E tem.
 
Carlos Antônio.
 
 
----- Original Message -----
Sent: Thursday, May 18, 2006 6:01 AM
Subject: [gl-L] José Paulo Kupfer - Governo vacila perante boatos


Oi

Falha ou inexistência de sistemas de comunicação
+
Pol[´ticos que não fazem nada
+
Um exército de reserva formado por jovens excluídos entre 15 e 24 anos,
na região metropolitana de São Paulo, que não estuda nem trabalha.

Vixe!

Acho que pode ter muito pano pra manga, ainda :'(

--
Beijins
Fa
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"Águas passadas não dão cólera!"
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Quinta-feira, 18 de maio de 2006

no mínimo


José Paulo Kupfer - Governo vacila perante boatos


É um desafio e tanto analisar o que ocorreu em São Paulo, no fim de
semana do Dia das Mães e nos dias seguintes, principalmente na
segunda-feira negra, 15 de maio, um dia de cão na maior cidade
brasileira. Qualquer análise honesta e isenta de arrogância, diante de
tantas e tão diversificadas questões envolvidas, terá de vir,
fatalmente, acompanhada de um carimbo bem visível de “parcial”. Sem a
pretensão de abarcar tudo e alertado para a evidência de que todo
problema complexo tem sempre uma soluções simples – e totalmente
equivocada – seguem dois pontos para ajudar a pensar. Um com foco nas
causas da crise aguda e imediata, outro nas razões estruturais do problema:

1) Houve falha gritantes nos sistemas de comunicação. As falhas
ocorreram antes, durante e depois. É incrível constatar que não havia um
plano de comunicação para enfrentar crises anunciadas dessa natureza,
nem treinamento para a eventualidade de uma. Abundam evidências de que
inexistia uma estrutura planejada para enfrentar a situação.

A escandalosa omissão das autoridades na orientação das pessoas, por
onde a boataria encontrou o terreno fértil para provocar o pânico que
tomou conta da cidade, pode ter duas explicações: absoluta incompetência
e total falta de senso de responsabilidade das autoridades locais ou
ausência de uma estrutura de informações capaz de, a cada momento,
fornecer a elas um quadro seguro dos acontecimentos, que pudesse ser
transmitido, com segurança à população. Faz mais sentido acreditar na
segunda hipótese, embora a primeira mereça ser inserida na moldura do
quadro geral.

Aqui vai um exemplo, certamente não o único, de fazer chorar. No meio da
tarde da segunda-feira, quando a população começou a correr para casa,
espalhou-se, entre uma enxurrada de outros, o boato de que haveria um
“toque de recolher” a partir das oito da noite. Para “confirmar” a
“informação”, dizia-se que o metrô fecharia as estações as oito da
noite. Era mais um boato, as estações permaneceram abertas, os trens
funcionando normalmente, mas não houve autoridade que, usando os
inúmeros meios à disposição, aparecesse para furar o balão. Rádio, TV,
Internet, nada. Não daria para soltar um comunicado nas emissoras de
rádio, colocar nas TVs um daqueles anúncios rápidos, em que locutores
lêem um texto que rola na tela? Nada e nada. Durante toda a tarde e a
noite, o sítio do Metrô na Internet permaneceu impavidamente imóvel. A
notícia mais recente encontrável era a da inauguração da estação Chácara
Klabin, na linha verde, ocorrida cinco dias antes. Simplesmente o cúmulo!

Detalhe não irrelevante, no item comunicação: onde estavam, na
segunda-feira pelo menos, o presidente Lula, o ex-governador Alckmin, o
ex-prefeito Serra, o deputado Aldo Rebelo, presidente da Câmara dos
Deputados, eleito por São Paulo, sem falar no governador paulista,
Cláudio Lembo, e o secretário de Segurança, Saulo de Abreu Filho? Não
perceberam a dimensão e a gravidade da situação? Ou, pior, não foram
informados da dimensão e da gravidade da situação? A resposta foi dada
pelas pesquisas de opinião, realizadas depois do acontecido. Todos eles
foram considerados culpados.

A ironia da história, que só realça o peso das falhas de comunicação no
enredo de terror que se instalou em São Paulo, é que a grande onda de
violência, com destaque para a queima de ônibus e ataques a agências
bancárias, e o pico das rebeliões nos presídios paulistas, ocorreram
antes da manhã de segunda-feira, não ultrapassando a madrugada. O
balanço posterior dos fatos mostra que, quando o dia clareou e as
pessoas saíram de casa para o trabalho, talvez assustadas pelos
ocorridos da sexta-feira e do fim de semana, mas ainda não em pânico, o
problema concreto era a falta de transporte coletivo, provocado por um
locaute dos ônibus, que levou à suspensão do rodízio de carros. Ao longo
do dia, a violência real limitou-se ao ataque a uma viatura policial no
bairro de Higienópolis, de classe média alta, e a um ônibus incendiado
em Interlagos, bairro afastado da zona sul. O resto foi boato.

2) O que ocorreu é só a ponta de um iceberg. Endurecer penas
específicas, bloquear celulares, modernizar as leis, adotar esquemas de
tolerância zero, ampliar os recursos para segurança, melhorar as
condições de vida dos policiais, tudo isso que está sendo proposto pelos
“encantadores de serpente” que proliferam nessas ocasiões, dependendo do
que e de como se faça, ajudará a evitar que as erupções do tumor do
crime organizado se tornem mais freqüentes. Mas a inflamação é de
difícil e longo tratamento.

Há um exército de reserva formado por jovens excluídos e sem
perspectivas pronto a engrossar as fileiras do crime. Um terço dos
jovens entre 15 e 24 anos, na região metropolitana de São Paulo, não
estuda nem trabalha. São quase um milhão de jovens deserdados, sem nada
a perder, disponíveis para recrutamento – e para substituir os que vão
caindo pelo caminho, na violência da guerra de gangues ou nos confrontos
com a polícia. A confirmar esse fato estão aí as estatísticas de óbitos
consolidadas pelo IBGE.

Causas externas (acidentes ou violência) aparecem como principal causa
da morte de jovens do sexo masculino, no Brasil de hoje, atingindo mais
da metade dos jovens do sexo masculino, a maior parte das periferias
urbanas. Até há 25 anos, as mortes de jovens entre 15 e 24 anos eram
predominantemente relacionadas a causas naturais. Um outro dado exclui
dúvidas: se a proporção de homicídios, na população em geral, é de 50
para cada 100 mil habitantes, a de jovens, homens, entre 15 e 24 anos,
vai a 95,6, praticamente o dobro.

É uma calamidade social que aponta para um horizonte cinzento e
carregado, que levam à conclusão de que a repressão ao crime organizado,
por mais bem sucedida que seja, ainda que necessária, será insuficiente
para eliminá-lo. Pelo menos até que as condições de inserção social
mudem radicalmente. Tal mudança exige, é claro, crescimento econômico.
Mas isso não é tudo. Não adianta crescer e abrir vagas de trabalho, se
os jovens aos quais elas se destinam não dispõem de escolaridade, acesso
a bens culturais e de lazer. E, enfim, qualificação mínima, profissional
e social, para ocupá-las decentemente.


Retirado de
http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=44&textCode=22365&date=currentDate


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