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