|
CORREIO
BRAZILIENSE
A fonte do caixa 2
Operador do
mercado financeiro escreve dossiê e revela quem e como
foi levantado o dinheiro de oito fundos de pensão para abastecer
a tesouraria clandestina montada pelo PT desde que chegou ao
poder. (Ugo Braga, Enviado especial)
Rio
de Janeiro (RJ) - Em meio ao mar de mentiras em que bóia a
política brasileira, um cidadão chamado Alexandre de Athayde
Francisco, de 58 anos, resolveu contar a verdade. Operador
experiente do mercado financeiro carioca, Athayde afirma conhecer
a fonte do caixa 2 do
PT. Segundo ele, o publicitário Marcos Valério de
Souza, atual maior vilão nacional, cumpre um papel menor na trama
do que lhe é atribuído. O grande escândalo, diz, são os milhões
e milhões de reais tirados do patrimônio de oito fundos de pensão
- Real Grandeza, Refer, Portus, Prece, Nucleos, Previ, Petros e
Funcef - pelo grupo do empresário Haroldo de
Almeida Rego Filho, conhecido no ramo pelo apelido de Pororoca.
Os milhões serviriam a dois senhores: ao enriquecimento pessoal
de uns e ao financiamento eleitoral de outros.
A chave da
arca do tesouro dos fundos de pensão teria sido dada a Rego
Filho pelo atual chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos da
Presidência da República, Luiz
Gushiken, ainda na época em que era ministro da
Secretaria Especial de Comunicação Institucional. Mas não só por
ele. Para fazer Haroldo Pororoca chegar às tesourarias dos
fundos, foi preciso tecer uma delicada rede de influências
políticas, que, segundo o relato, passou pelo
vereador Fernando Gusmão (PCdoB-RJ), pelos deputados Carlos
Santana (PT-RJ) e José Dirceu
(PT-SP) e por dois dirigentes do PT fluminense,
Marcelo Sereno e Manoel
Severino dos
Santos. Sereno foi assessor de Dirceu na Casa Civil.
Santos presidia
a Casa da Moeda
até um mês atrás.
Alexandre Athayde conhece Haroldo Pororoca
há 37 anos. Viu seus filhos crescerem. Trabalhou com ele.
Freqüentou a casa de praia da família em Angra dos Reis.
Vislumbrou a Cidade Maravilhosa de cima, a bordo do Long Ranger preto, prefixo PT-YHA,
helicóptero de US$ 1,2 milhão pertencente a Pororoca. Ganhou
muito dinheiro e viveu feliz até meados de 2003. Nesta época, diz
ter tomado um cano de R$ 2 milhões do antigo parceiro num negócio
com ações da Bombril. Foi quando romperam.
O
dossiê
Há um mês, Alexandre Athayde resolveu que era hora de
revelar o que viu e ouviu nos tempos em que gozou da amizade de
Haroldo Pororoca. Começou a escrever suas memórias em folhas de
papel ofício. Acabou produzindo um documento com 37 páginas, a
maioria delas manuscritas. Há documentos anexados e duas fitas
cassete com conversas entre dirigentes petistas.
Após uma
quinzena de negociação, no dia 3 de setembro, um sábado,
Athayde concordou em entregar o dossiê à reportagem do Correio.
Numa conversa de mais de oito horas em uma churrascaria do
Leblon, explicou pormenores, complementou informações, incluiu
detalhes que faltavam. Ao longo da semana, por
telefone, esclareceu dúvidas e forneceu novos elementos. Lá, os
dados não estão cronologicamente organizados - há coisas de 1985
a 2003.
O esquema
Não há como tirar dinheiro dos
fundos de pensão sem cobertura política. E isso nunca faltou a
Haroldo ou a seus filhos, Murillo e Christian. Murillo é
amigo pessoal do vereador Fernando Gusmão, sucessor do atual
prefeito de Nova Iguaçu, Lindbergh Farias (PT), presidente da UNE
na década de 90. A amizade com um acabou aproximando-o do
outro.
Quando Anthony Garotinho deixou o governo do Rio na
mão de Benedita da Silva para sair candidato à Presidência, em
2002, Haroldo articulou-se com Marcelo Sereno, então secretário
de Estado. Conseguiu emplacar um sobrinho, Carlos Eduardo
Carneiro, na gerência de investimentos da Prece, fundo de pensão
da Cedae, a companhia estadual de água. "Em quatro meses, eles
tiraram R$ 40 milhões de lá", escreveu Athayde em suas memórias.
