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25/05/2006 - 17h35
Superávit primário recorde: Brasil "faz dever de casa" para agradar exterior, mas não para crescer

Veja a entrevista em vídeo

Da Redação

De novo, o aperto fiscal bate o recorde. As contas públicas conhecidas como "consolidadas" --União, Estados, municípios e estatais-- alcançaram em abril o maior superávit da história: R$ 19,4 bilhões. Esses números mantêm o resultado dentro da meta, que é de superávit correspondente a 4,25% do PIB no ano. No período de 12 meses, o superávit acumula, até aqui, 4,5% do PIB.

Enquanto isso, os indicadores do mercado financeiro continuam oscilando como se estivessem numa gangorra: na tarde desta quinta-feira, o dólar cai bastante, a Bolsa sobe e o risco Brasil melhora.

Para o economista, Paulo Rabello de Castro, o Brasil continua fazendo o dever de casa olhando os "professores lá de fora", para agradar "e para nos darem as notas classificatórias", mas não faz uma política para o crescimento e a expansão do emprego.

"Esse superávit muito grande tem, no entanto, pouca repercussão em termos do que mais interessaria, que é saber: será que o governo está começando a gastar direito? Será que está empreendendo uma reforma fiscal para valer? A resposta é: absolutamente não", avaliou, em entrevista ao UOL News nesta quinta-feira.

"O governo está fazendo só uma economia, que é esse superávit primário anunciado, para depois (o que não foi anunciado ainda) gastar essa economia por meio de uma conta de juros, a maior do mundo, reinjetando esse sacrifício naqueles que arrecadam os juros", comentou Rabello, destacando que agora, com a movimentação do dólar, possivelmente os juros não vão cair tão rápido "quanto a gente estimava que pudessem".

"Lula está seguindo a política de FHC"

Comentando as pesquisas eleitorais divulgadas ontem, que dão uma reeleição folgada a Lula, caso a votação fosse hoje, Lillian Witte Fibe perguntou ao economista se num segundo mandato do presidente poderia haver mudanças na polícia econômica, pendendo mais para uma política semelhante à de Evo Morales e Hugo Chavez. "Lula está seguindo, na realidade, a política de FHC. É isso, não muda muito", respondeu Rabello.

O economista explicou da seguinte forma a semelhança que vê entre o governo Lula e a transição do primeiro para o segundo mandato de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. "Muita gente diz que o novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, já está empreendendo uma certa guinada rumo a uma versão mais produtiva e menos carrasca em termos de política de juros elevados. Isso é tão verdadeiro quanto a mudança do primeiro mandato FHC --que foi de juros altos e prejuízo ao setor diretamente produtivo-- para, no segundo mandato, uma política que começou com uma desvalorização cambial forte e que, em seguida, partiu para um trabalho de recuperação do setor produtivo, principalmente no ano 2000. [Trabalho esse] que foi truncado pela crise de energia em 2001, como tanto reclamam os fhcistas, fernandistas."

"Está pintando uma coisa muito parecida, com a diferença de que o governo Lula já antecipa os efeitos da necessária reformulação cambial bafejada pela saída de capitais que ocorreu nesta semana. Em outras palavras, isso e a transição entre o primeiro o segundo mandatos de FHC não têm muita diferença."

Gasto com o social

No lado da política social, Rabello disse que Lula já está fazendo uma aproximação "fortíssima" com o seu eleitorado, citando dois programas cujos gastos aumentaram "uma barbaridade" neste ano: o Bolsa-Família, que já passaria de R$ 8 bilhões, e o Pronaf (Programa de Agricultura Familiar), com aproximadamente R$ 10 bilhões gastos.

"Isso é uma massa eleitoral que está muito satisfeita com o presidente Lula. E se pensarmos que a soma dessas duas despesas corresponde de 10 a 15% do total dos juros que o governo gasta, esse imenso gasto social é justificável", comentou Rabello. "Eu defendia esse gasto. Se estivesse ligado à educação, seria mais inteligente ainda. Diria que o Lula, nesse sentido, está sendo um grande liberal."

"O que ele vai fazer política e ideologicamente em termos de manipulação de massas, e se isso é vinculado a um movimento tipo chavista ou evo-moralista, vai depender das massas, do Lula, da mídia... Mas acho que o Brasil é muito diferente da Bolívia e da Venezuela, isso não vai acontecer aqui."
 
Já vimos este filme. E dessa vez corremos o risco de um
desenvolvimento menor que o do Haiti.
 
Carlos Antônio.


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