A hipocrisia e o falso puritanismo são dois dos poires males que assolam a humanidade.
 
Carlos Antônio.
 
Sábado, 22 de abril de 2006

no mínimo volta à primeira página Pedro Doria
 
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Idade Média em Marília

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22.04.2006 |  As fotos são amadoras, mal iluminadas, mal enquadradas. O cenário é um quarto de motel do tipo cercado por espelhos – vez por outra um flash estoura e um jato branco de luz mancha a imagem. A moça está com dois rapazes, os três são jovens, os rapazes nunca aparecem juntos com exceção de uma, perante um dos espelhos. Estão sempre nus, às vezes há sexo. No total são 12 imagens que circulam na Internet há quase duas semanas.

A notícia de que a menina era uma das alunas de direito da Fundação Eurípedes, Univem, no interior de São Paulo, espalhou-se na quarta-feira dia 12. Mal as aulas do turno da noite começaram e "a sala da moça foi cercada por estudantes de todos os cursos e as atividades na faculdade ficaram interrompidas", conforme explica o "Diário de Marília". Gritavam, batiam contra a parede, ofendiam, ameaçavam.

Ela só conseguiu deixar o prédio da faculdade, para onde ainda não voltou, quando uma escolta de carros da polícia apareceu. Saiu aos prantos, apavorada. Os policiais tiveram que usar gás pimenta para afastar a turba ensandecida de estudantes.

Nos dias seguintes, e ao longo de todo o feriado da Páscoa, o perfil da moça no Orkut foi soterrado de mensagens, a maioria agressivas, e então ela o retirou do ar. Comunidades foram criadas para divulgar as fotos e comentá-las, em geral sem amizade, e então quando a polícia anunciou que estava recolhendo dados sobre quem participava do esquema de ameaças, foram sendo apagadas.

Na comunidade da Univem, alguns alunos manifestaram arrependimento pela maneira como se portaram, mas também este tópico de discussão já desapareceu – todos têm medo da polícia. Crianças que não assumem responsabilidades; estudantes de Direito.

É uma história típica e, ao mesmo tempo, diferente. Típica porque acontece todo ano igual. Câmeras digitais e Internet fazem um conjunto explosivo. Fotografa-se com muita facilidade e não há o constrangimento de levar a uma loja para revelar e ampliar. Basta ligar ao computador. Então, fotografa-se tudo, inclusive os momentos mais íntimos.

Exatamente porque é muito simples e muito fácil e como já está no computador, dois ou três cliques, coisa de segundos com o mouse, são suficientes para que as imagens sejam distribuídas. Um momento impensado, um porre, alguém que sente à máquina do outro. Arrasta, clica – envia.

As imagens, quando caem na rede, jamais caem pelos homens que nelas aparecem. É sempre a fulana de tal lugar, a beltrana que estuda medicina em tal outro. Que estuda, pois é: são praticamente sempre jovens, têm menos de 25. A ingenuidade da idade faz com que permitam que qualquer um as fotografe. O estigma é todo delas.

Tecnologia elimina privacidade, não há novidade, e meninas jovens vêm se descuidando. As imagens, quando chegam à Internet, jamais desaparecerão. Cópias são feitas e refeitas, disseminadas, estarão sempre no caminho de quem buscar pelo nome num Google.

Tecnologia muda o comportamento e uma de duas coisas acontecerá: ou a nudez e, eventualmente, o sexo ficarão tão comuns e triviais que ninguém vai mais ligar para isso, não causará espanto. Ou então a turma que for convivendo com tecnologias novas vai perdendo o deslumbre das primeiras gerações e ficará esperta mais cedo e mais rápido.

A moça de Marília não teve esta sorte – e o seu caso é um quê diferente dos outros. É diferente porque não é ela apenas nua, nem com o namorado, ela está com dois homens. É particularmente diferente porque seus colegas podem não ter tido a vontade de linchá-la, mas pareceu.

Surtos de puritanismo andam particularmente comuns nos EUA. No Brasil são novidade. "Os tristes fatos ocorridos nesta semana nos mostram que a humanidade ainda precisa (e muito) aprender a exercitar o perdão e a fraternidade", fez publicar nos corredores da Univem seu reitor, o professor Luiz Carlos de Macedo Soares. "Digo que ainda bem que tudo aconteceu aqui, na nossa casa, justamente uma casa que tem na filosofia espírita e nos princípios morais elevados as suas principais bases de sustentação."

Não há qualquer motivo para perdoar a menina de nada – fez o que quis, quando quis, com gente que quis, ninguém tem nada com isso. Mas em princípio o professor está certo: a turba agiu qual bárbara. Puritanismo é sempre machista. Um dos rapazes nas fotos estuda na mesma escola, mas sua sala de aula não foi cercada nem foi preciso polícia para tirá-lo ileso.

Há outro elemento aí que vai além do puritanismo irracional: a falta de noção de direitos e deveres. Algo está acontecendo no Brasil com um naco da juventude de classe média. Há algumas semanas, estudantes da PUC-Rio fecharam as ruas e provocaram um engarrafamento em boa parte da Zona Sul carioca. Não protestavam por causa política ou social nenhuma, coisa que estudante tem a obrigação moral de fazer. Protestavam pelo direito de dar festas no campus até altas horas – a vizinhança andava reclamando.

O que surpreende, no caso dos cariocas que não têm nada de puritanos, é que eles realmente acharam que têm o direito de fechar as ruas pelo direito de dar festas que deixam a vizinhança acordada. As mais básicas normas de convívio social foram de todo ignoradas.

No caso destes do interior de São Paulo, dá-se o mesmo. O gesto elegante de saber das fotos e fingir que de nada sabe, a discrição, passou ao largo. Mais do que informar que sabiam das fotos, precisaram, como animais, saciar algum tipo de sede bárbara. Precisaram bater, gritar, ameaçar.

O mundo, às vezes, parece que continua na Idade Média.
 



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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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