[por Bruno Garschagen]
Uma pesquisa feita pelos antropólogos Thaddeus Blanchette e Ana
Paula da Silva muda completamente a análise da prostituição no Rio
de Janeiro. Em seu trabalho "Nossa Senhora da Help: sexo, turismo e
deslocamento transnacional em Copacabana", eles derrubam quatro
mitos disseminados pelas autoridades e assimilados pela sociedade.
Segundo o estudo:
O estrangeiro não é o grande vilão na relação com as prostitutas;
A maioria dos turistas estrangeiros que se relaciona sexualmente com
prostitutas brasileiras não é, necessariamente, um turista sexual;
Não há relação necessária entre migração de prostitutas brasileiras
para outros países e o tráfico internacional de mulheres;
A prostituição de menores de idade é muito menor do que se divulga
e as meninas raramente se prostituem nas ruas, como as garotas de
programa.
Durante três anos, Thaddeus e Ana Paula visitaram regularmente a
boate Help, em Copacabana, internacionalmente famosa como o local
ideal para um turista estrangeiro conseguir uma prostituta sem passar
pelo constrangimento e pelos perigos das ruas cariocas. Ou "a Dis-
neylândia brasileira do turismo sexual", segundo a definição de um
turista.
Conversando com clientes e garotas de programa, valendo-se da técnica
antropológica de observação e participação, os antropólogos descobri-
ram que, diferentemente do que se imagina, as prostitutas não são
vítimas nem os "gringos" são seus algozes. "A relação é muito mais
complexa", explica Ana Paula. "As meninas sabem desenvolver estra-
tégias para seduzir um estrangeiro e, com isso, ascender socialmente
ou até conseguir um casamento."
Os dois antropólogos, que são casados, conseguiram se integrar facil-
mente ao ambiente da Help graças aos seus biótipos: Thaddeus é ame-
ricano, louro, de olhos azuis, o protótipo do turista sexual como nos
é apresentado; Ana Paula é carioca e negra, tipo físico de boa parte
das mulheres que ganham a vida em Copacabana. O casal era regular-
mente confundido com estrangeiro e garota de programa. Mesmo quando
diziam serem antropólogos, muitas garotas não acreditavam.
No estudo desenvolvido para o doutorado em Antropologia na Universi-
dade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e publicado na revista "Pagu",
os pesquisadores observam que a escolha dos gringos pelas garotas de
programa é consciente e não tem relação nenhuma com a falta de
informações ou baixa estima. "Num mundo onde o acesso ao exterior é
cada vez mais restrito, especialmente para brasileiras pobres, estes
homens aparecem como meio de abrirem as rotas para a Europa e os
Estados Unidos, onde no imaginário, mas também na experiência de
muitas das meninas as oportunidades existem", escrevem os pesqui-
sadores.
Soraia, prostituta de 25 anos, justifica: "Estou aqui em Copa porque
gringo paga bem melhor pelo programa do que o brasileiro. Gringo tem
coração mole, tem muito dinheiro e te respeita mais que brasileiro."
Cuidado com a sorte
Há outro aspecto, segundo os pesquisadores, que derruba a tese poli-
ticamente correta da prostituta como vítima e do estrangeiro como
vitimizador. Para as garotas de programa, explicam, o sucesso do
casamento com um estrangeiro é importante, mas não encerra a questão.
A relação por si só abre a possibilidade para essas mulheres se muda-
rem legalmente para outros países e, caso o matrimônio não vingue,
possam trabalhar no exterior com uma remuneração muito maior do que
no Brasil. "Longe de ser fruto de um aliciamento estrangeiro, namoros
que resultam em viagens internacionais são cultivados por muitas ga-
rotas de programa em Copacabana, precisamente porque podem eliminar
a necessidade de procurar a ajuda paga de terceiros na imigração
ilegal", diz o estudo.
Há também aquelas mulheres que vêem nos estrangeiros a possibilidade
de deixar a prostituição. Numa atividade profissional de vida útil
relativamente curta, na qual as garotas de programas com trinta anos
já sentem o peso da idade e do desgaste turbinado por longas jornadas
de trabalho e pelo consumo de álcool e drogas, as moças buscam no
casamento uma oportunidade de uma vida estável e normal em outro
país. Conseguem, assim, renascer socialmente e adotar a reputação de
mulher normal. "É uma conduta que derruba a crença de que as
prostitutas não tinham desejos nem agiam de forma consciente para
conquistar parceiros de outras nacionalidades", explica Ana Paula.
