| |
|
|
Perigos do dólar a R$ 1,99
11.05.2006 | Apesar das cada vez mais
freqüentes e intensas intervenções do Banco Central, o dólar continua
deslizando e já aponta para uma cotação abaixo de R$ 2. Algo impensável
quando, há pouco menos de quatro anos, ficou claro que Lula seria
presidente e os mercados entraram em estresse, levando o câmbio da moeda
americana a quase R$ 4. Mas a lusitana rodou, o mundo girou e, agora, se
os mercados estão numa boa, a economia real é que ameaça um estresse.
A idéia de que é problema um dólar desvalorizado na moeda local
não é intuitiva. Para o senso comum, ao contrário, um real forte significa
que a economia também está forte. Há mesmo quem, apesar do dever
profissional de informar direito o distinto público, solte foguetes toda
vez que o dólar desaba. Estes estão de olho exclusivamente nos índices de
inflação, que, na visão tosca que difundem, só estarão ótimos se
convergirem para uma zona de deflação.
Parênteses: a idéia de que
deflação nos preços é problema, pelo menos nas versões prolongadas e
acentuadas, também não é intuitiva. Mas, geralmente, é um indicador de
anemia na demanda, ou seja, no emprego e na renda, ou, fenômeno mais raro,
de excesso de oferta, do qual já tivemos experiência na entrada do Plano
Real e de que podem ser observados sinais no atual momento.
É
verdade que o câmbio valorizado tem o poder de jogar a inflação no chão.
Mas também pode ser mortal para a indústria local e o negócio agrícola.
Dependendo do nível da valorização e do tempo em que se estende, não há
competitividade doméstica que resista aos preços, convertidos na moeda
valorizada, dos bens e serviços que vêm de fora. Se nem mesmo economias de
ponta abertas, com moedas conversíveis, mais concentradas em serviços e
produção de alta tecnologia agregada agüentam o tranco, o que dizer das
instáveis e vulneráveis economias emergentes?
O drama é que, quando
uma economia emergente entra num ciclo de valorização cambial, os
primeiros resultados são só sorrisos. Empurrados por uma espécie de
dumping de mercado pelos produtos importados ou pelo desvio para o
mercado interno de parcelas do que antes era exportado e se tornou caro
demais para os compradores externos, os preços tendem a desabar. O lado
risonho dessa história, sempre louvada pelos liberais econômicos de
casaca, é uma melhoria da remuneração real das famílias com preços
estáveis ou até recuando, obviamente, compra-se mais com o mesmo
dinheiro.
Não havendo, porém, nada ou quase nada além do câmbio
para explicar a belezura, é líquido e certo que, passado o efeito da
anestesia, a dor volta, com mais intensidade ainda. É o que já se observa
em segmentos do agronegócio e começa a tomar corpo na indústria
automobilística, depois de desarrumar setores como o têxtil e o de
calçados.
Recorrente nas economias com setor externo vulnerável, o
problema, no caso brasileiro atual, está sendo camuflado pelos inéditos e
positivos resultados da balança comercial. Os saldos, apesar do câmbio
valorizado, têm sido realmente volumosos. Nos últimos 12 meses, alcançaram
US$ 45 bilhões e, embora a tendência seja de redução, as melhores apostas
são de saldos em torno de US$ 40 bilhões no fim do ano. Só que isso se
deve a uma conjuntura especialmente favorável, em que o baixo crescimento
interno ajuda a frear o ímpeto importador e a manutenção do aquecimento do
comércio internacional, puxado pela voracidade compradora da China, abre
espaço para as exportações, sobretudo as de commodities. Até quando a onda
vai durar?
Enquanto isso, dependendo das especificidades setoriais,
a economia real doméstica vai balançando. Depois do fechamento de fábricas
têxteis e da transferência pura e simples de unidades de produção de
calçados para a China, a indústria automobilística dá sinais de que pode
engasgar. A Volkswagen saiu na frente e anunciou a demissão de cerca de 6
mil funcionários um quarto do total de seus empregados! e o fechamento
de pelo menos uma unidade das quatro que opera no Brasil. O presidente da
subsidiária brasileira acusou o câmbio valorizado pelas atribulações
locais da empresa.
A situação da Volks, sem a menor dúvida, é mais
aguda do que a das demais montadoras instaladas no País. Há razões só dela
para as dificuldades que enfrenta, a começar pela perda de mercado para
concorrentes asiáticos até em seu quintal europeu. Também no Brasil, suas
fábricas mais antigas, como a emblemática unidade de São Bernardo do Campo
(SP), perderam o bonde da tecnologia e da produtividade. Mas errará quem
considerar que se trata apenas de um problema isolado de uma empresa em
dificuldades nas suas operações mundiais e locais.
Nem com fábricas
mais modernas e competitivas, as montadoras estão conseguindo superar o
impacto do câmbio valorizado. Sabe-se de contratos de uma montadora de
origem americana, com cinco anos de vigência e movimentando mais de US$
100 milhões de dólares, que vencem em agosto e não serão renovados. A
fábrica estava perdendo US$ 200 por veículo exportado e, além disso, uma
subsidiária européia oferece o mesmo produto a preços mais atraentes.
Especialistas garantem que, no conjunto do setor, as quedas nas margens de
lucro chegam a 20%.
Pior do que isso, não se ouve mais falar em
novas plataformas de produção no Brasil. Na Argentina, os custos de
produção, exceto componentes importados, estão 30% menores e, acreditem,
montadoras já estudam a sério fabricar novos veículos no vizinho de
governo caloteiro e populista, em lugar de produzi-los no Brasil. O
anúncio da Volks chamou a atenção, acendeu uma luz amarela, mas a
reviravolta negativa ainda não é totalmente visível a olho nu. Quem
entende do riscado, contudo, jura que, mantidas as condições atuais, em
até três anos, a produção de veículos na Argentina vai crescer mais do que
no Brasil.
Vamos pagar (com real valorizado) para ver?
|