Por uma questão de justiça e por que
tem, no texto, um pouco do contraditório que vivemos....
Mas eu prefiro o CHICO poeta, e
mesmo assim o letrista
com a extrema sensibilidade de conhecer os mistérios da alma
feminina
"Carioca", que chega hoje às lojas, está distante
oito anos do CD anterior,
"As Cidades", de 1998. No meio do caminho, o também
escritor lançou o
romance "Budapeste" (2003). Depois da Copa, ele deve
retornar aos palcos
apresentando o novo trabalho pelo país.
Folha
- No fim de 2004, em
entrevista à Folha, você via uma onda de ódio aos
pobres e
de ódio a Lula no país. Entre aquele diagnóstico e a situação de
hoje houve a
crise do mensalão. Você está decepcionado? O que mudou
no
governo Lula?
Chico Buarque - É
claro que esse escândalo abalou o governo, abalou
quem
votou no Lula, abalou sobretudo
o PT. Para o partido o escândalo é
desastroso. Espero que disso tudo possa surgir um partido
mais correto,
menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia
de que você ou é
petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que
você ou é tucano ou
é burro [risos].
Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao
PT, mas
principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que
se trata do governo
mais corrupto da história do Brasil, é preciso dizer
"espera aí". Quando
aquele senador tucano canastrão vai para a tribuna do Senado dizer que
vai
bater no
Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de
ignorante,
aí
estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está
o
corruptômetro? É preciso investigar. Tem que punir, sim. Mas vamos
entender
melhor
as coisas.
Folha -
Como assim?
Chico - Pergunte a
qualquer pequeno empresário como faz para levar
adiante
seu
negócio. Ele é tentado o tempo todo a molhar a mão do fiscal para não
se
estrepar. O
mesmo vale para o guarda de trânsito. E assim sucessivamente.
A
gente sabe que
a corrupção no Brasil está em toda a parte. E vem agora
esse
pessoal do PFL, justamente eles, fazer cara de ofendido,
de indignado. Não
vão me comover. Eles fazem o papel da oposição, está
certo. O PT também fez
o "Fora FHC", uma besteira.
Mas o preconceito de classe contra o Lula continua
existindo -e em graus até
mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual.
Acaba
inclusive
sendo contraproducente. O sujeito mais humilde ouve e pensa:
"Que
história é
essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?". Não me
lembro de
ninguém
falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo!
Ladrão!
Assassino! -até assassino eu já ouvi.
Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente.
Inventaram
plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a
reeleição. Finalmente,
como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir.
"Agora sai já daí,
vagabundo!" É como se estivessem despachando um empregado
a quem se permitiu
esse luxo de ocupar a Casa Grande. "Agora volta pra
senzala!" Eu não
gostaria que fosse assim.
Folha - Você vai votar no Lula? Chico - Hoje eu voto no
Lula. Vou votar no
Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia
estar atada como está,
ainda há uma margem para investir no social que o Lula
tem mais condições de
atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo.
Precisa ser cobrado. Ele
dizia isso: "Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar,
não quero ficar lá
cercado de puxa-sacos". Ouvi
isso dele na última vez que o vi, antes de
ele
tomar
posse, num encontro aqui no Rio.
Folha - O que você
acha do PSOL e dessa turma que deixou o PT fazendo
críticas pela
esquerda?
Chico - Percebo nesses
grupos um rancor que é próprio dos ex: ex-petista,
ex-comunista, ex-tudo. Não
gosto disso, dessa gente que está muito
próxima
do
fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe
sai
cuspindo
fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima
do
PT e
eventualmente ajudar o adversário do Lula.
Leia a entrevista na íntegra na
Carta Capital desta semama.