A possibilidade e a busca por um casamento com os clientes da Help
são elementos presentes na vida dessas moças. Numa das primeiras
incursões ao banheiro da boate, Ana Paula ouviu a conversa entre
prostitutas que falavam de uma conhecida que havia "conseguido" um
gringo e se mudado para a Europa. Num outro diálogo, verificou do
que as moças são capazes de fazer para fisgar um estrangeiro. Dentro
do banheiro da Help, a prostituta Paula conversa com uma funcionária:
- Você acha que minha barriga já está aparecendo?
- Você está ótima! Nem parece que está grávida.
A antropóloga, então, perguntou se a moça estava realmente grávida:
- Sim. Demorei seis meses para pegar aquele americano, mas finalmente
consegui. Agora estou esperando ele voltar para os Estados Unidos
para eu ir embora junto.
- Mas ele sabe que o filho é dele? Ele vai assumir? - insistiu a
antropóloga.
- Lógico! Ele não é nem besta de não assumir. Estou cuidando muito
bem do meu americanozinho aqui e vou para os Estados Unidos me casar
com o pai dele - respondeu a moça, enquanto a acariciava a barriga.
A camareira, do alto de sua sabedoria marginal, aconselhou, então:
- Cuida mesmo, porque você teve uma sorte de ouro.
Meio fácil e rápido de obter sexo
O segundo mito que os pesquisadores derrubam é o de que o estrangeiro
que se relaciona com uma prostituta é, a priori, um turista sexual.
Não é. O turismo sexual, grosso modo, é colocado pelas autoridades e
por boa parte da imprensa no mesmo caldeirão de iniqüidades de abuso
de menores e tráfico internacional de mulheres. O fenômeno, assim, é
apresentado de forma equivocada, contribuindo para toda a confusão em
torno do tema.
O estrangeiro que se relaciona sexualmente com uma mulher brasileira,
mesmo que não cometa qualquer crime, é acusado indevidamente, segundo
os antropólogos, de violar as leis pátrias que regulam o comporta-
mento sexual, como a pornografia, sedução, estupro, corrupção de
menores, atentado violento ao pudor e tráfico de mulheres.
Apesar de toda a sanha nativa por punição contra turistas vistos nas
praias e nos bares do Rio com prostitutas, a prostituição, em si, não
é crime, segundo o Código Penal brasileiro. Para se configurar turis-
mo sexual, é necessário um requisito importante, mas tão tênue se
analisado com a conduta sexual de um turista "comum", que explica em
parte os equívocos: o sujeito deve necessariamente conduzir suas via-
gens para esse fim e suas ações violarem as leis locais. Uma olhada
nos depoimentos publicados no site World Sex Guide, que reúne tu-
ristas sexuais confessos, batizados de mongers, elucida a questão:
são homens que fazem de suas viagens turnês exclusivamente de concu-
piscência, com o agravante de infringir a lei.
Os antropólogos Thaddeus e Ana Paula aceitam, com reservas, a defi-
nição de turismo sexual elaborada pela Organização Mundial de Tra-
balho: viagens organizadas que utilizam as estruturas da indústria de
turismo com os fins principais de facilitarem o comércio sexual entre
turistas e nativas. Eles acham a definição incompleta por se prender
às práticas e objetivos dos turistas e ignorar se suas ações e dese-
jos são ou não ilegais, se contrariam as normas jurídicas do país.
A análise do problema é reduzida ao comportamento sexual dos gringos
em sua interação com as nativas e não nas complexas relações que
permeiam esses contatos. Dessa forma, segundo os antropólogos, é
dificílimo diferenciar claramente os turistas sexuais dos turistas
tidos como "comuns".
