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Idade Média em Marília
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| 22.04.2006 | As fotos são amadoras, mal
iluminadas, mal enquadradas. O cenário é um quarto de motel do tipo
cercado por espelhos vez por outra um flash estoura e um jato branco de
luz mancha a imagem. A moça está com dois rapazes, os três são jovens, os
rapazes nunca aparecem juntos com exceção de uma, perante um dos espelhos.
Estão sempre nus, às vezes há sexo. No total são 12 imagens que circulam
na Internet há quase duas semanas.
A notícia de que a menina era
uma das alunas de direito da Fundação Eurípedes, Univem, no interior de
São Paulo, espalhou-se na quarta-feira dia 12. Mal as aulas do turno da
noite começaram e "a sala da moça foi cercada por estudantes de todos os
cursos e as atividades na faculdade ficaram interrompidas", conforme
explica o "Diário de Marília". Gritavam, batiam contra a parede, ofendiam,
ameaçavam.
Ela só conseguiu deixar o prédio da faculdade, para onde
ainda não voltou, quando uma escolta de carros da polícia apareceu. Saiu
aos prantos, apavorada. Os policiais tiveram que usar gás pimenta para
afastar a turba ensandecida de estudantes.
Nos dias seguintes, e ao
longo de todo o feriado da Páscoa, o perfil da moça no Orkut foi soterrado
de mensagens, a maioria agressivas, e então ela o retirou do ar.
Comunidades foram criadas para divulgar as fotos e comentá-las, em geral
sem amizade, e então quando a polícia anunciou que estava recolhendo dados
sobre quem participava do esquema de ameaças, foram sendo
apagadas.
Na comunidade da Univem, alguns alunos manifestaram
arrependimento pela maneira como se portaram, mas também este tópico de
discussão já desapareceu todos têm medo da polícia. Crianças que não
assumem responsabilidades; estudantes de Direito.
É uma história
típica e, ao mesmo tempo, diferente. Típica porque acontece todo ano
igual. Câmeras digitais e Internet fazem um conjunto explosivo.
Fotografa-se com muita facilidade e não há o constrangimento de levar a
uma loja para revelar e ampliar. Basta ligar ao computador. Então,
fotografa-se tudo, inclusive os momentos mais íntimos.
Exatamente
porque é muito simples e muito fácil e como já está no computador, dois ou
três cliques, coisa de segundos com o mouse, são suficientes para que as
imagens sejam distribuídas. Um momento impensado, um porre, alguém que
sente à máquina do outro. Arrasta, clica envia.
As imagens,
quando caem na rede, jamais caem pelos homens que nelas aparecem. É sempre
a fulana de tal lugar, a beltrana que estuda medicina em tal outro. Que
estuda, pois é: são praticamente sempre jovens, têm menos de 25. A
ingenuidade da idade faz com que permitam que qualquer um as fotografe. O
estigma é todo delas.
Tecnologia elimina privacidade, não há
novidade, e meninas jovens vêm se descuidando. As imagens, quando chegam à
Internet, jamais desaparecerão. Cópias são feitas e refeitas,
disseminadas, estarão sempre no caminho de quem buscar pelo nome num
Google.
Tecnologia muda o comportamento e uma de duas coisas
acontecerá: ou a nudez e, eventualmente, o sexo ficarão tão comuns e
triviais que ninguém vai mais ligar para isso, não causará espanto. Ou
então a turma que for convivendo com tecnologias novas vai perdendo o
deslumbre das primeiras gerações e ficará esperta mais cedo e mais
rápido.
A moça de Marília não teve esta sorte e o seu caso é um
quê diferente dos outros. É diferente porque não é ela apenas nua, nem com
o namorado, ela está com dois homens. É particularmente diferente porque
seus colegas podem não ter tido a vontade de linchá-la, mas
pareceu.
Surtos de puritanismo andam particularmente comuns nos
EUA. No Brasil são novidade. "Os tristes fatos ocorridos nesta semana nos
mostram que a humanidade ainda precisa (e muito) aprender a exercitar o
perdão e a fraternidade", fez publicar nos corredores da Univem seu
reitor, o professor Luiz Carlos de Macedo Soares. "Digo que ainda bem que
tudo aconteceu aqui, na nossa casa, justamente uma casa que tem na
filosofia espírita e nos princípios morais elevados as suas principais
bases de sustentação."
Não há qualquer motivo para perdoar a menina
de nada fez o que quis, quando quis, com gente que quis, ninguém tem
nada com isso. Mas em princípio o professor está certo: a turba agiu qual
bárbara. Puritanismo é sempre machista. Um dos rapazes nas fotos estuda na
mesma escola, mas sua sala de aula não foi cercada nem foi preciso polícia
para tirá-lo ileso.
Há outro elemento aí que vai além do
puritanismo irracional: a falta de noção de direitos e deveres. Algo está
acontecendo no Brasil com um naco da juventude de classe média. Há algumas
semanas, estudantes da PUC-Rio fecharam as ruas e provocaram um
engarrafamento em boa parte da Zona Sul carioca. Não protestavam por causa
política ou social nenhuma, coisa que estudante tem a obrigação moral de
fazer. Protestavam pelo direito de dar festas no campus até altas horas
a vizinhança andava reclamando.
O que surpreende, no caso dos
cariocas que não têm nada de puritanos, é que eles realmente acharam que
têm o direito de fechar as ruas pelo direito de dar festas que deixam a
vizinhança acordada. As mais básicas normas de convívio social foram de
todo ignoradas.
No caso destes do interior de São Paulo, dá-se o
mesmo. O gesto elegante de saber das fotos e fingir que de nada sabe, a
discrição, passou ao largo. Mais do que informar que sabiam das fotos,
precisaram, como animais, saciar algum tipo de sede bárbara. Precisaram
bater, gritar, ameaçar.
O mundo, às vezes, parece que continua na
Idade Média.
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