Lá fora (mesmo na argentina) os problemas maiores gerados
artificialmente não necessariamente têm relação com os problemas menores.
Aqui no Brasil existe uma curiosidade, um crime de proporções maiores
justifica um crime de proporções menores.
A dona que rouba manteiga no mercado é justififcada pois "em Brasília
rouba milhões e ninguém faz nada". Um roubo de R$5000 é abafado com
denúncia de um crime de R$50 milhões.
Lá fora uma denúncia de corrupção que tente ser abafada com uma denúncia
maior se dá mal, pois AMBAS serão investigadas.
On Tue, 16 May 2006 00:54:24 -0300
"ccarloss" <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
c> Clean Clean DocumentEmail false false false MicrosoftInternetExplorer4
c> O "principalmente no Brasil" foi só para enfatizar a nossa atual situação. Mas é uma prática tão antiga quanto o mundo.
c>
c> Carlos Antônio.
c>
c>
c> ----- Original Message -----
c> From: <mailto:[EMAIL PROTECTED]>antonio kleber de araujo
c> To: [email protected]
c> Sent: Monday, May 15, 2006 11:14 PM
c> Subject: RES: [gl-L] Mario Sergio Conti - Estética: escândalos e 'affaires'
c>
c>
c>
c> Partica de todos governos
c>
c> Lembram da Guerra das MALVINAS que o governo militar argentinho procurava uma sobrevida
c>
c> ------------------------------------------------------------
c>
c> De: [email protected] [mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de ccarloss
c> Enviada em: Monday, May 15, 2006 10:01 PM
c> Para: [email protected]
c> Assunto: Re: [gl-L] Mario Sergio Conti - Estética: escândalos e affaires
c>
c>
c>
c>
c> Fa,
c>
c>
c>
c> É uma prática comum o próprio governo gerar um escândalo menor para desviar a atenção ou abafar os que realmente interessam. Principalmente no Brasil.
c>
c>
c>
c> Um beijão.
c>
c>
c>
c> Carlos Antônio.
c>
c>
c>
c>
c>
c>
c>
c>
c>
c> ----- Original Message -----
c> From: <mailto:[EMAIL PROTECTED]>Fatima Conti
c>
c> To: <mailto:[email protected]>goldenlist-L
c>
c> Sent: Monday, May 15, 2006 5:55 AM
c>
c> Subject: [gl-L] Mario Sergio Conti - Estética: escândalos e affaires
c>
c>
c>
c>
c>
c> Oi
c>
c> Parece que vivemos disso, né?
c> É um atrás do outro...
c>
c> --
c> Beijins
c> Fa
c> ----------------------------------------------------------------
c> "Quero aproveitar a oportunidade para agradecer à Antártica as
c> "braminhas" que eles nos mandaram para a comemoração da nossa
c> vitória." - Vicente Matheus (Eterno presidente do Corinthians)
c> ----------------------------------------------------------------
c>
c>
c> Segunda-feira, 15 de maio de 2006
c>
c>
c> Mario Sergio Conti - Estética: escândalos e affaires
c>
c>
c> Um escândalo político gera toneladas de reportagens e editoriais,
c> ironias e indignação, e o fim é sempre o mesmo: não dá em nada. Mesmo os
c> escândalos, por assim dizer, clássicos, os que têm prólogo, enredo
c> claro, personagens bem definidos, choque e desenlace, não dão em nada. O
c> de Collor, por exemplo, levou à sua destituição. Num sentido mais amplo,
c> no entanto, também ele não deu em nada. Ao contrário do que se dizia, o
c> Brasil não foi passado a limpo. O país permaneceu sujo, se sujou ainda
c> mais. A corrupção continuou não só a existir como se fortificou. O
c> escândalo dos anões do orçamento (alguém lembra?) provocou a cassação de
c> uma dúzia de de parlamentares. Agora, com o escândalo das sanguessugas,
c> seria preciso cassar um terço da Câmara dos Deputados. Ninguém tem
c> vontade e paciência para tanto.
c>
c> Os escândalos, pois, devem ser apreciados pela sua lógica, pela sua
c> forma. Criticá-los é comentário estético. É avaliar desempenhos,
c> consistência interna, seus tênues laços com a vida social. Os escândalos
c> atraem atenção não porque se refiram à política. Sua dimensão verdadeira
c> é a da estética. Eles têm narrativa. Eles têm dramas, mistérios,
c> suspense, personagens em conflito, golpes de cena. Parece que se vai
c> descobrir algo importantíssimo. No fim, não dá em nada. Vida que segue.
c> Mas, enquanto durou, foi divertido.
c>
c> ***
c>
c> Esse escândalo de agora, o do mensalão, que já dura quase um ano, no
c> início tinha a forma de um programa de tele-realidade. Com voyerismo,
c> contemplava-se os personagens, à espera da eliminação paulatina de
c> todos. O que restasse, seria o vencedor. A ser eliminado no escândalo
c> seguinte.