Se o senso comum assimilou com ares de verdade a balela de que todo
turista estrangeiro é, de fato, um turista sexual, a pesquisa de
Thaddeus e Ana Paula derruba essa visão. A maioria dos estrangeiros
encontrados na Help e em outros pontos de prostituição do Rio de
Janeiro é de empresários, executivos, homens de negócios ou
acadêmicos em visita de trabalho à cidade ou de férias. Eles recorrem
às prostitutas por se tratar do meio mais fácil e rápido de obter
sexo. Apenas de 5% a 10% do total de homens que freqüentam a boate se
assumem como turistas sexuais, ou mongers, segundo Thaddeus.
Sem falar português e sem amigos brasileiros, ir a lugares como a
Help é o único meio de um turistas estrangeiro ter acesso às mulheres
brasileiras. Tantos os turistas sexuais como os turistas comuns
concordam que dificilmente um estrangeiro que não fale o português
conseguirá se relacionar sexualmente com uma brasileira que não seja
garota de programa, embora continuem achando todas as cariocas se-
xualmente ativas e sempre disponíveis. "Sem falar bem o português ou
viver na cidade, pode esquecer namorar uma garota normal. O máximo
que vai conseguir é uma garota de programa, a menos que tenha amigos
brasileiros que possam apresentá-lo às mulheres normais", admite o
americano, Mark.
Assim, o jeito é mesmo seguir para Copacabana.
Thaddeus acha uma grande bobagem pensar que o turista, de qualquer
tipo, possa deixar sua libido no país natal e não queira, então,
transar com mulheres nos países que visita. O grande problema, se-
gundo ele, é que qualquer gringo que se envolve sexualmente com uma
mulher nativa, mesmo que a prostituição não seja crime, é visto como
turista sexual que deve ser combatido ou expulso do país. "Se a
prostituição não é crime, por que vira um problema quando envolve um
gringo?"
A questão moral tem um enorme peso na construção do conceito sobre os
estrangeiros que se envolvem com prostitutas. É como se ainda fôssemos
colônia européia e os gringos chegassem ao país para violar nossas
nativas.
Os antropólogos avaliam que "a preocupação com a legalidade das
atividades visadas é menos importante do que o reforço de um código
moral que estipula que os estrangeiros não devem ter contatos sexuais
promíscuos com as nativas". Para resolver a questão, é comum ouvirmos
que basta reprimir a atividade das prostitutas e expulsar os estran-
geiros. Como todo chavão, é ingênuo e ineficaz.
Um exemplo foi a prisão de 110 turistas estrangeiros na madrugada de
31 de março na Praia de Ponta Negra, em Natal, Rio Grande do Norte.
Setenta (!) policiais federais cercaram a boate Hollywood numa ação
que visava combater o turismo sexual. E o que aconteceu? Turistas
portugueses, espanhóis, noruegueses, italianos e franceses foram
detidos por não terem consigo o passaporte. Levados para a superin-
tendência da PF, pagaram uma multa de R$ 165,00 e foram liberados.
Sim, liberados. Não havia crime em freqüentar a boate, a multa foi
por não terem o passaporte em mãos. A prisão causou estardalhaço na
imprensa, declarações de autoridades, entrou para as estatísticas
oficiais, mas, de concreto, não houve nada além de um grupo de
turistas em busca de sexo pago.
Campo de diversões sexuais
Por suas características, a boate Help é evitada por estrangeiros que
moram no Brasil há alguns anos. Claro, já freqüentaram o lugar pelo
menos uma vez, mas, com medo de serem confundidos com turistas
sexuais, só faltam se benzer quando passam por perto ou quando o nome
profano é mencionado numa conversa. Richard, também americano, é
enfático: "Eu não sou que nem esses homens patéticos que devem ser
proibidos de entrar no Brasil; deixam-me com nojo e vergonha e, por
causa deles, quase nunca vou a Copacabana, pois não quero ser confun-
dido com eles. Ademais, não preciso ir, né?"
Esse "não preciso ir", diz o estudo, significa que, depois de apren-
der a língua de Lima Barreto e estabelecer amizades na cidade, o
estrangeiro não precisa mais pagar por sexo. Mesmo assim, os antro-
pólogos notam que esses gringos vêem o Rio de Janeiro "através de uma
lente forjada pelas mesmas predisposições anunciadas por homens
estrangeiros que são identificados (e que se auto-identificam) como
turistas sexuais". Esses tipos concebem a cidade como um lugar sub-
desenvolvido no qual as mulheres precisam se prostituir e onde há em
abundância a acentuada sexualidade brasileira em oposição à do mundo
ocidental, que, para eles, se resume à Europa.
