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Eu não vejo uma solução que se possa chamar de
pacífica se quisermos acelerar o processo de limpeza.
Ou partimos para o embate agora, ou preparamos a
próxima geração para preparar a seguinte que deverá preparar a futura para
melhorarmos. Aí o trabalho é de dez gerações pelo menos. Deixamos que as coisas
chegassem a tal ponto que só há esses dois caminhos.
E os que tem ocupado o poder não se dão conta
disso.
Acho mesmo que é mais provável uma convulsão social
próxima que um trabalho de longo prazo. E isto de qualquer forma trará um
período posterior de ajuste e reeducação, seguido de uma árdua luta de criarmos
uma sociedade informada, preparada e consciente.
Beijão.
Carlos Antônio.
----- Original Message -----
From: Fatima Conti
Sent: Sunday, May 28, 2006 2:50 AM
Subject: [gl-L] Re: Fernando Gabeira - Os bandidos na mesa do
café Oi Carlos O pior de tudo é que tem tanta gente envolvida, tanta gente que se protege, que parece não haver saída. Nem a da violência. Afinal teríamos que matar quantos para promover uma limpeza? 80% da população brasileira? Temos mesmo que viver num país corrupto até os ossos? Isso não vai explodir em algum momento? -- Beijins Fa ---------------------------------------------------------------- "Meu computador está parecendo uma tartaruga com cãibra." ---------------------------------------------------------------- ccarloss escreveu: > > Fa, > > Eu vou a Belém levar as msgs para você. > E não precisa me receber de camiseta. Ela fica pra depois. > > Gabeira: Tudo o que ele disse é, infelizmente, verdade. > O grande equívoco de alguns esquizóides de direita é misturar os que > combatiam a ditadura por ideologia e por idealismo, com os > aproveitadores que vieram depois. > Havia a esquerda festiva sim, mas era pensante. Ficava no Garota de > Ipanema ou no Amarelinho, porém com propostas libertárias e não de tomar > o poder para dele usufruir e locupletar-se. A luta era por liberdade. > Nada tem a ver com o PT, surgido muito depois do período mais crítico, > com o Lula, vagabundo esperto, pinçado num movimento sindical e elevado > a líder por espertalhões que > ao mesmo tempo faziam o jogo da ditadura e posavam de oposição. O ideal > daquela juventude nada tinha com o Zé Dirceu, com o Genoíno, com o > Mercadante, manipuladores > inescrupulosos que mostraram a verdadeira cara ao assumir o poder. E ao > conseguirem o intento, aliaram-se aos que sempre estiveram bajulando o > governo, fosse ele qual fosse. E oficializaram a roubalheira, tão antiga > quanto a república mas não tão despudorada e safardana como é agora. > O fato de eu ter participado de movimentos sérios contra o regime > ditatorial, não impedia que eu tivesse amigos militares e que nunca > compactuaram com os métodos empregados. Alguns já se foram e outros > conservo até hoje > para minha alegria. > Com o Gabeira nunca tive muita proximidade naquela época. Mas depois da > anistia, numa palestra que ele fazia na Faculdade de Filosofia Santa > Dorotéia, em Friburgo, tivemos um atrito sério e quase quem sai preso > fui eu, por vê-lo aproximar-se daqueles que pura e simplesmente > aproveitaram-se e se estavam aproveitando mais ainda da abertura > política apara atender os seus interesses. > O resultado aí está. > Já de algum tempo o Fernando começou a enxergar isso e hoje faz o > lamento que fez por ver ir para o esgoto político que comanda o país os > ideais que tínhamos de uma sociedade mais justa e equilibrada. > Creia, Fa, não se pode misturar, nem de um lado e nem de outro, todos > num mesmo balaio. > Temos um Congresso que nos envergonha e envergonha os poucos que se pode > excluir dele como pessoas de bem. > Sobre o executivo, desnecessário falar. E o judiciário é também , em sua > maioria, uma corja a serviço da ilegalidade e da impunidade. > Por tudo isso o Gabeira reviu posições e desabafou. E o fez como um > desafio a quem quer que seja a provar que não seja verdade tudo o que disse. > E conclui de maneira irrefutável quando diz que o único modo de mudarmos > o triste quadro que estamos vivendo é continuar o combate. > > Um beijão. > > Carlos Antônio. > > ----- Original Message ----- > *From:* Fatima Conti <mailto:[EMAIL PROTECTED]> > *To:* goldenlist-L <mailto:[email protected]> > *Sent:* Saturday, May 27, 2006 6:40 AM > *Subject:* [gl-L] Fernando Gabeira - Os bandidos na mesa do café > > > oi > > Ai, ai, fiz uma besteira aqui e perdi quase todas as msgs de ontem e > hoje de madruga > > Se não respondi algo importsnte me mandem de novo, por favor. > > Enquanto isso, você viu as considerações de Gabeira sobre o "mundo ruindo"? > > -- > Beijins > Fa > ---------------------------------------------------------------- > "Quando os pais deixam de ser quadrados, a filha fica redonda." > ---------------------------------------------------------------- > > > 20 de maio de 2006 > > Fernando Gabeira - Os bandidos na mesa do café > > > Depois de uma hora de braçadas tranqüilas, saio da piscina e subo numa > arquibancada de madeira para tirar a toalha da mochila. Olho para uma > edificação baixa de tijolos vermelhos, com uma placa: alameda Paissandu. > Diante dela, mesas brancas, cadeiras. Numa delas dorme o gato Amaral. O > sacana do Amaral, como o chamamos: gordo, castrado, sonolento, ainda > assim faz das suas, encostando-se nas gatas, irritando a torcida do > Flamengo, "precisamos acabar com esses gatos no clube". > > Nesses momentos de contemplação, nuvens desenhando anéis em