Daí sua ligação com o futuro assessor especial da Casa
Civil.
"O Haroldo também virou amigo do Gushiken. Soube que o
ministro foi homenageado com uma festa na casa de Angra. Embarcou
no Ranger no heliponto da Lagoa", detalha. "Foi por intermédio
dessa turma que ele botou o pessoal dele nos fundos de pensão no
governo Lula", garante Athayde. De fato, há registros de passagem
de gente ligada às pessoas citadas em vários dos fundos de
pensão listados no dossiê.
Do ponto de vista financeiro, a
coisa era às vezes simples, às vezes sofisticada. Nas simples,
corretoras especialmente selecionadas compravam ativos no mercado
ou em leilões primários realizados pelo Banco Central, que eram
vendidos por preços mais altos aos fundos de pensão. O negócio saía
com desconcertante facilidade porque era orientado, tanto na
ponta compradora quanto na vendedora.
A
descrição dessas operações coincide com a revelada pelo Correio na
edição de 22 de julho passado. Ela
ocorreu no Portus, fundo de pensão dos portuários.
A corretora Cruzeiro do Sul, mencionada por Athayde,
comprou um título
público com gordo
deságio no mercado e o vendeu com ágio ao fundo de
pensão. Só nesse negócio, com um papel de segunda
linha e um fundo pequeno, houve ganho de
R$ 6,5 milhões pelos operadores. A Cruzeiro do Sul jura ter
lucrado apenas R$ 100 mil.
Alexandre Athayde diz ter
presenciado em pelo menos duas ocasiões o contínuo da família
Almeida Rego, de nome Ricardo, portando mochilas com
quantias exorbitantes de dinheiro para serem depositadas numa
conta corrente do BankBoston, registrada em nome de Rogéria Costa
Beber, mulher de Murillo. Na última sexta-feira, o Correio deixou
recado na casa do casal, mas não obteve resposta. Duas horas
depois, Alexandre Athayde disse ter recebido uma ligação de
Murillo ameaçando-o de morte. Nenhum dos outros citados da família
Almeida Rego quis falar.
Cifras são espantosas
As
cifras de que se fala nas conversas são espantosas. A compra de R$
150 milhões em CDBs do Banco Santos
pela Fundação Real Grandeza, orquestrada
pelo então gerente de investimentos Benito Siciliano, homem de
Pororoca, teria vertido de R$ 40 milhões a R$ 70 milhões ao
caixa do grupo.
Tem mais. Alexandre Athayde
denuncia que, avalizado politicamente por Gusmão no PCdoB e pelo
deputado Carlos Santana no PT, Pororoca ou seus
filhos engendraram operações no mercado de índice futuro com
dinheiro da Refer,
fundo de pensão dos
ferroviários. Teriam "remetido" outros tantos
milhões em lucros para corretoras amigas. Isso, depois de
tentarem aprovar a terceirização de uma carteira de R$ 1,4 bilhão
em títulos federais, entesourados na fundação.
"Olha, posso
confirmar pelo menos parte disso: durante um evento no
Riocentro, o Murillo (de Almeida Rego, filho de Haroldo e dono da
Arbor Asset Management) me ofereceu vantagens financeiras se eu
topasse terceirizar a carteira", atesta o
ex-deputado Jorge Moura, presidente da Refer até junho do ano
passado.
Lavanderia
Athayde conta que, uma vez
realizado com as operações financeiras, o lucro era creditado em
nome de laranjas. Um
desses laranjas foi o próprio irmão do denunciante, Guilherme de
Athayde Francisco, cuja boleta da Safic Corretora está anexada ao
dossiê. A Safic era uma microcorretora que funcionava em
São Paulo, pertencia a Haroldo, mas estava no nome de um terceiro
e foi fechada a mando da bolsa, em 2002.
Dos laranjas, o
grupo sacava com cheques endossados e o dinheiro seguia
um caminho bifurcado. Parte engordava a fortuna da família
Almeida Rego - esta era depositada, segundo Alexandre Athayde, na
conta corrente número 21879110, da agência do BankBoston na Rua
Olegário Mariano, Barra da Tijuca. E parte era entregue a Dario
Messer, atualmente foragido no Uruguai, que punha o dinheiro na
mesma lavanderia em que trabalhavam Antônio Oliveira Claramunt,
o Toninho Barcelona, Raul Sraur, Alberto Youssef e Richard
Waterloo, célebre time dos maiores doleiros do
país. (UB) |