O homem médio, como se vê, é imbecil em qualquer parte do mundo, o
que fez o jornalista e escritor Otto Lara Resende, ao voltar de um
período na Bélgica em 1960, dizer que a Europa era uma burrice apa-
relhada de museus.
A idiotice de muitos gringos não acaba aí. Segundo o estudo, há três
idealizações dos estrangeiros no que diz respeito às relações sexuais
entre gringos e nativos:
As brasileiras são dotadas de uma sexualidade acentuada, que é nata,
e não se sentem culpadas em relação ao sexo, como as "ocidentais"
(para eles, as européias).
- "Como você sabe, as brasileiras não têm medo de sexo..."
- "Fazer sexo é como comer para as brazilianas [sic]. Vão fazer sexo
de qualquer maneira, então, por que não com você?"
- "O Brasil tem uma cultura sexual muito liberal. Já entrou num ônibus
lotado no Rio? Muitas vezes, os brasileiros se esfregam numa menina no
ônibus e os dois acabam num daqueles motéis " (os depoimentos foram
concedidos por estrangeiros, não identificados nominalmente, aos an-
tropólogos em três anos de trabalho na Help. As frases inseridas nos
pontos seguintes são da mesma fonte).
A falsa impressão de que as relações sociais e o papel da mulher na
família são parecidas com as que existiam na Europa no passado.
- "Gosto do Rio, pois aqui as pessoas são como eram antigamente em
nosso país no tempo de meus avós. Aqui, as pessoas pensam na famí-
lia e nos amigos primeiro e no dinheiro só muito depois. Isso foi uma
das razões que acabaram me fazendo casar com uma brasileira: elas
sabem valorizar a família, que não é algo que a maioria de americanas
sabe mais fazer".
- "Aqui as mulheres são como eram na Europa anos atrás: sabem tratar
bem um homem; não competem com ele. Se vou me casar novamente, vai
ser com uma brasileira, pois elas são como as mulheres de
antigamente. Querem uma família, não uma carreira".
- "A cultura americana está passando por algumas modificações e estas
têm mudado as relações entre os homens e as mulheres (...) O ameri-
cano hoje busca uma mulher que não vai competir com ele, mas que vai
complementá-lo (...) A brasileira é bem simples em seus gostos e
desejos e vive mais em função da simplicidade da vida e de sua
família..."
A visão, correta, de uma cidade falida social e economicamente que
não provê adequadamente a maioria de seus habitantes, particularmente
as mulheres.
- "A brasileira quer um americano, pois nós temos mais status e
podemos dar uma vida bem melhor a ela".
- "Existem tantas garotas de programa no Brasil porque, francamente,
o país é um desastre. Os políticos corruptos roubam tudo, não tem
emprego, está todo mundo pobre... gente morrendo de fome... Então, a
maioria das garotas de programa faz o que faz, pois é isso ou a morte.
São mulheres normais que fazem programas porque o Brasil é uma merda".
Essas opiniões revelam, com clareza perturbadora, o grau de ideali-
zação perversa dos estrangeiros sobre o Rio de Janeiro, que, segundo
o estudo, seria um mero "campo de diversões sexuais", onde "as mu-
lheres são por natureza 'bonitas, exóticas' e sexualmente 'ativís-
simas' e os estrangeiros do 'primeiro mundo' são vistos como
extremamente atraentes pelo fato de o Brasil ser um país 'perdedor' e
eles disporem de dinheiro e status". O que é esquisito é que muitos
brasileiros compartilham dessa visão.
Migração versus tráfico
O estudo dos antropólogos mostra que, embora haja uma ponte, não há
uma relação necessária entre migração de prostitutas brasileiras para
outros países e o tráfico internacional de mulheres. Thaddeus diz que
existem casos comprovados, embora sejam poucos, de mulheres trafica-
das entre um grupo de prostitutas recrutado para trabalhar no exte-
rior. "O problema é que isso está sendo apresentado como um fenômeno
rotineiro e não como uma experiência minoritária."
