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Repassando.
E acrescentando que a
resistência francesa na
WWII foi fundamental para que a
Inglaterra seguras-
se o tranco na
Europa Ocidental até que os Estados
Unidos entrassem na
guerra
Na parte oriental os russos se
encarregaram de
aniquilar os
nazistas.
Carlos Antônio.
Texto de Jô de Carvalho no DIRETO DA REDAÇÃO
O espetacular braço de ferro entre o governo francês e estudantes e
a derrota política do governo, obrigado a retirar o maldito CPE (Contrato
do Primeiro Emprego) e a colocar o rabo entre as pernas, permite uma
interessante leitura sobre o atual modo de governar, pelo menos nos países
industrializados.
Na verdade, é a finança que governa. A retórica
dos dirigentes políticos atuais serve à uma única causa: a tirania do
mercado mundial, empenhada em desmantelar a herança social, econômica e
ética do passado. O primeiro objetivo é pulverizar os mecanismos,
associações e regras que sustentam o tecido social.
Lula é um bom
exemplo de dirigente a rezar por essa cartilha. Chirac, outro. E a lista
poderia ser longa!
Há uma espécie de demissão neste novo gênero de
(des)governo. Prova da demissão do governo Chirac é que, durante a crise
do CPE, não foi nem a Assembléia Nacional nem as instituições legais que
governaram, foi um punhado de adolescentes que decidiu o futuro do
país.
No Brasil, a demissão do governo se traduz pela corrupção e
pelas maracutaias reinantes, mas toleradas, desde que não perturbem a
modernização exercida pela economia de mercado. Ou seja, os políticos
podem se vender e penhorar o governo para quem quiserem contanto que não
provoquem uma elevação do risco-país, o que espantaria os investidores
estrangeiros.
O caso é que tem gente disposta a se bater para
impedir o desmantelamento de certos valores. Ao ver a mobilização dos
manifestantes franceses, a garra com que enfrentaram o governo e
sobretudo, a vitória obtida, me disse : "ah, se os brasileiros fossem
capazes de fazer o mesmo!". Mas depois compreendi porque não é
possível.
O Brasil nunca teve um tecido social sólido e coeso;
nunca atingiu o grau de maturidade institucional que se vê na França ou em
outros países industrializados. Os brasileiros nunca conheceram a
qualidade de um verdadeiro serviço público, nem um sistema de
redistribuição de riquezas e nunca souberam o que é se sentir protegido
por leis sociais abrangentes, claras e respeitadas. O dia em que houver um
pouco mais de decência no sistema de aposentadoria, de saúde, de educação,
de transporte público ou que o desempregado brasileiro tiver direito à um
salário-desemprego correspondente a 57% de seu último salário bruto
durante 24 meses, será o fim da apatia. Aí, sim, vamos ver na Globo o
quebra-quebra na Paulista ocupar o lugar das imagens de Paris.
Tudo
depende do quanto se tem a perder.
Sem desenvolver um verdadeiro
sistema social, o Brasil participa plenamente da lógica de mercado. Ou
seja, está saltando etapas. Mesmo sem fortalecer suas instituições ou
reformar seus sistemas, continua a ir em frente, sempre em busca do "país
do futuro", do dia em que o Brasil se tornará o "grande celeiro do mundo".
Ora, esse "futuro brilhante" já chegou e apenas uns pouco privilegiados
aproveitam
os mesmos de sempre.
A maneira de enfrentar o problema
do desemprego, comum aos dois países que o Atlântico separa, ilustra bem a
diferença. Num, os deserdados do sistema se organizam e vão à luta, no
outro, se conformam e vão dando um jeitinho de continuar levando a
vida.
Como se não bastasse a injustiça que representa o aumento do
desemprego num contexto de riqueza crescente, a tirana mercadologia fala
do desemprego como uma "epidemia", uma "praga". Ora, estamos diante de uma
verdadeira tragédia humana.
Até quando esses homens e esses números
que nos governam vão continuar praticando o downsizing ou o rightsizing ?
até onde as OPAs vão continuar determinando quem terá ou não o que comer
?
A mensagem vinda das ruas de Paris pode ser apenas um prenúncio
do que vem por ai. Lembremo-nos que a França é exportadora de savoir-faire
social. Foi ela que acendeu o estopim em outros dois momentos da História,
a queda da monarquia e a revolta de 68, contaminando e modificando um
mundo muito menos globalizado que o de hoje. Quem sabe ela vai nos mostrar
outra via ?
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