torno da > estátua do Cristo, sinto uma dor por ter dedicado tantos anos à > política, com tão escassos resultados. Invade-me uma vontade de mudar de > vida, fazer como o narrador do romance "O Enigma da Chegada" (de V.S. > Naipaul), que se retira para o interior e passa apenas a observar e > escrever o que está na sua frente. > > Segunda-feira, auge da crise de violência em São Paulo, parti para > Brasília para fazer um discurso de solidariedade e propostas, pensado > durante o fim de semana sangrento. Não pude realizá-lo até o fim, embora > o plenário estivesse vazio. Minha palavra foi cortada por um presidente > ocasional. Ele vem do Norte toda segunda-feira e assume a presidência > porque não há ninguém para abrir as sessões. Dá a impressão aos seus > eleitores de que é importante, embora já tenha sua prisão preventiva > decretada e inúmeras processos. Limitei-me a dizer: "Vossa Excelência é > um bandidaço", embora soubesse que até os insultos seriam usados por ele > junto aos eleitores como sinal de importância. A um jornal de Brasília, > declarou que aqueles que assistem à TV no seu Estado pensam que é o > presidente da Câmara. > > Ele é desse numeroso e sórdido grupo com que, depois de tantos anos de > lutas e sonhos, tenho de conviver no café da Câmara: contas fantasmas, > entidades fantasmas, ambulâncias superfaturadas, desvios de verbas no > hospital do câncer. A própria luz do Planalto atravessando as vidraças e > banhando os flocos de poeira que flutuam nos torna também fantasmas, e > você olha a mancha de iogurte na mesa do café, duvida se aquilo não é um > ectoplasma desses putos que pintam o cabelo e beliscam a bunda das > secretárias. > > Marcola, o líder do PCC, já leu mais livros do que todos eles juntos; os > da minha geração, que tiveram uma base político-militar -não no sentido > de terem feito ações armadas, mas por terem curiosidade em relação às > leis da guerra-, esses praticamente saíram de cena. > > Fiquei surpreso ao perguntar por um grande nome do Partido Verde alemão, > que surgiu nos anos 60, e soube que, ao deixar o governo, está quase > aposentado. Lembrei de tantos outros que se voltaram para suas > especialidades acadêmicas, dos que morreram, dos que simplesmente deram > uma banana para a idéia de transformar o mundo. > > De uma certa maneira, foram poupados dessa humilhação que sinto todos os > dias ao ver que os bandidos estão triunfando na vida pública, que não só > tomaram conta de tudo mas também tomam café ao seu lado, riem para você, > falam sobre o tempo e reclamam da dureza da vida política. > > É uma ilusão pensar que o mundo do crime ignora essas variáveis. Marcola > já esteve aqui depondo e, nos poucos minutos que passei pela sala, > olhou-me com muita freqüência, como se quisesse dizer: com esse tipo de > gente me interrogando jamais sairá outra coisa, além do desprezo recíproco. > > O mundo que está ruindo aos meus pés é muito desconcertante, pois leva > consigo toda uma forma de pensar a política que nos reduz ao ridículo de > tentar trazer a guerra urbana de São Paulo para o parlamento e ser > interrompido por um idiota que está posando de presidente para seus > eleitores do Norte. > > O mundo que está ruindo nos impõe a humilhação de chamar de Congresso > brasileiro um lugar onde os dirigentes da mesa estão mergulhados num > escândalo e nem sequer pedem licença para serem investigados, um lugar > onde o corregedor, num ano eleitoral, foi o primeiro a ser multado pela > Justiça por fazer propaganda fora de tempo. > > Numa semana tão importante, talvez não devesse enfatizar minhas > frustrações. Acontece que não estou sendo humilhado sozinho, nem o está > a pequena parcela de deputados honestos. > > Enquanto não se desvendar o elo entre as quadrilhas que queimam ônibus, > metralham policiais, fuzilam inocentes e os bandidos que nos cercam, > poucos vão sentir a humilhação que sinto. E quando falo de vínculo não > me refiro a advogados, emissários ou mesmo um ou outro deputado que > possa estar ligado ao crime organizado. Refiro-me ao plano simbólico tão > bem expresso na célebre frase carioca: está tudo dominado. > > O tudo dominado revela-se não apenas em números mas também em encenações > falsas, pequenas omissões, um rígido controle da agenda para que venha à > tona o debate dos verdadeiros problemas do país. > > Aqui as matracas, os "treisoitões", as bananas de dinamite > transfiguram-se em questões de ordem, permita-me um aparte, regimentos > internos. Aqui e ali, no Planalto, onde instalamos um governo destinado > precisamente a mudar tudo isso e que, no fim das contas, apenas > exacerbou o processo, degradando-se e nos degradando. > > Só penso em aposentadoria quando vejo o Amaral, gordo, castrado e > sacana: divagações à beira da piscina. Não rolei tanto barranco para > entregar o ouro aos bandidos. Se há uma boa maneira de viver os últimos > dias, essa maneira ainda é o combate. > > > Retirado de > http://www.gabeira.com.br/blog/blog.asp?id=2235 > ------------------------ Yahoo! Groups Sponsor --------------------~--> Everything you need is one click away. Make Yahoo! your home page now. http://us.click.yahoo.com/AHchtC/4FxNAA/yQLSAA/IRislB/TM --------------------------------------------------------------------~-> --- Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se. Comentários: www.yahoogroups.com/group/goldenlist-L/messages Newsletter: www.yahoogroups.com/group/goldenlist/messages Yahoo! 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