Ana Paula lembra que, nos três anos de pesquisa e centenas de depoi-
mentos colhidos (e reproduzidos nesta reportagem), ela e Thaddeus
constataram que a grande maioria das prostitutas imigra porque quer e
não porque é vítima do tráfico internacional de mulheres. É aí que a
legislação agrava o problema.
O Código Penal brasileiro define como "traficada" qualquer prostituta
que sai do Brasil à procura de trabalho no mercado sexual, mesmo que
por conta própria.
Texto no site do Ministério da Justiça diz: o "que configura o trá-
fico de pessoas é a atitude do aliciador de enganar ou coagir a
vítima, apropriando-se da sua liberdade por dívida ou outro meio,
sempre com propósito de exploração".
A Convenção de Palermo, que se chama "Protocolo para Prevenir, Supri-
mir e Punir o Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças"
(suplemento à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado
Transnacional) e da qual o Brasil faz parte, diz que o tráfico de
seres humanos é o "recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou
recebimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso da força ou outras
formas de coerção, de rapto, de fraude, de engano, do abuso de poder
ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou receber pagamentos
ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle
sobre outra pessoa, para o propósito de exploração", incluídas "a
exploração da prostituição ou outras formas de exploração sexual,
trabalho ou serviços forçados, escravidão ou práticas análogas à
escravidão, servidão ou a remoção de órgãos".
O grande problema da convenção, já apontado pelos antropólogos, é
justamente ignorar a vontade do suposto traficado. O texto diz que "o
consentimento da vítima de tráfico é irrelevante para que uma ação
seja caracterizada como tráfico ou exploração de seres humanos, uma
vez que ele é, geralmente, obtido sob malogro". Se há consentimento,
como pode haver tráfico? O "geralmente" demonstra que isso nem sempre
acontece. Então, se não acontece o "malogro", mesmo assim a ida de
uma prostituta para trabalhar no exterior configura tráfico? Pela
lei, sim, e seja o que Deus quiser.
"As conversas que tivemos com as prostitutas deixaram claro que elas
são contratadas e saem do país sabendo o que vão fazer lá fora. Não
são enganadas, como muita gente acha", afirma Ana Paula. "O que acon-
tece, algumas vezes, é promessas feitas antes da viagem não serem
cumpridas, como valor da remuneração e boas condições de trabalho",
complementa Thaddeus. Os dois lembram que os casos de tráficos de
mulheres e de abusos existem, obviamente, mas são, afirmam, minoria.
Josene, de 40 anos, garota de programa nascida em Niterói, diz que
viaja todos os anos para a Itália no período do inverno, entre de-
zembro e fevereiro. "Sou uma quarentona e os velhinhos de lá gostam
mais de uma mulher da minha idade que os daqui. Tenho um circuito de
clientes velhos que visito e também trabalho como dançarina em bares.
Só volto para a alta temporada daqui do Rio".
A definição equivocada e incompleta da lei gera outro problema: as
falsas denúncias sobre tráfico internacional de mulheres que viram
estatísticas oficiais. Os antropólogos dizem que uma garota de pro-
grama brasileira, ao ser presa em outro país, geralmente, para ser
libertada, diz que foi vítima de tráfico internacional. Eles ouviram
depoimentos de mulheres dizendo que as autoridades de outros países
chegam, em alguns casos, a induzir as falsas denúncias para deportar
essas mulheres, imigrantes indesejadas, sem enfrentar outros proble-
mas legais ou políticos.
Luana, carioca de Duque de Caxias, de 25 anos, é uma das que confir-
mam o ardil usado pelas garotas no exterior: "Quando fiquei presa por
fazer programa na Europa, acha que fiz o quê? Que falei que era puta
e que estava trabalhando ilegalmente? Claro que não! Contamos uma
história triste, do tipo: `Ai, seu guarda, fui convidada pra traba-
lhar como empregada, só que quando cheguei aqui descobri que eles me
enganaram. Roubaram meu passaporte e me forçaram a trabalhar assim.
Não sei o que fazer, pois estou com tanto medo deles. Me ajude, por
favor'".