c>
c> A forma tele-realidade se esvaneceu porque, contra todas as evidências e
c> torcidas, os personagens não foram eliminados. Os deputados mensaleiros,
c> ao contrário, foram absolvidos em plenário. O eixo da trama se perdeu em
c> várias subtramas (dólares de Cuba, a volta do caso Celso Daniel, a
c> roubalheira em Ribeirão Preto, as ligações da Telemar com o filho do
c> presidente, a disputa dos Fundos de Pensão com Daniel Dantas etc.), que
c> deram origem a outras subtramas, que por sua vez alimentaram mais
c> desdobramaentos (a conexão angolana, a Casa do Lobby, a quebra do sigilo
c> do caseiro, a queda de Palocci, o envolvimento do ministro da Justiça na
c> patranha). Aí vieram o guarda-roupa de Lu Alckmin, as ONGs turbinadas de
c> Garotinho, a sua greve de fome, as Sanguessugas, o chilique de Silvinho
c> Land Rover. Para piorar, Evo Morales nacionalizou o gás. Embolou tudo. O
c> escândalo perdeu sua forma, se bem que comporte epifenômenos
c> interessantes. O meu preferido foi a vaia que José Dirceu, ex-líder
c> estudantil, levou de estudantes da PUC de Minas.
c>
c> Não é ruim que um escândalo perca sua forma, que descambe para a
c> chanchada aloprada. É um passo necessário para que ele acabe, na
c> prática, mas continue a ter uma existência retórica. Nessa categoria se
c> enquadram os dois maiores escândalos da adminsitração de Fernando
c> Henrique Cardoso, o das privatizações e o da compra de votos para a
c> emenda da reeleição. A existência retórica também um dia acabará. Hoje
c> ninguém lembra mais do maior escândalo do governo de José Sarney, o da
c> Ferrovia Norte-Sul.
c>
c> ***
c>
c> O que aqui se chama de escândalo, na França recebe o nome de affaire.
c> A mecânica é a mesma. O que muda é a sua duração, o seu encadeamento, os
c> seus ritmos. Lá, escândalo bom é o que dura mais de uma década, pelo
c> menos. O melhor de todos é laffaire des emplois fictifs, que
c> completará daqui a pouco trinta anos. Ele é do tempo em que o presidente
c> Jacques Chirac era prefeito de Paris. Não acaba nunca.
c>
c> O que está em cartaz no momento é laffaire Clearstream, que foi
c> alçado à pretigiosa categoria de escândalo de Estado. Na verdade, ele
c> é a transmutação de laffaire des fragates de Taiwan, que começou há
c> quinze anos. O seu estopim foi a encomenda, com propinas e corrupção, de
c> fragatas de Taiwan, e na sua atual encarnação envolve uma sociedade
c> bancária do Principado de Luxemburgo, a Clearstream, onde teriam conta
c> figurões da República. O caso, como se vê, é infernalmente complicado.
c> Ele envolve governo, juízes, espionagem, parlamentares, banqueiros. Tem
c> até denunciantes anônimos, que os franceses chamam de corvos.
c>
c> Mas, como convém a um bom escândalo, subitamente ele ficou claríssimo.
c> Ou melhor, um detalhe significativo ficou evidente: o presidente Jacques
c> Chirac e seu primeiro-ministro, Dominique de Villepin, disseram a um
c> espião, o general Philippe Rondot, que ele deveria descobrir que o
c> ministro Nicolas Sarkozy tinha uma conta, secreta e bem fornida, na
c> Clearstream. Ou seja, manipularam um serviço do Estado para prejudicar
c> um adversário político. Adversário que integra o governo.
c>
c> Esse é o cerne. Em torno dele se multiplicam figuras impagáveis, a
c> começar pelo general Rondot. Ele é um espião maniáco pela palavra
c> escrita. Ele teve a pachorra de anotar tudo o que Chirac e Villepin lhe
c> diziam em reuniões secretas. O desastre se produziu porque a Justiça
c> determinou que a polícia apreendesse seus papéis, computadores e
c> documentos. Apesar do processo correr em sigilo de Justiça, as anotações
c> do general acabaram nas páginas do Le Monde. Mais uma vez, como na
c> crise do Contrato Primeiro Emprego, se fala na queda certa de Villepin,
c> na renúncia de Chirac, na antecipação das eleições presidenciais do ano
c> que vem.
c>
c> Um comentarista, Patrick Jarreau, notou que o affaire Clearstream
c> lembra os romances de Alexandre Dumas. Há o rei (Chirac), nobres que
c> disputam a sua sucessão (Villepin e Sarkozy), espiões, tipos misteriosos
c> (os corvos), heróis que viram vilões (o juiz de instrução, um ferrabrás
c> de escândalos anteriores, foi pego em atitude suspeita), vilões que
c> viram heróis (um repórter doido, com delírio persecutório, que descobriu
c> coisas importantes), corrupção, golpes baixos etc. Um romance
c> rocambolesco, em suma. Que no plano estético mostraria a persistência do
c> antigo regime na política republicana. É bem achado.
c>
c> ***
c>
c> Fica a recomendação, portanto. Não percam o affaire Clearstream. No
c> momento, ele é bem mais emocionante que o do mensalão. Tomara que
c> mantenha o pique até a Copa.
c>
c>
c>
c> Retirado de
c> http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=22&textCode=22311&date=currentDate
c>
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