Thaddeus explica que, ao falarem de tráfico, a prostituta passa a ser
tratada como vítima e não mais como puta. "Ao invés de deportação, são
liberadas da cadeia e repatriadas. Isso gera uma quantidade absurda de
falsas denúncias que entram nas estatísticas oficiais sem representar
de forma correta o problema, mas desvirtuando completamente a infor-
mação".
Ana Paula, que, junto com Thaddeus, Anna Marina Madureira de Pinho
Bárbara Pinheiro e Gabriela Silva Leite produziu um trabalho espe-
cífico sobre tráfico de pessoas, observa que a falsa confissão de
vítima de tráfico permite que os países se livrem e fechem as fron-
teiras para essas mulheres sem criar nenhum problema interno ou
externo.
Em relação aos aspectos legais, a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha,
por exemplo, vai provocar uma situação curiosa. Prostitutas brasi-
leiras que forem trabalhar por conta própria durante o evento podem
ser enquadradas como vítimas de tráfico internacional, mesmo que
tenham ido por conta própria. "Como o governo brasileiro vai lidar
com isso?", provoca Thaddeus.
Dados divulgados pela Alemanha indicam que cerca de 440 mil prosti-
tutas estarão a postos durante o Mundial. O parlamento da União
Européia (EU) chegou a elaborar um estudo com o objetivo de impedir
exageros no mercado sexual entre os meses de junho e julho. O Con-
gresso da UE também cogitou a hipótese de exigir visto de entrada
para pessoas oriundas de países do terceiro mundo, principalmente da
América Latina no período da Copa, mas a proposta foi vetada.
Repúdio à pedofilia
Outro ponto relevante da pesquisa de Thaddeus Blanchette e Ana Paula
da Silva é a constatação de que a prostituição de menores de idade é
muito menor do que divulga a imprensa e alardeiam as autoridades.
Garotas de programa que podem ser claramente identificadas como me-
nores de 18 anos raramente são encontradas nas áreas de turismo de
Copacabana.
Os antropólogos admitem a impossibilidade de saber com certeza, apenas
olhando para as garotas, quem é menor de idade. Geralmente, o que se
faz é mapear o número de meninas por "achismo", ou seja, pela frágil
identificação física. Raramente, diz os estudiosos, a polícia prende
menores de idade se prostituindo nas ruas, pois as boates de Copa-
cabana que recebem estrangeiros conseguem fazer um controle de certa
forma rigoroso nas portarias. As menores só passam se aparentarem
maioridade e, além disso, portarem um documento falso. "Os estran-
geiros com quem conversamos repudiaram a pedofilia. Eles disseram
estar em busca de mulheres e não de crianças", diz Ana Paula.
É o que confirma o americano Gerald, de 25 anos. Na boate Help, em
busca de companhia feminina para o prazer, brinca dizendo não ser o
cantor Michael Jackson para se interessar por criança. Depois, assume
um tom agressivo. "Gosto de mulher, cara. Muuuuuuulheeeer. Acho que
os homens que querem trepar com criança devem levar uma bala na
cabeça. Se eu encontro um cara assim, ele vai ter sorte se sobrar
algo para a polícia levar embora".
Pai de duas filhas e após dois casamentos, Gerald diz buscar pros-
titutas para evitar novos relacionamentos amorosos. "Sinceramente,
cara, outra esposa, nunca mais. Venho ao Rio porque aqui eu posso
contratar mulher, maior de idade, para atividades sexuais, sem violar
nenhuma lei. Pago a garota de programa para ela ir embora no dia
seguinte". Para evitar problema, Gerald pede para ver a carteira de
identidade. "Se a garota não mostra, paciência, tem muito mais peixe
nesse mar".
O estudo "Nossa Senhora da Help: sexo, turismo e deslocamento trans-
nacional em Copacabana" deverá causar polêmica, mas, passada a grita,
vai permitir que a prostituição no Rio de Janeiro seja debatida de
forma mais honesta. E, quem sabe, as garotas de programa passarão a
não mais ser vistas como coitadinhas que precisam de amparo do estado
ou da comiseração da sociedade.
[fonte: http://nominimo.ibest.com.br]
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